Do X ao Z: as gerações que escutam Racionais MC’s

Desigualdades, racismo e violência urbana nas músicas do Racionais mantêm letras atuais e geram identificação com o grupo há décadas.

O show estava marcado para às dez da noite. São quase quatro da madrugada. O DJ, entre funks atuais e raps dos anos 90, mais tapa buraco do que entretém o público. Na pista, são muitos. Uma multidão em alvoroço. Impaciência e empolgação se misturam entre feições, vozes e gestos. “Cadê, mano?” Tom de esperança e frustração. Não é um atraso comum. Pode ser estratégia para levar a tensão ao limite e causar uma erupção. Pode ser apenas um fiasco.

Chama atenção, entre os rostos de quem aguarda, a falta de consenso quanto a uma faixa etária predominante. Jovens, adultos, senhores. A angústia, e um certo tédio, pela espera não tem idade. Entre revolucionários insanos e marginais, prevalecem os antigos e os modernos. Para eles, são imortais os astros da noite. O atraso ainda assim preocupa: “se não rolar vai ser zoado”, resmungam.

Eis que o tão esperado silêncio prolongado acontece. O público parece entender o momento como um divisor de águas. Emudece, sem respirar. A voz grave de Mano Brown não pede licença. Faz a tensão irromper em euforia e fúria — como uma bomba nuclear — ao recitar os versos iniciais de Capítulo 4 Versículo 3.

IDENTIFICAÇÃO E ASSIMILAÇÃO DOS RELATOS

Desde 1988, o grupo Racionais MC’s coleciona, mais que sucessos, uma base ampla de fãs e admiradores por todo Brasil. Não foram os precursores do gênero no país, mas disseminaram o rap como poucos. Permanecem sendo referência mais de três décadas após seu surgimento. “As letras deles ainda falam alto. No Capão Redondo, M’Boi Mirim… a gente escuta muito Racionais nas periferias”, relata Fábio Baiter, de 42 anos, seguidor do grupo desde 1993, ano de lançamento do seu primeiro álbum, Raio X Brasil.

De um sucesso para outro, sete, dez ou quinze anos os separam. Talvez mais. João Matiusso, 20, se emociona assistindo a apresentação do grupo que acompanha desde os oito anos de idade: “Sensacional. Olho para o Brown e parece que estou vendo Jesus Cristo”. A vontade do rapaz é de chorar ao ouvir A Vida é Desafio. “Parece a primeira vez que estou ouvindo”, repete com brilho nos olhos. “Me identifico, porque no começo ele diz que o sonho dele era ser jogador de futebol”, conta João.

O grupo de Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay parece contar histórias conhecidas por quase todos ali. Mesmo quem não vive a rotina periférica consegue assimilar o que é denunciado nas letras: “Não rola uma identificação. Eu absorvo a experiência a partir da perspectiva social”, explica a professora Stella Aragão, 32, que complementa com a necessidade de conhecermos alternativas às narrativas consolidadas.

APOLOGIA X CONTAR A REALIDADE

“Tem mano que te aponta uma pistola e fala sério ou explode sua cara por um toca-fitas velho. Click, plau, plau, plau e acabou. Sem dó e sem dor. Foda-se sua cor”

— Racionais MC’s, Capítulo 4 Versículo 3

Violência urbana é tema recorrente ao longo do show. Em especial, aquela sofrida diariamente nas periferias e áreas mais carentes da capital paulista. “Eles falam muitas verdades. Falam o que a sociedade não quer ouvir”, constata Fábio. Racismo, truculência policial e desigualdades também permeiam as letras.

Críticos do grupo de rap acusam-no de fazer apologia ao crime. “Nada a ver isso. Eles relatam só a realidade”, rebate João. Para Matheus Pereira, 19, estar ali é “encantador”. O barulho do público não incomoda: “Tudo que eu quero é assistir os caras. Foram ídolos de várias gerações.”

UNIÃO E PERTENCIMENTO

O cansaço da espera e do clima quente resultaram em muita gente passando mal. Espectadores se apoiavam na grade divisória da plateia e do palco, formando um pequeno corredor para organizadores e produtores transitarem. Ali ocorreu um dos grandes momentos da noite. Para quem enxergou o Cristo em Mano Brown, certamente, aquilo poderia ser descrito como um episódio redentor.

Ice Blue deixa o palco e se aproxima da grade onde estão algumas pessoas que sentem algum mal-estar. A presença dele “ressuscita” aqueles tomados pelo cansaço e desgaste. Canta cara a cara com todos, se mistura com o público e faz com que busquem o que restou de força para acompanhá-lo. Cantar Negro Drama chorando, gritando, sentindo que poderia desmaiar a qualquer momento — mas olhando nos olhos do Ice Blue — é uma sensação indescritível.

Cantando That’s My Way, Edi Rock fecha a apresentação com chave de ouro. Quando as luzes se acendem, é difícil encontrar alguém que não tenha o olhar marejado, a voz rouca e embargada, as mãos trêmulas e a exaustão estampada no rosto.

Seja por identificação, por lembranças especiais ou pela atmosfera que se instaurou no lugar, a emoção esteve presente e tomou conta de quem estava no local. Os Racionais MC’s conseguiram criar uma comoção coletiva. Todos ali, na platéia, curtiram e cantaram juntos. Pessoas se abraçaram, ao menos em um momento do show, e recitaram versos sem sequer se conhecerem.

As percepções de João e Fábio talvez dêem conta de sintetizar os múltiplos sentimentos identificados e vivenciados durante o evento. “Não existe sorte. Os Racionais não foram os primeiros, mas eles atingiram outros nichos. Você vai falar de rap para qualquer pessoa e ela vai remeter aos Racionais”, diz o mais jovem. “Eles não têm aquela arrogância. Eles se misturam com o povo. São periferia mesmo”, finaliza o mais velho.

Autores: Gabriel Bertoli, Gabriel Serpa e Mariana Baiter.

Fonte: Cásper Líbero.