Juiz de Fora está entre os municípios brasileiros com maior número de moradores vivendo em áreas classificadas como de risco para deslizamentos e enchentes. Estimativas técnicas apontam que cerca de 129 mil pessoas residem em regiões vulneráveis, especialmente em encostas e áreas próximas a cursos d’água. O dado acende um alerta sobre a necessidade urgente de políticas públicas contínuas de prevenção e planejamento urbano.
A informação ganhou ainda mais relevância após a cidade registrar o maior volume de chuva da história em um único mês, com acumulado superior a 740 milímetros em fevereiro de 2026. O resultado foi uma sequência de deslizamentos, enxurradas e milhares de famílias atingidas.
Juiz de Fora está entre as cidades mais vulneráveis do país
Levantamentos técnicos nacionais identificaram Juiz de Fora como uma das cidades com maior concentração populacional exposta a riscos relacionados a chuvas intensas. Entre os municípios do interior, o cenário é considerado um dos mais críticos.
As áreas classificadas como vulneráveis incluem encostas íngremes, regiões com solo instável e bairros próximos a córregos e ao rio Paraibuna. Nessas localidades, a combinação entre relevo acidentado, drenagem urbana insuficiente e ocupação irregular amplia o risco de tragédias em períodos de precipitação extrema.
Especialistas ressaltam que o problema não está apenas no volume de chuva, mas na interação entre fenômenos climáticos e a forma como a cidade foi ocupada ao longo das décadas.
Relevo montanhoso e urbanização intensificam riscos
Juiz de Fora está situada em um vale cercado por morros e serras, com altitudes que variam entre cerca de 470 metros e quase mil metros. Essa configuração geográfica favorece a concentração de nuvens carregadas quando sistemas meteorológicos se instalam sobre a região.
Durante o período recente de temporais, o solo já estava saturado por chuvas acumuladas. Quando novos volumes intensos atingiram a cidade em poucas horas, a capacidade de absorção foi ultrapassada. O resultado foi o deslocamento de terra em áreas previamente mapeadas como de risco.
A retirada da vegetação natural para construção e a expansão urbana sem infraestrutura adequada também contribuem para reduzir a estabilidade do terreno. As raízes das plantas ajudam a manter o solo firme e a absorver parte da água da chuva. Sem essa proteção, a vulnerabilidade aumenta.
Impacto social é maior nas áreas mais pobres
Grande parte da população que vive em áreas classificadas como de risco pertence a segmentos socioeconômicos mais vulneráveis. Moradias construídas em encostas, muitas vezes sem acompanhamento técnico, ficam mais expostas a deslizamentos.
Durante a tragédia recente, milhares de pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas. As ocorrências fatais foram registradas principalmente em regiões onde a ocupação urbana avançou sobre áreas ambientalmente sensíveis.
Especialistas defendem que a vulnerabilidade social e a vulnerabilidade ambiental caminham juntas. Onde há menor renda e menor acesso a infraestrutura, os impactos de eventos extremos tendem a ser mais severos.
Solo encharcado mantém alerta elevado
Embora a previsão meteorológica indique redução gradual do volume de chuva nos próximos dias, o risco permanece. O solo continua extremamente encharcado, o que pode provocar novos deslizamentos mesmo com precipitações moderadas.
Órgãos de monitoramento consideram alta a possibilidade de permanência de enxurradas e alagamentos em áreas com drenagem urbana deficiente. A combinação entre solo saturado e topografia acidentada mantém o estado de atenção máxima.
Mudanças climáticas ampliam desafios
Projeções climáticas indicam que o Sudeste brasileiro pode enfrentar chuvas mais concentradas e intensas nos próximos anos. Isso reduz o intervalo entre eventos extremos e aumenta a pressão sobre cidades com histórico de vulnerabilidade.
Especialistas defendem a adoção de políticas estruturais permanentes, como revisão de planos diretores, fiscalização rigorosa da ocupação de encostas, instalação de sistemas de alerta e criação de rotas de evacuação.
Com cerca de 129 mil pessoas vivendo em áreas de risco, Juiz de Fora enfrenta um desafio que vai além do evento climático isolado. A tragédia recente reforça a necessidade de transformar mapeamentos técnicos em ações efetivas de prevenção e proteção da população.
