O futebol é para todos?

Um relato sobre a cultura excludente da maior paixão nacional.

Um dos elementos mais presentes na cultura brasileira, o futebol é apaixonante. Une famílias, amigos e até mesmo estranhos; cria amizades duradouras, lindas memórias e momentos únicos – não é à toa que é o esporte mais popular do mundo.

A explosão de felicidade após o gol, a comemoração de um título, a beleza do drible… tudo isso fica na memória do torcedor, e faz com que o futebol, na maioria das vezes, seja relacionado a coisas boas.

Mas ele tem seus lados feios: qualquer pessoa que já frequentou um estádio de futebol sabe que se trata de um poço de sexismo, racismo e homofobia. Como reflexo da sociedade em que existe, o futebol também é um ambiente extremamente problemático, onde a masculinidade tóxica reina.

A diferença, porém, é que dentro do estádio essas condutas são muitas vezes naturalizadas e tratadas como um simples modo de torcer.  BICHA! – Homofobia estrutural no futebol, de João Abel, fala sobre isso. Focando na problemática da homofobia, João nos conta as histórias de pessoas que são excluídas da paixão nacional por causa de sua sexualidade.

Abel divide a obra em três partes: a primeira é o “CAMPO”, onde ele nos conta um pouco sobre como o preconceito é naturalizado dentro das quatro linhas e como ele afeta os jogadores, depois “ARQUIBANCADA”, onde ele fala sobre as torcidas Queers, e “CAMISA”, onde ele conta histórias de clubes amadores LGBTQIA+.

No “CAMPO”, o autor explica o tabu da sexualidade dos atletas no futebol masculino – exclusivamente no masculino, visto que no feminino isso já não é tabu há muito tempo –  e trabalha a opinião de alguns jogadores sobre o assunto. Além disso, conta histórias de carreiras marcadas pela homofobia, destacando alguns casos.

Três deles chamam a atenção: a trágica história do inglês Justin Fashanu, o primeiro profissional homem a se identificar abertamente como homossexual. Depois, o caso de Richarlyson, ex-jogador do São Paulo e Atlético Mineiro, que passou a carreira sendo discriminado mesmo afirmando ser heterossexual. E por fim, a vida de Messi: goleiro de um pequeno time do Rio Grande do Norte, o único jogador de futebol em atividade assumidamente gay no Brasil.

Na parte “ARQUIBANCADA”, João recupera movimento das torcidas Queer, impulsionadas pela criação da “Galo Queer”. Criada por torcedores do Atlético Mineiro, que após gritos homofóbicos direcionados aos adversários terem partido da torcida atleticana, resolveram fazer algo sobre o ocorrido. Inúmeras outras torcidas nesse estilo surgiram depois disso, incluindo a ‘’Grêmio Queer” e a “QUEERlorado”. Infelizmente, todas existem exclusivamente nas redes sociais: por medo da repressão, não vão aos estádios.

Fica registrado o pioneirismo da ‘’Coligay”, primeira torcida LBTQIA+ registrada no Brasil, em 1977. Criada por Volmar Santos, os meninos da Coligay desafiaram a ditadura militar e as estruturas do futebol em uma época extremamente conservadora. Outras torcidas tentaram seguir os mesmos passos, mas nenhuma foi tão duradoura e marcante quanto a gremista – como o caso da Flagay, que durou muito pouco.

Na terceira parte, a “CAMISA”, o leitor é apresentado a times de futebol amadores exclusivamente gays. Conhecemos também uma liga LGBTQIA+: a “Champions Ligay”. Esses times têm o objetivo de ocupar os espaços de masculinidade e preconceito, onde normalmente não seriam bem aceitos.

O destaque vem para um dos times da Ligay, “Os meninos bons de bola”, time formado exclusivamente por homens transexuais, localizado na cidade de São Paulo. É uma bonita história sobre um grupo que também é extremamente marginalizado na sociedade. O Brasil é um país bastante transfóbico e os meninos sentem isso na pele: sofrem preconceito até mesmo jogando a Ligay, lugar onde deveria reinar a inclusão.

BICHA! é um livro maravilhoso e deveria ser lido por todos que se dizem amantes do futebol. Embora seja um esporte com ideais democráticos, ainda é excludente com uma parcela tão grande da população. Leituras assim relembram que, mesmo com o avanço do conservadorismo, não se pode deixar de ouvir as pessoas que são excluídas.

Autor:  Jamil Aiquel (2º semestre) | Foto: Jamil Aiquel (2º semestre)

Fonte: PUC-RS.