O impacto da pandemia no ensino das crianças após o retorno das aulas presenciais

O avanço da vacinação e o retorno das aulas presenciais traz consequências para crianças e adolescentes no Rio Grande do Sul.

Devido ao avanço da vacinação no estado do Rio Grande do Sul, diversas escolas estão retornando às aulas presenciais. Entretanto, o longo período de aulas remotas trouxe consequências para a vida das crianças. Por isso, o Editorial J foi em busca de profissionais da saúde e educação para entender os impactos da pandemia e como reverter essa situação.

A pandemia da COVID-19 abalou as estruturas educacionais: os quase dois anos, que inicialmente seriam 15 dias, tornaram necessária uma reinvenção na maneira de educar, seja no âmbito escolar ou no familiar. Os professores da rede pública passaram por dificuldades em se adequar aos novos métodos de ensino online, e os alunos, que até então só tinham conhecimento de um ensino presencial, com o estímulo do professor, agora se encontravam numa posição onde somente eles poderiam ser seus próprios incentivadores.

 “A maior dificuldade foi entrar em contato com os alunos, fazer com que eles fizessem as atividades e corressem atrás, porque não tinham muito interesse. Talvez nem fosse questão de interesse, acho que como nós adultos já tivemos essa dificuldade toda para conseguir acesso nessa questão da informação e formação, para eles foi muito diferente. Tinha essa coisa de buscar o aluno e fazer ele entender que a aula online era tão importante quanto a aula presencial.” 

Kátia Malacarne, professora do Colégio Universitário e da Escola Estadual Rafael Pinto Bandeira em Porto Alegre

A professora Kátia ainda revela que a escola teve que imprimir as atividades e entregá-las semanalmente para cada aluno, pois muitos não tinham como acessar as aulas. Após terminarem, traziam de volta para que fossem corrigidas. Algumas atividades vinham em branco, e ela acredita que isso evidenciou algo que antes não era tão percebido, mas já existia.

“Um problema que já existia há muito tempo, e acabou se mostrando na pandemia, é a falta de hábito de estudo, a falta de lugar para estudar. Colocar o estudo em primeiro lugar não é um hábito, então na pandemia isso ficou muito evidente. As coisas que aconteciam antes aqui e passavam meio despercebidas agora na pandemia ficaram muito evidentes. E eles não têm essa organização e isso ficou bem evidente nesse período.”

A estudante Stefany Silva, do terceiro ano do Ensino Médio na Escola Emílio Massot, conta que estudar em casa trouxe à tona a importância de ter um professor em frente a ela, explicando olho no olho, e que muitas vezes para entender de fato os conteúdos teve que pesquisar no Google. Ainda sim sentia que não estava aprendendo, mas sim replicando uma informação que iria esquecer em seguida.

A vice-diretora e professora da Escola Rafael Pinto Bandeira, Fátima Marques, relata que inúmeras foram as dificuldades passadas por alunos e professores durante o período que precedeu a volta às aulas determinadas pelo governo. As aulas iriam retornar no dia 04 de agosto, mas um infeliz acontecimento retardou o início das atividades escolares.

A escola recebeu a visita da defesa civil, o que atrasou a volta das aulas, devido a uma possível queda de muro. Pronto, muitas pessoas e alunos ficaram arrasados, então continuamos com as vídeo aulas, até tudo se resolver.”

Devido a isso, a escola recebeu a visita do coordenador da primeira Coordenadoria Regional da Educação, para esperar uma solução sobre o caso. O prazo para derrubar o muro seria de uma semana, por isso, um serviço foi contratado e colocaram um tapume no seu lugar.

Além deste fator estrutural, alguns alunos abandonaram a escola, a professora Fátima conta que conseguiu resgatar alguns dos estudantes enviando mensagens pelo Facebook tanto para as mães quanto para os próprios alunos. Essa medida foi necessária, pois os cadastros estavam desatualizados.

Mesmo com a volta às aulas a vida não será mais igual ao que era. A psicóloga Cléo Busanello, assistente de psicologia na Escola Despertar de Educação Infantil, diz que os impactos da pandemia na aprendizagem permanecerão por no mínimo 10 anos, principalmente nas crianças que estão na fase de alfabetização.

 “Com crianças de 6 a 9 anos, por exemplo, não quer dizer que elas não vão aprender, mas talvez tenham dificuldades que não teriam. Essa janela de aprendizagem é um processo contínuo, e se ela se perde a criança terá dificuldades na frente. Uma criança que não aprende a ler direito, por exemplo, vai fazer uma prova do ENEM como? Como ela vai interpretar uma questão de matemática? Não é só pelos cálculos, mas pelo texto em si também. ”

A psicóloga coloca que a relação entre os estudantes será prejudicada, já que ela está muito relacionada à forma com que lidamos com o planeta. O prejuízo no desenvolvimento das crianças será global. Esses impactos das relações permanecerão não apenas nas crianças, mas na sociedade em geral.

A professora Gabriela Kuhn dá aula no ensino municipal na cidade de Montenegro para crianças do pré e alunos do 6º ano. Por lá, as aulas já voltaram desde março. Para ela os alunos do 6º ano do ensino fundamental, por terem um conteúdo mais complexo, foram mais prejudicados e agora sentem a diferença ao voltarem e terem o contato de antes. Exames periódicos demonstravam que o desempenho dos estudantes necessitava de cuidados. Os resultados amostrais do Saeb de 2019, no site do INEP, mostram que as crianças mantiveram a média de 2017, continuando no nível 5 em proficiência na língua portuguesa. Já em matemática, que antes estavam no nível 6, caíram para o nível 4 de proficiência. 

Gabriela ainda coloca que os pais apoiaram muito os filhos e estavam envolvidos na educação de suas crianças, sempre perguntando no WhatsApp e buscando informações. No entanto, ao voltarem para o ensino presencial, as crianças acabaram por ficar mais engessadas, sendo menos sociáveis, talvez por medo de contrair o vírus não podiam e nem tomavam iniciativa para socializar com as demais crianças da sala. Antes, a aula era um ambiente de aprendizagem e brincadeiras, agora todos precisaram se reinventar.

Se para os professores foi difícil, para os alunos o impacto foi enorme. A saudade e a dúvida do que iria acontecer no dia seguinte assombravam o dia a dia de cada um e agora o sentimento é de esperança. 

A volta às aulas é de suma importância para cada aluno e para seus educadores, mas uma coisa é certa, as descobertas de novos métodos de aprendizagem podem influenciar numa readaptação de ensino da grade curricular de cada escola, aproveitando melhor a tecnologia.

A professora Kátia Malacarne faz um balanço do período: “eu me surpreendi bastante com as respostas das atividades das aulas online. Acho que essa coisa do ensino híbrido pode dar certo, porque eles amadureceram muito e tiveram que adquirir o hábito do estudo”. 

Autores:  Jenifer Santos Teixeira (2º semestre) e Messias Stabile Fortes (2º semestre) | Foto: Reprodução/Creative Commons

Fonte: PUC-RS.