‘Ouvi no rádio’: a credibilidade radiofônica no Brasil

A história do rádio está presente no Brasil há mais de um século, e durante esse tempo, essa forma de comunicação consolidou-se quanto à sua credibilidade e influência.

Desde a sua criação, o que mudou e o que fica? Qual a relação do rádio com uma comunicação de amplo acesso? Qual o seu papel na democracia? Qual o seu futuro?

A TRADIÇÃO

Em 6 de abril de 1919, pela Rádio Clube de Pernambuco, as ondas radiofônicas chegaram pela primeira vez a milhões de ouvidos brasileiros. Em meio a transformações culturais e políticas, a ascensão do movimento modernista, uma democracia agredida pelo coronelismo do século XX e em um período entre duas guerras mundiais, o rádio precisou conquistar seu espaço e a confiança dos brasileiros. 

Se hoje a frase “eu ouvi na rádio” é sinônimo de notícia verdadeira, com alto padrão de pesquisa e verificação, isso é graças há anos de trabalho bem feito, trabalho este que conseguiu atingir a grande massa. O professor universitário de disciplinas relacionadas ao áudio e estudioso do rádio Roberto D’ugo aponta a importância radiofônica e seu papel como “o primeiro veículo de comunicação em massa da era elétrica e eletrônica, que se tornou porta-voz para várias gerações, expondo os principais fatos locais e internacionais”. Com instantaneidade e precisão, o radialismo narrou momentos importantes da história do Brasil e do mundo, como a Segunda Guerra Mundial e diversas eleições. 

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Ary Barroso, compositor, músico e radialista.
Foto: Reprodução/Instituto Moreira Salles

O professor destaca uma pesquisa da Alter Agents, realizada nos Estados Unidos, que aponta que, para quase 70% dos entrevistados, o rádio é uma mídia confiável, ficando à frente de todos os demais meios de comunicação. Quando comparado com as redes sociais, por exemplo, o radiojornalismo ganha 13% de vantagem quanto à confiança do público nas notícias. O professor acredita que isso se deve ao ambiente repleto de fake news presente na internet e ao padrão jornalístico de apuração do que é noticiado por meios radiofônicos. O nome e a tradição, em suas palavras, são valores centrais que o rádio ainda preserva.

A IMERSÃO

Despido de recursos visuais, o radialista tem o papel de encontrar maneiras para trazer um tom de veracidade aos fatos narrados. A sua qualidade central é a capacidade de colocar quem escuta dentro da história. Mas, como fazer isso com uma audiência que não pode “ver para crer”? Por meio do uso de recursos de linguagem que permitem uma narração próxima a um bate-papo com o ouvinte, cria-se um ambiente que desenvolve um vínculo afetivo, dando palco para uma noticiabilidade de confiança. 

Diferente da televisão, o público radiofônico é inserido na programação, e, muitas vezes, tem impacto e influência nela. Um exemplo disso é o recebimento de ligações telefônicas dos ouvintes, ao vivo; situação em que o público recebe um espaço para pedir músicas ou até mesmo para fazer perguntas ao locutor. Para D’ugo, isso se explica de maneira muito simples: o rádio trabalha com uma realidade aumentada e foi o primeiro veículo de comunicação em massa que se utilizou da imersão do ouvinte dentro da narrativa.

“É uma imersão, porque você abstrai todo o entorno e começa a viver as palavras. Seja uma trilha sonora, seja um efeito, sejam os ruídos do ambiente, do cenário em que ocorrem os fatos narrados por uma reportagem.”

Neste campo sensorial, o comunicador e o ouvinte trabalham juntos: enquanto um manipula a notícia dentro da melhor narrativa possível, o outro é responsável por ilustrar em sua mente tudo o quê escuta.

Partindo dessa premissa, cabe ao locutor a responsabilidade de cuidar da maneira com que essa dinâmica será guiada, a fim de manter um padrão jornalístico de objetividade e veracidade em suas descrições e construções imagéticas, produzidas por meio do detalhamento de características físicas dos personagens envolvidos, especificações do ambiente em que se passa a cena, efeitos sonoros e, até mesmo, o tom de voz empregado. 

O FUTURO DO RÁDIO

ESQUINAS realizou uma pesquisa a fim de coletar dados sobre a relação do público de diversas faixas etárias com o rádio. Quando perguntados sobre a frequência com que consomem essa mídia, 51% dos entrevistados afirmaram que escutam ocasionalmente ou nunca. Dentre essas pessoas, 96% têm entre 17 e 23 anos.

Esse levantamento é reflexo, principalmente, de uma juventude influenciada pelas redes sociais, que busca notícias rápidas e de fácil acesso. Todavia, esses são elementos importados da lógica do rádio, que, a princípio, propõe uma cultura imediatista e democrática.

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é hora do rádio conquistar seu lugar entre a população, e se reinventar, a fim de garantir sua longevidade, mantendo valores como a qualidade da notícia e o amplo acesso.
Foto: Pexels/Pixabay

A influência do rádio em comunidades menores, como bairros ou pequenas cidades, é de extrema importância, ainda hoje. O ouvinte se sente representado e correspondido em programações que refletem sua cultura, narram os fatos de onde mora e que lhe dão voz, promovendo um vínculo entre os ouvintes e as emissoras. 

Em um cenário de globalização, é imprescindível preservar a força de rádios locais e unir esse meio de comunicação à novas tecnologias, abrindo espaço para programações com imagens e maior interação, mas preservando o protagonismo do discurso sonoro, que deve bastar na ausência de telas. 

Como no início, é hora do rádio conquistar seu lugar entre a população, e se reinventar, a fim de garantir sua longevidade, mantendo valores como a qualidade da notícia e o amplo acesso.

Autor: Gustavo Ávila de Rosa.

Fonte: Cásper Líbero.