Remédios do uso cotidiano podem estar associados a problemas cognitivos, aponta estudo

Os tipos de medicamentos chamados de anticolinérgicos, são usados para enjoo, incontinência urinária e doença de parkinson.

De acordo com um estudo publicado no início do mês de setembro na edição online da revista “Neurology”, uma classe de medicamentos usados ​​para muitas condições, incluindo alergias, resfriados, hipertensão, depressão e  entre outros usos, podem estar associados a um risco aumentado de desenvolver problemas relacionados a falta de atenção, raciocínio e memória. 

Esses tipos de medicamentos, chamados de anticolinérgicos, são usados também, por exemplo, ​​para enjoo, incontinência urinária, doença de parkinson e hipertensão. Existem aproximadamente 100 desses medicamentos amplamente utilizados, sendo que os mais comuns relatados pelos participantes do estudo foram loratadina (para alergia), atenolol e metoprolol (para hipertensão) e bupropiona (para depressão). 

O estudo envolveu 688 pessoas que não tinham problemas cognitivos no início da pesquisa. Os participantes relataram se estavam tomando algum medicamento anticolinérgico dentro de três meses do início do estudo, pelo menos uma vez por semana, por mais de seis meses. 

Um terço dos participantes tomava medicamentos anticolinérgicos, com uma média de 4,7 remédios tomados por pessoa. Após o ajuste para depressão, número de medicamentos em uso e histórico de problemas cardíacos, o levantamento mostrou que pessoas sem problemas psíquicos que tomam pelo menos um anticolinérgico, têm 47% mais chances de desenvolver um prejuízo cognitivo leve, no prazo de uma década, se comparadas com aquelas que não fazem uso de medicação. 

Bernadeth Silva Almeida, 75, moradora de São Paulo e aposentada, toma remédio para pressão alta por mais de 20 anos. Para ela, o uso prejudicou bastante algumas funções básicas. “Eu sinto muita falta de atenção quando estou conversando com alguém, o raciocínio vai embora e faço coisas que depois não lembro, já até briguei com outras pessoas. Isso já acontece por uns 5 anos e cada vez piora”. 

A neurologista Jerusa Amid explica que problemas cognitivos podem surgir de várias maneiras. “Existem as doenças degenerativas, por exemplo, a doença de Alzheimer, que pode surgir após acidente vascular cerebral, ou após traumatismo cranioencefálico. Existem também sintomas associados a distúrbios do humor, como depressão e ansiedade. Associados a distúrbios do sono, como síndrome da apnéia obstrutiva do sono, entre outras possibilidades. Então, muitas medicações podem estar associadas a esses problemas cognitivos”, explica. 

Ela ainda reforça que na maioria das vezes, a suspensão das medicações reverte para uma alteração cognitiva. “Algumas podem causar déficit permanente, como os benzodiazepínicos, que são drogas muito usadas na nossa população, de forma indevida” 

Joelma Patronicio, 43, que reside em São Paulo e é gerente financeira, utiliza medicamentos para fibromialgia, lúpus e depressão há dois e relata que sente problemas cognitivos. ”Começou com o déficit de atenção nos primeiros 3 meses da medicação. Raciocínio lento e perda de memória é algo que foi se agravando com o tempo. Difícil porque também tem a falta de conhecimento e compreensão dos amigos e familiares”, diz. 

As pessoas que tomam esses medicamentos devem discutir a adequação de doses com seus médicos ou farmacêuticos antes de fazer alterações em seus doses diárias, pois alguns desses remédios podem causar efeitos adversos se interrompidos repentinamente. 

Autor: Felipe Laurindo.

Fonte: Metodista.