O grão de ouro brasileiro: conheça a soja

Brasil retoma o posto de maior produtor do grão no mundo após safra recorde de mais de 120 milhões de toneladas.

O que vem à cabeça quando você lê ou escuta a palavra soja? Talvez se lembre do óleo de soja ou dos famosos sucos de soja. Na verdade, a soja está presente em muito mais produtos do que a maioria das pessoas imagina. Além do óleo de cozinha e das variadas opções de suco, a soja também é utilizada na produção de chocolate, massas, temperos de saladas, margarina e muitos outros. Quanto a saúde, ela é recomendada a pessoas com intolerância à lactose e, também, é uma alternativa natural para a reposição hormonal durante a menopausa. E, claro, não se pode esquecer o fato de que qualquer pessoa que come carne também está, indiretamente, ingerindo soja, devido à presença de uma grande quantidade do grão na alimentação do gado brasileiro.

A multifuncionalidade do grão permite que diversos setores, nos mais variados países, precisem importá-lo para suas produções. Essa necessidade é um fator extremamente positivo para as exportações brasileiras. Neste ano, o Brasil retomou dos Estados Unidos o posto de maior produtor e exportador de soja do mundo, tendo produzido um recorde de mais de 120 milhões de toneladas de grãos, com uma diferença de mais de 20 milhões de toneladas do país concorrente, segundo dados do IBGE e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O supervisor de Gestão Territorial na Embrapa Gustavo Spadotti afirma que estes resultados se dão devido à dedicação dos agricultores, investimentos e o bom fator climático. “Tivemos uma safra muito boa como reflexo do bom cenário que tínhamos durante a época de plantio, devido aos agricultores que decidiram olhar com bons olhos e expandir um pouco mais a área de plantação. Também fomos beneficiados com uma precipitação regular e um bom favorecimento do clima. Com esses ótimos resultados, o agricultor fica mais disposto a investir, seja no aumento da área plantada ou em tecnologia.”

E os benefícios não param por aí. Ainda segundo as projeções globais do USDA, o Brasil deve se manter na liderança na próxima safra, renovando seu próprio recorde com mais de 130 milhões de toneladas do grão, o que especialistas já estão apelidando carinhosamente de “safra de ouro”. Devido ao clima favorável, é possível que sejam produzidas de duas a três safras de grãos por ano em nosso país, exclusividade brasileira e cenário inexistente em qualquer outro lugar do mundo.

Pandemia e produtividade

Este ano, o planeta se viu diante de um novo inimigo do qual não estávamos preparados: a Covid-19. A economia de diversos países do mundo foi afetada, nos mais variados setores, e a projeção do Ministério da Economia é de que ocorra uma recessão que levará a uma queda de 4,7% do PIB até o fim do ano. Entretanto, o agronegócio brasileiro tem resistido significativamente e será essencial na retomada da economia nacional. As receitas aumentaram 9% durante a crise, mostrando a importância e necessidade do setor. O presidente do Conselho de Administração da Cooperativa Agroindustrial (Coplana), José Antonio Rossato Jr, conta que as projeções são positivas dentro do cenário que está por vir.“Acredito que a pandemia nos trouxe vários aprendizados, e um deles é quanto à alimentação. Ficou claro que podemos ficar sem trocar de sapatos, mas não podemos ficar sem comer. O Brasil, como um grande produtor de alimentos mundial, se tornou uma referência durante a pandemia, em parte devido às nossas safras espetaculares, que foram suficientes para alimentar nosso mercado interno e gerar excedentes para exportação. Uma das nossas grandes certezas no agro é a necessidade que o mundo terá por alimentos, fibras e energia no pós-pandemia e nos mostra a necessidade de nos posicionarmos como produtor de comida para todo o mundo”, diz.

Diversificação e equilíbrio ecológico

A sustentabilidade já é um assunto que, cada vez mais, tem se tornado uma necessidade ao invés de um diferencial para as empresas agrícolas. A produção de soja foi reinventada nas últimas décadas. Fatores como tecnologias apropriadas para o solo e clima brasileiro, a implementação de uma legislação mais rígida e a mudança na conduta e no pensamento do agricultor resultaram na maior conservação de solos nas lavouras, na redução no uso de agrotóxicos e na diminuição da taxa de desmatamento. “Enquanto pesquisador, desconheço qualquer lugar do mundo que tenha uma soja mais sustentável que a brasileira. Não só pelo nosso sistema de produção, com boas práticas, mas também pelo bom controle de pragas e doenças, o não desperdício no uso de defensivos agrícolas, a destinação correta de todas as embalagens utilizadas nas lavouras. Somos o único país do mundo que tem uma legislação rígida para produzir e preservar”, afirma Gustavo Spadotti, da Embrapa.

Em junho de 2006, foi criada a chamada Moratória da Soja, um pacto entre o governo, ONGs ambientais e entidades que representam os produtores de soja brasileiros com o objetivo de proibir a compra de soja oriunda de áreas que fossem desmatadas na Amazônia. Com a criação do Novo Código Florestal (NCF), em 2012, a data do pacto foi alterada para 2008 e segue sendo o ano de adesão oficial do governo ao acordo. O NCF passou a autorizar que apenas 20% das propriedades na Amazônia legal sejam desmatadas, sendo obrigatória a preservação de 80% do território. O compromisso se mostrou extremamente eficiente: de 2006 a 2018 a plantação de soja na região amazônica evoluiu de 1,4 milhão de hectares para 5 milhões de hectares, tendo apenas 2% da área desmatada.

Amélio Dall´Agnol, pesquisador da Embrapa Soja, explica que ao considerarmos a estimativa de área e a de produtividade da safra de 2020/21, e compararmos com a produtividade média que o Brasil possuía nos anos 70, seria preciso quase o triplo da atual área para produzir as 133 milhões de toneladas esperadas para a próxima safra. “Isso é sustentabilidade. Fora isso, ainda temos muita área agricultável que está ocupada com pastagens degradadas ou subaproveitadas e que poderão ser incorporadas ao processo produtivo agrícola para aumentar a produção sem precisar de mais desmatamento”, afirma.

Motor do agronegócio

De acordo com relatório do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a soja foi responsável por um terço das exportações totais do agronegócio brasileiro em 2019, equivalente a mais de US$ 30 bilhões. Além disso, as boas colheitas de arroz, laranja, café e, é claro, a super safra de soja, garantiram um crescimento de 1,9% no Produto Interno Bruto agropecuário apenas no primeiro trimestre deste ano.

Aposto que agora, quando ouvir a palavra soja você saberá porque é o “grão de ouro” brasileiro!           

Autora: Bianca Soletti.

Fonte: Metodista.