O olhar da sororidade

A narrativa humanista sob a perspectiva de mulheres chinesas após a Revolução Cultural.

“Para todas as chinesas e para meu filho Panpan”. Assim, a jornalista e escritora chinesa Xinran Hue dedica o mais célebre livro de sua autoria. Entre os anos de 1989 e 1997, a radialista reuniu relatos de 15 mulheres, divididos em 15 capítulos – incluindo a história da própria autora. Lançado oficialmente em 2003 na China, ao longo do livro-reportagem é possível acompanhar detalhes do cotidiano perturbante de diversas mulheres de várias classes sociais e idades de diferentes regiões do país. Com medo de publicar o livro no país de origem e ser presa, a jornalista mudou-se para Londres com o filho em agosto de 1997, onde finalmente tornou possível divulgar as histórias.

Por 8 anos, Xinran comandou uma programa de rádio em Nanquim, no leste da China, chamado “Palavras na Brisa Noturna”. Nele recebia mensagens de desabafos e assuntos do dia a dia dos ouvintes. Há de tudo e relatos de abusos durante a infância, a adolescentes com constantes humilhações, mãe em situação de rua para preservar  a boa reputação do filho empresário e bem sucedido, entre outras situações delicadas de uma realidade presente, porém não vista. 

No entanto, é preciso contextualizar a geopolítica da época, afinal, o país asiático ainda estava passando pelo processo de reabertura nacional para o mundo após a Revolução Cultural (1959-1976) de Mao Tsé-Tung, período de transição política quando foi conduzido uma campanha de perseguição ideológica de pessoas contra os ideais revolucionários do líder comunista. Nessa época, a imprensa chinesa era censurada pelo regime maoísta, atuando como um escudo ao totalitarismo. Dito isso, o programa da radialista servia como apaziguamento depois desse momento conturbado, até como uma forma de conforto àqueles que sentiam a necessidade de serem ouvidos. 

Seguindo a lógica de dar espaço de escuta aos ouvintes do programa, a necessidade de conhecer e de fato mostrar a vivência das mulheres surgiu depois de uma denúncia anônima, quando uma menina foi vendida para ser esposa de um homem mais velho e foi encontrada acorrentada em casa. Depois de averiguar e chamar a polícia, Xinran sentiu que era o momento de reunir histórias reais de mulheres que sofriam com o machismo e a opressão de suas identidades. Ao longo do livro-reportagem fica evidente o posicionamento do olhar em terceira pessoa em relação às personagens anônimas inseridas na obra. Não somente há os relatos das mulheres, mas também é perceptível como Xinran participa de certos momentos juntamente com as entrevistadas.

Cautelosamente, ela apresenta ao público ocidental as consequências da Revolução, quando as mulheres viveram sob a androginia de Mao por 50 anos. Mesmo sendo um livro-reportagem, definitivamente não é um livro para todos os leitores, pois é enriquecido de detalhes das condições das mulheres secretas que, muitas vezes, podem parecer distantes da realidade do leitor. São histórias verídicas e apuradas. Ou seja, As boas mulheres da China, pode causar gatilho por conter uma temática delicada, intensa e principalmente, abrir feridas e dores de possíveis traumas. A autora também lançou livros com a temática cultural chinesa em As filhas sem nome Testemunhas da China.

Autora: Luiza Rech (4º semestre) | Foto: Luiza Rech (4º semestre)

Fonte: PUC-RS.