Sala de aula sem filosofia

Retirada da obrigatoriedade do ensino de filosofia  pode trazer consequências negativas.

Um dos exemplos mais emblemáticos da crise educacional brasileira é a luta do ensino da filosofia no âmbito escolar, que busca valorizar a área mas enfrenta crescente descaso. Entender os motivos desta situação é fator crucial para entender os embates travados pela disciplina. 

O ensino de Filosofia passou por diversas idas e vindas na História brasileira. No período republicano a filosofia era obrigatória, então passou a ser optativa. Na década de 1960 e 1970 havia sido excluída, voltando por um breve período e sendo interrompida com a chegada da Ditadura Civil Militar. Em 1990, encontros que tinham como tema central o ensino da filosofia já debatiam sobre o valor formativo da disciplina. Mas foi somente em 2008 que ela passou a fazer parte dos currículos escolares de forma obrigatória. Isso perdurou até 2016, quando o governo Temer pôs em vigor a medida provisória n° 746, que posteriormente tornou-se a lei n°13.415, tornando apenas as disciplinas de língua portuguesa e matemática com caráter disciplinar obrigatório, retirando assim obrigatoriedade de ensino das demais disciplinas nas escolas públicas do país  

A doutora em filosofia Patrícia Velasco, Secretária da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof) e parte do grupo  “Filosofar e Ensinar a Filosofar”, coloca que “ao fragilizar o currículo, desobrigando os jovens a ter acesso às bases científicas e humanas elementares, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prioriza uma profissionalização precoce em detrimento de uma formação humana e técnico-científica qualificada.” 

O retrocesso no ensino de filosofia é abordado também por Sérgio Sardi, professor de filosofia na PUCRS e doutor em Filosofia pela Unicamp/SP: “isso acontece devido às exigências da chamada indústria 4.0, que implicam o reducionismo do sentido da educação, o que se reflete também nos retrocessos sociais e na perda de direitos que a sociedade lutou para conseguir e agora está prestes a perder.” Ele ressalta que cabe à sociedade resguardar o direito de uma formação humana e integral que vise construir um futuro melhor, ao invés de reduzir o ensino a estudos e práticas. 

Nas escolas particulares a realidade é completamente diferente. Álvaro de Oliveira, professor, historiador e sociólogo, explica que “os filhos de pessoas da classe média ou elite não passam por essas dificuldades, pois tem currículos sólidos, bem pensados e planejados”. Ele demostra que o ensino da filosofia ainda é algo elitizado, ou seja, apenas um grupo seleto é o detentor desses saberes cruciais para a construção de uma sociedade que pensa de forma crítica e ética nos problemas que a cercam.  

Christian Lindberg, doutor em Filosofia da Educação (UNICAMP) e professor do departamento de Filosofia da Universidade Federal do Sergipe (UFS), conta que, em um levantamento feito por ele em Aracaju, foi descoberto que “embora não haja obrigatoriedade do ensino da filosofia nas escolas municipais, as escolas particulares, praticamente a metade delas, oferta filosofia no ensino fundamental”. Isso reforça a hipótese de uma elitização disciplinar. 

Deixar de ensinar filosofia para as crianças e adolescentes de escolas públicas pode trazer consequências para o futuro. A historiadora e arquivista Helena Cattani explica que retirar este ensino pode facilitar com que esses futuros adultos se submetam a situações prejudiciais: “minha maior preocupação é que a geração futura vai perder direitos fundamentais em diferentes áreas e não vai conseguir responder de forma hábil, pois não vai entender e muito menos questionar o que está acontecendo”. 

Juremir Machado, jornalista e pesquisador de Comunicação, diz que é preciso formar o imaginário e a mentalidade das pessoas, estimulando a construção de um pensamento questionador. “Eu entendo que os adolescentes precisam muito de filosofia e de todas as disciplinas de ciências humanas, e que não pode se deixar isso para outro momento ou que vá se procurar isso em sites da internet, eu creio que isso seja matéria fundamental de formação das pessoas”, defende. 

A desvalorização no ensino de filosofia não é limitada apenas às escolas, as universidades públicas do país também sofrem ataques. O governo do presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) se mostra um dos grandes inimigos da educação ao apoiar a retirada de verbas educacionais para estes cursos e suas pesquisas. A professora do departamento de Filosofia da PUC-Goiás, Ana Souto, conta que o curso está fechando na universidade: “estamos com a última turma do curso de Filosofia aqui na PUC, o que é uma pena porque é um dos cursos mais antigos da universidade”. Mesmo com esforços da reitoria, o fechamento se faz necessário pela falta de alunos interessados na graduação.

A defasagem educacional que os jovens sofrerão com essa retirada pode ser evitada. Wagner Chagas, graduado e licenciado em Filosofia pela UFRGS, diz que “esse debate pode ser mantido vivo através de protestos vindos de professores e estudantes, assim como usar a internet para compartilhar textos que expliquem o valor da Filosofia e ofertar oficinas dentro das escolas falando sobre o assunto”. Um dos exemplos é o  movimento #FicaFilosofia, em que professores e apoiadores postam textos e vídeos na tentativa de lutar contra essa exclusão.

Autora: Jenifer Santos Teixeira (2º Semestre) | Foto: Reprodução/Pexels 

Fonte: PUC-RS.