Indígena venezuelana trabalha para a integração de mulheres da etnia Warao, no Pará

Mariluz mobilizou mulheres artesãs de sua etnia para continuar a produção de artesanato; hoje ela é uma liderança que atua em defesa dos direitos da comunidade em que vive.

Há pouco mais de cinco anos, Mariluz, 31, iniciou uma jornada incerta. Buscando garantir a alimentação básica para a família, a venezuelana da etnia Warao deixou sua comunidade de origem e foi buscar renda na zona urbana da Venezuela. O trabalho formal lhe permitiu a permanência na cidade por alguns meses até que a situação se tornou mais difícil, ficando sem outra solução senão partir. Assim, ela e a família decidiram recomeçar a vida em outro país. “O preço da comida estava alto e o salário não era suficiente. Decidimos vir para o Brasil para buscar uma melhor qualidade de vida”, conta.

Acompanhada do marido e de dois filhos, sem dinheiro, Mariluz contou com o apoio de caronas para chegar até Pacaraima (RR). Na cidade fronteiriça com a Venezuela, a família se estabeleceu em um abrigo indígena da Operação Acolhida, resposta humanitária do Governo Federal. “Eu não pensava em ter que mudar para outro país, mas quando tudo aconteceu, eu já conhecia história de pessoas que tinham chegado em Pacaraima. Sabia que lá tinha comida e assistência de saúde”, explica Mariluz. De acordo com informações da Plataforma de Coordenação Interagencial para Refugiados e Migrantes da Venezuela, desde que o fluxo venezuelano aumentou no Brasil, a partir de 2018, já são mais de 414 mil pessoas vindas da Venezuela vivendo no país – dessas, pouco mais de 8 mil são indígenas, a maioria da etnia Warao.

Foram oito meses vivendo no abrigo em Pacaraima.  Durante esse tempo, Mariluz se organizou com outras mulheres Warao, criando um grupo de artesãs. “Sempre trabalhei com fibra do buriti e fazia peças para vender. Quando cheguei lá, não sabia como continuar. Aí criei o grupo com as outras mulheres. Nos organizamos para continuar produzindo e vendendo”, revela. Naquele momento, talvez ela não tenha dimensionado a relevância do seu papel de liderança.

Com o recebimento da documentação, a família partiu para o terceiro destino: Boa Vista (RR). Novamente em um abrigo indígena gerido pela Agência da ONU para Refugiados e seus parceiros, Mariluz voltou a mobilizar outras artesãs e, juntas, organizaram a confecção de cestarias de fibra de buriti. Já sem estoque de matéria prima, elas conseguiram se organizar para ter a autorização ambiental necessária para extrair a fibra do buriti no Brasil e iniciar o processo de produção. Além de colaborar para a criação das peças, Mariluz era responsável por gerenciar a produção e o estoque, e por realizar o envio e entrega de encomendas.

O desejo de voltar a ter uma casa fez com que a família venezuelana avançasse por outras cidades. No tempo em que viveu em Sobral (CE), a família cresceu. No Ceará, Mariluz gestou e viu nascer a filha mais nova. As três crianças, o esposo e ela seguiram então para Manaus (AM) e, de lá, iniciaram a viagem de barco para Belém (PA). É no Pará que a família permanece há cerca de três anos.

De acordo com dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), mais de 8.200 pessoas indígenas venezuelanas refugiadas e migrantes estão registradas no Brasil. Desta população, 10% já foi reconhecida como refugiada.

Empoderamento econômico

Ao longo de todo o processo em diferentes territórios, Mariluz se mostrou resiliente. Organizada com outras mulheres, ela se adaptou aos diferentes cenários das cidades por onde passou.

A necessidade não permitiu que ela parasse. No Pará, sem acesso à fibra do buriti, Mariluz se reinventou e começou a trabalhar com miçangas. A partir delas, começou a produzir colares, brincos e pulseiras que carregam o grafismo indígena Warao. “Foi muito difícil aprender. As peças são muito pequenas, temos que manter a concentração para não errar. Manter os olhos assim, tão fixados, chegava a me dar dor de cabeça”, conta.

Mesmo que seja uma matéria-prima mais acessível, Mariluz percorre um trajeto de cerca de 30 quilômetros para comprar as miçangas e retornar para sua casa, em uma comunidade onde vivem com cerca de 100 pessoas também da etnia Warao. O trabalho de Mariluz e de outras artesãs da comunidade é vendido em Belém, sempre em feiras, quando são convidadas.

Liderança

A articulação para, ainda em Roraima, mobilizar outras mulheres artesãs revela muito sobre o perfil de Mariluz, que busca melhorias não somente para si, mas para toda a comunidade que a cerca. Desde que se fixou no Pará, ela participa de capacitações que ampliam suas habilidades. Junto aos documentos de toda a família, ela guarda com muito cuidado os certificados dos cursos de mediação linguística e cultural e de formação de liderança, além do certificado de participação como facilitadora intérprete em uma formação sobre violência baseada em gênero.

Por seu posicionamento, Mariluz se tornou representante da comunidade em que vive para a discussão de pautas locais junto ao governo e entidades de apoio. Seu papel vai além da facilitação da comunicação: ela é a pessoa em que moradoras e moradores confiam para os encaminhamentos da vida escolar das crianças indígenas, por exemplo. “Nesses dias, estamos resolvendo as rematrículas das crianças na escola. Também estamos tentando conseguir professores que falem espanhol, já que para algumas crianças ainda é muito difícil entender o português, já que seus pais falam basicamente o Warao”, explica. No último ano, Mariluz também assumiu o papel de facilitadora para a realização de entrevistas do Censo 2022 na comunidade.

Mesmo inserida em uma comunidade volumosa e com boa parte do seu dia preenchido com tarefas de cuidado, Mariluz se sente incompleta. Sua mãe, seu pai e sua filha mais velha permanecem na Venezuela. “Nos falamos todos os dias por mensagens no celular, mas não é a mesma coisa. Mesmo vivendo com meus outros filhos e meu esposo, eu sinto falta da minha família”, desabafa. Embora seja uma decisão difícil, ela não tem planos de deixar o Brasil. “Aqui temos alimentos. Aqui comemos. Lá, na situação em que nos encontrávamos, chegamos a ficar dias sem comer”, lamenta.

Fonte: ACNUR.