Um relato angustiante sobre invasão de privacidade

Como um dono de motel observou as relações mais íntimas das pessoas.

O livro “O voyeur”, do jornalista Gay Talese, é uma história de não ficção que, em 223 páginas, surpreende os leitores. Jamais imaginamos que alguém, além de observar outras pessoas tendo relações sexuais, sem o consentimento delas, manteria um diário com as suas impressões sobre as relações que elas tiveram. Então, o título é referente à prática que se chama voyeur.

O livro relata a história real da vida de Gerald Foss. Ele construiu e, durante décadas, foi dono de um motel próximo a Denver, nos Estados Unidos. O objetivo do motel era, através de um esconderijo, semelhante às grelhas de ventilação, observar a vida sexual dos hóspedes. Conforme descobrimos na leitura, ele era um voyeur e sabia disso, e desde jovem, tinha o desejo de saber como as pessoas se comportavam sexualmente na privacidade do próprio quarto.

A história começa quando Talese recebe uma carta instigante e anônima, em 1980. Mesmo que Talese não fosse escrever sobre o assunto, porque não poderia usar o nome verdadeiro, viajou até Denver para descobrir a identidade do homem.

Ao chegar na cidade, Foss se apresenta como o remetente da carta, e nos dias que ficou no motel, Talese ficou em um dos quartos de que Foss não tinha privilégios de visualização. Apesar de Talese sentir-se incomodado com a violação de privacidade, ele aceitou o convite de Foss para acompanhá-lo até a plataforma escondida.

Após se conhecerem, eles mantiveram o contato, e Talese começou a receber, pelo correio, uma fotocópia dos textos que Gerald Foss havia escrito, ao longo dos anos, com observações sobre os hóspedes. Foss mencionava a idade, a cor, o gênero, a orientação sexual, e os tipos de relações sexuais que poderiam ser grupais e intersexuais. Além da pesquisa feita por Foss sobre a frequência e a satisfação do ato sexual. Em alguns casos, eles faziam outras coisas, como assistir televisão, além de Gerald descrever os atos dentro do quarto como monótonos.

O livro tem sua credibilidade questionada em relação à algumas informações de Gerald, como a data que o motel abriu. Outro fato duvidoso é se Foss realmente presenciou um assassinato no motel, como mencionado no livro.

É importante considerar que, por causa desse crime presenciado por ele, o livro foi muito criticado na época do lançamento porque Gay Talese não denunciou à polícia.

No livro, o jornalista Gay Talese justifica os atos de Gerald Foss ao escrever que não seria uma ação pervertida, e sim, seriam anos de uma pesquisa antropológica.

Apesar desses questionamentos, há fotos do motel, de seus pais, da sua ex-esposa e da atual, de Foss quando criança e já adulto, além da carta que enviou a Gay Talese.

Embora possa ser lido como ficção, é um livro jornalístico de um dos principais precursores do New Journalism, que ao contar um fato, utiliza características da literatura. Nesse livro reportagem, mas também em outros, algumas dessas técnicas, utilizadas por Gay Talese, são descrições de pessoas e lugares, além da inserção de diálogos indiretos.

Nas páginas finais do livro, no posfácio, encontramos a entrevista realizada por Katie Roiphe, com o jornalista Gay Talese, publicada na revista literária Paris Review, no ano de 2009.

Apesar da violação da privacidade e algumas partes chocantes que angustia o leitor, a obra aborda um ponto de vista diferente, inclusive de outros livros com a mesma temática, e que, na teoria, as anotações poderiam representar um estudo a fim de nos ajudar a refletir sobre as concepções que temos acerca do tema.

Autora: Camila Naegelen (2º semestre) | Foto: Camila Naegelen (2º semestre)

Fonte: PUC-RS.