Jovens, refugiados e leitores: bibliotecas do “Mi Casa, Tu Casa” são implementadas em abrigos de Boa Vista

Mais de 6 mil livros foram doados por crianças e adolescentes brasileiras para os jovens refugiados e migrantes da Venezuela dos abrigos Rondon 1 e São Vicente 2.

No primeiro dia de funcionamento das bibliotecas do projeto “Mi Casa, Tu Casa” (Minha Casa, Tua Casa), Israel, de 16 anos, já sabia explicar aos colegas onde estavam as diferentes categorias de livros e anotou com cuidado os empréstimos solicitados.

Ele, que nunca tinha estado em uma biblioteca antes, se tornou voluntário do grupo de guardiões do espaço de leitura comunitário do abrigo São Vicente 2, mantido em Boa Vista (RR) pela Operação Acolhida – resposta governamental ao fluxo de refugiados e migrantes da Venezuela para o Brasil e já tem alguns títulos preferidos no acervo.

“Viagem ao Centro da Terra” foi o título escolhido por Israel entre os 2 mil livros disponíveis no São Vicente 2. “Escolhi esse livro porque gosto de aventura. Quando leio, minha mente vai para outro mundo. Consigo desestressar e fico feliz”, conta.

As bibliotecas do projeto “Mi Casa, Tu Casa” são uma realização do jornal JOCA e da organização não-governamental Hands On Human Rights, com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), AVSI Brasil e Fraternidade Sem Fronteiras. Implementadas no Abrigo Rondon 1 e Abrigo São Vicente 2, as bibliotecas reúnem literatura infantil, juvenil e adulta.

O jovem Israel diz que lerá o livro “Viagem ao Centro da Terra” aos irmão mais novos. © ACNUR/Camila Ignacio Geraldo

Doações e cartas de jovens brasileiros – Todos os livros do projeto  foram doações de crianças brasileiras que, além de proporcionar literatura às bibliotecas, enviaram cartas para os jovens refugiados e migrantes dos abrigos. A frase “sejam bem-vindos” foi a mais escrita pelas crianças brasileiras às venezuelanas.

“As crianças brasileiras, com o “Mi Casa, Tu Casa”, desconstroem preconceitos e apoiam na integração dos jovens venezuelanos na sociedade brasileira. Esses pequenos, venezuelanos e brasileiros, são os verdadeiros protagonistas das bibliotecas”, diz Edgard Raoul, coordenador do projeto “Mi Casa, Tu Casa” pela ONG Hands On Human Rights.

“Eu recebi uma carta de uma menina, Maria, que mora em São Paulo e gosta de jogar Minecraft. Eu gostei, porque também jogo. Ela falou que lá está frio. Então fiz uma carta dizendo que aqui estava quente, e que eu também gostava dos mesmos jogos que ela”, fala Carlos, de 15 anos, que hoje vive com sua família no Abrigo Rondon .

A carta escrita por Carlos será enviada para as escolas brasileiras como forma de fortalecer os laços entre as crianças e adolescentes dos dois países e diminuir estigmas que existem em relação às pessoas refugiadas no Brasil.

O Abrigo Rondon 1, que é um dos maiores centros de acolhimento de Boa Vista, conta com Adairelys (mais conhecida como Leli), de 12 anos, como parte do grupo de guardiões da literatura. Entre os mais de 4 mil livros da biblioteca, ela encontrou no acervo um livro que já havia lido na Venezuela. “Eu gosto da biblioteca e gosto de ler. Aqui tenho a opção de livros em português e em espanhol. É bom porque posso aprender mais dos dois idiomas”, comenta.

Leli, de 12 anos, lê livros em português e espanhol na biblioteca do Abrigo Rondon 1. © ACNUR/Camila Ignacio Geraldo

Leitura como ferramenta de integração – A leitura proporciona vocabulário, estimula a imaginação e fortalece a aprendizagem. “Esse é um projeto muito bonito que acontece com a parceria de diversas organizações. Sabemos que aprender o português e continuar os processos educativos são uma ferramenta poderosa para a integração de refugiados e migrantes no Brasil, e a biblioteca proporciona essa oportunidade, principalmente para crianças e adolescentes”, aponta o Oficial de Campo Sênior do ACNUR em Boa Vista, Arturo de Nieves.

A mãe de Leli, Adismar Rodrigues, de 33 anos, é parte do grupo de pais e mães que apoiam os guardiões da literatura. Ela trouxe, com a mala que veio ao Brasil, um livro da história e costumes da Venezuela. “Os livros são uma forma de compartilhar cultura. Eu agradeço a todos vocês que nos deram os livros, pois agora temos como fazer com que minhas filhas conheçam mais sobre vocês e sobre o Brasil”, fala.

Atividades das bibliotecas incluem rodas de leitura, consultas escolares, produção de textos e desenhos. © ACNUR/Camila Ignacio Geraldo

DSC_3833-2Atividades das bibliotecas incluem rodas de leitura, consultas escolares, produção de textos e desenhos. © ACNUR/Camila Ignacio Geraldo

DSC_3856-2Atividades das bibliotecas incluem rodas de leitura, consultas escolares, produção de textos e desenhos. © ACNUR/Camila Ignacio Geraldo

DSC_3757-2Atividades das bibliotecas incluem rodas de leitura, consultas escolares, produção de textos e desenhos. © ACNUR/Camila Ignacio Geraldo

Todos os livros presentes na biblioteca foram selecionados e catalogados, com uma seleção  e organização apoiada por uma profissional da área de bibliotecologia. “Os livros no abrigo trazem para os jovens a possibilidade de enxergar além da própria realidade, de pensar em novas perspectivas e projetos de vida para um melhor futuro”, explica a Oficial de Participação Comunitária do Abrigo Rondon 1, Fredcarme Tima.

Além dos tradiconais empréstimos, no ambiente serão realizadas leituras coletivas, rodas de conversa, apoios escolares e produção de textos e desenhos.

As bibliotecas do Abrigo São Vicente 2 e Abrigo Rondon 1 são um piloto para futuros espaços de leitura implementados pelo “Mi Casa, Tu Casa”. Além dos abrigos da Operação Acolhida, a Associação Internacional Canarinhos da Amazônia Embaixadores da Paz (AICAEP), conhecida pelo coral “Canarinhos da Amazônia”, recebeu 2 mil livros. No total, mais de 8 toneladas de livros foram arrecadados pelo projeto para montar mais estruturas em Roraima.

“Nosso objetivo inicial era arrecadar 5 mil livros. Conseguimos arrecadar 38 mil obras, algo que devemos aos jovens que fizeram nosso objetivo ressoar tão fortemente pelo Brasil. O mesmo com as cartas e recebemos mais de 5 mil. Digo em nome de todas e todos que apoiaram: queremos que essa biblioteca traga conhecimento, entretenimento e acolhimento a vocês neste país”, declara a fundadora do Jornal JOCA e realizadora do projeto, Stéphanie Habrich.

Arturo de Nieves, Oficial de Campo Sênior do ACNUR, conversou com os jovens dos abrigos durante a inauguração das bibliotecas. © ACNUR/Camila Ignacio Geraldo

FONTE: ACNUR.