“Me pergunto: o que posso salvar dessa pessoa?”, diz integrante do grupo de palhaços Narizes de Plantão

Futuros profissionais da saúde comentam sobre suas experiências em hospitais como palhaços voluntários e como se reinventaram após a crise sanitária.

Narizes de Plantão e suas máscaras vermelhas, que é como os palhaços chamam seus narizes, surgiram bem antes que as outras máscaras, mais precisamente em 2010. Mauro Fantini, professor de biomedicina na Faculdade São Camilo e palhaço no grupo Operação Arco-Íris, em conjunto com os alunos de medicina, decidiu criar um projeto que humanizasse de uma forma diferente os cursos da instituição. A partir dessa ideia, foram inauguradas oficinas para que os estudantes aprendessem a arte de serem palhaços, além de visitas aos hospitais São Camilo e São Luiz.

Rebeca Fernandez, 21 anos, estudante de enfermagem e atual coordenadora do Narizes de Plantão, percebeu que tanto as crianças, quanto os adultos, se comportavam de maneira diferente quando ela estava com o nariz vermelho: “Eu não sei, mas eu senti que eles se soltavam mais conversando comigo, falavam sobre coisas que eles não falariam normalmente”.

Para os futuros profissionais da saúde, criar vínculo com os pacientes é uma premissa fundamental para a profissão, porém, lidar diretamente com pessoas em situações adversas pode ser um desafio e tanto. Por essa razão, Marina Araújo, 20 anos, estudante de fisioterapia, se juntou ao grupo. “Foi a questão de conseguir me comunicar, me conectar melhor com as pessoas sem ter vergonha”, afirma Marina.

“Eu esqueci que queria ser palhaça”, diz Layane Arcieri, 21 anos, estudante de psicologia, que se apaixonou pelo nariz após ver um documentário sobre os Doutores da Alegria quando era criança. Recuperou a vontade após realizar um trabalho voluntário para arrecadar presentes de natal para o hospital da Santa Casa: “Eu fui entregar presentes vestida de Mamãe Noel e isso reacendeu uma chama minha de visitar o hospital de outras maneiras”. 

Diferente do que é inicialmente pressuposto, o objetivo do palhaço não é chegar no quarto do hospital e fazer o paciente dar risada. “O paciente está lá, passando por poucas e boas, cansado, com um monte de medicamento”, explica Marina. “Se um dia você entrar no quarto e ele só quiser o seu ombro para chorar, é o seu ombro para chorar que você vai dar para ele. Tudo bem se vocês chorarem juntos por conta disso”. 

O PALHAÇO DE DENTRO PARA FORA

O palhaço é a extensão de si mesmo. O nariz vermelho é a pulga atrás da orelha. Uma pulga curiosa e assustadoramente humana. Daquelas que transformam jalecos brancos e estetoscópios em pessoas. Para Marina, ele tem o poder de ser “sempre aquela luzinha, que pisca na sua cabeça e fala: ‘Opa, [o paciente] é uma pessoa, é um ser humano”.

Layane, dona da personagem Jade, a maquiadora de girafas, pode ter descoberto o segredo dessa ‘luzinha’ em um elevador a caminho do quarto 381, com mais quatro palhaços e uma mulher com um pacote do McDonald’s. Com a ajuda da mulher do elevador, que descobriram que era a avó de alguém, atrasaram a entrega do lanche. Era por um bom motivo, ela jura. Ao entrarem no quarto, perceberam que agora eram, oficialmente, parte da equipe de entrega do McDonald’s. Coincidência ou não estavam todas de amarelo.

E foi aí que Jade ouviu que a menina do quarto 381 achava que aquilo era tudo que ela precisava na vida. Ela questiona: “Que? Tudo que alguém precisa na vida é um lanche do méqui e cinco palhaços?” A resposta? “É, é exatamente isso”.  

Como Layane relembra, “de repente, você entregar um lanche já faz a diferença no dia da pessoa”.  

Enquanto Jade descobria o que um elevador, um lanche e cinco palhaços podiam fazer, Noélia, compositora famosa de músicas que com certeza todo mundo já ouviu, personagem de Rebeca, se casava com o charmoso “Mono Bunda”. O rapaz, que recebeu o apelido após fazer uma cirurgia para a retirada de um dos glúteos, só não esperava a chegada de Noélia, que orgulhosamente assumia que pelo menos ele ainda tinha uma bunda, enquanto ela não tinha nenhuma. 

Depois de mencionado, não podia mais ser ignorado. Saiu o casamento da “Desbundada e do Mono Bunda”. No fim, se despediram: “Tchau, esposa! Vai achar sua bunda!” e “Tchau, vai recuperar a sua, bobão! Só está com uma!”. Noélia e seu nariz não perceberam, mas Rebeca não ignorou, e se surpreendeu quando percebeu que Noélia não ligava para um fato que ela considerava muito: “Sempre fui muito insegura com o meu corpo, eu sou muito magra e eu sempre fui muito insegura com isso”, conta.

“E isso é uma das coisas boas que o palhaço proporciona para a gente também, porque a gente se zoa, a gente zoa as características que não gostava antes. A gente aprende a gostar depois, porque vira jogo. Eu, querendo ou não, me identifiquei com o paciente, eu entrei no mundo dele e deixei que ele entrasse no meu”, relata Rebeca.

Para Marina, Guadalupe quando está com a máscara, o Narizes, no seu caso, em oficinas completamente online, a ajudou a reconhecer a ansiedade. Ela revela que entende os seus pontos fracos e se relaciona com eles. “Na terça feira à noite, eu vou conversar com a galera do Narizes e eu também vou falar com a minha palhaça. E eu também vou me olhar no espelho como palhaça e vou reconhecer esse meu outro lado. Eu consegui chegar nesse ponto de equilíbrio em que está tudo bem você estar ansiosa e dar tudo errado na sua semana, mas por outro lado, você também está lutando contra isso”, afirma.

A PANDEMIA DOS PALHAÇOS

Com a implementação das medidas de distanciamento social, as oficinas que capacitam os palhaços foram interrompidas. “As pessoas do hospital mandavam mensagem direto nas nossas redes sociais pedindo para a gente voltar, para a gente ir lá, para usar máscara. Mas não tem como naquela situação que estava”, lembra Rebeca.

O projeto perdeu muitas pessoas durante o ano de 2020, principalmente alunos recém-formados que precisaram sair. A solução foi fazer uma turma de capacitação de palhaços completamente online. Com todas as dúvidas e dificuldades, Marina conta que quando soube que foi selecionada, ficou decepcionada por não acontecer no presencial. “Claro que eu preferia mil vezes que fosse presencial, mas eu acho que a gente conseguiu jogar com o fato de ser tudo online, a gente conseguiu usar esse empecilho como uma coisa completamente única para a turma XI”, conta a estudante de fisioterapia.

“Eles namoravam à distância e um dia eles iam se encontrar. Agora, se encontraram”, diz Layane

As primeiras visitas feitas com a ajuda de um tablet eram direcionadas para hospitais de campanha. O grupo de palhaços era levado para os pacientes, mas, segundo eles, aquela conexão era muito mais difícil de ser estabelecida. Nas visitas presenciais, geralmente, ficava mais fácil de entender o momento de cada pessoa, além de a brincadeira conseguir alcançar todos com maior facilidade. “No hospital, você quer fazer bagunça? Você faz bagunça. No online, vira zona”, afirma a coordenadora do Narizes de Plantão.

Mesmo com as dificuldades da visita a distância, o grupo conseguiu enxergar novos caminhos para se conectar com os pacientes. “Eu fiz uma visita no hospital de campanha e dentro de uma das tendas o Wi-Fi era péssimo e a nossa câmera caía. Então, a gente não via a cara da pessoa. A enfermeira mostrava assim: ‘Ó, essa aqui é a dona fulana, fala com ela’. E a gente via um borrão preto. Então, criamos um jogo. ‘Nossa, você tem um nome que parece que tem um cabelo preto’ e a pessoa: ‘Tenho!’”. 

Com um personagem que transmite alegria e felicidade, as vezes é difícil encarar a realidade, porém, mesmo sem o nariz, é importante ser um pouco palhaço. “Eu não vou salvar o mundo, mas o que eu posso salvar dessa pessoa, nesse dia em que ela está doente? A gente mini salva o mundo”, diz Layane.

Editado por Nathalia Jesus

Autoras: Ana Clara Platini Lambert, Isabela Novelli Maciel e Maria Fernanda Souza Petrizzo

Fonte: Cásper Líbero.