Iraniano cultiva nova vida na Bósnia e Herzegovina

O caminho rumo à integração em um novo país pode ser longo, mas o ACNUR está lá para fornecer suporte.

Existem muitas pessoas que associam o campo à natureza, mas quando Adel, um solicitante da condição de refugiado, vislumbrou pela primeira vez um campo perto da sua nova aldeia na Bósnia e Herzegovina, viu uma oportunidade de transformar a terra fértil em um próspero negócio.

Era 2018 e ele tinha acabado de chegar a uma aldeia noroeste perto da cidade de Bihac com o seu filho Sajad, 12 anos, depois de fugir do Irã.

“O campo à volta de Bihac tem boas terras e eu vi imediatamente uma oportunidade para o meu filho e eu construirmos uma nova vida… O bom povo da aldeia me ofereceu uma oportunidade para recomeçar a minha vida e eu aproveitei essa oportunidade”, disse.

Ele recorreu aos seus conhecimentos como agrônomo no Irã para plantar milho, cebolas e pepinos, bem como criar aves e abelhas na terra que os aldeões lhe ofereceram. O seu objetivo agora é estabelecer um negócio próspero que proporcione emprego à população local.

Contudo, ele não pode realizar esse sonho até que receba uma decisão sobre o seu pedido de refúgio.

O ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, tem conhecimento de cerca de 75.000 refugiados, solicitandes da condição de pessoa refugiada e migrantes que passaram pela Bósnia e Herzegovina desde o início de 2018. Apenas uma pequena porcentagem permanece no país para pedir refúgio enquanto a maioria tenta chegar à Europa Ocidental.

Adel faz parte de uma pequena minoria dos que visam um futuro na Bósnia e que gostariam de ficar. Globalmente, o número de solicitantes da condição de refugiado e de migrantes que chegam ao país diminuiu durante a pandemia da COVID-19, mas as autoridades ainda enfrentam desafios no fornecimento de ajuda humanitária e no acesso aos direitos dos grupos vulneráveis.

“Tenho planos e recursos para melhorar a vida da minha família”

A capacidade das autoridades está no limite particularmente na parte noroeste de Una-Sana Canton, onde se situa a aldeia de Adel, bem como em Sarajevo, a capital.

Devido à incerteza envolvida, os longos tempos de espera se tornam estressantes, especialmente para as pessoas que pedem refúgio no país. Adel, por exemplo, fez a solicitação em 2019 com a assistência do ACNUR.

Nove meses mais tarde, foi-lhe concedido o direito ao trabalho. Para além de cuidar da sua terra, usou sua língua e outras competências como mediador cultural junto do Serviço Mundial da Igreja em centros de acolhimento em Una-Sana Canton, enquanto aguardava uma decisão sobre a solicitação.

“Agora a minha maior preocupação é aguardar a decisão das autoridades. Tenho planos e recursos para melhorar a vida da minha família em Bihac, para expandir as minhas colheitas e para vender os produtos. E, para fazer isso, preciso de uma definição sobre a minha situação”, disse ele.

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Adel coleta ovos na sua fazenda no noroeste da Bósnia-Herzegovina. © UNHCR/Dorijan Klasnica3

Adel e o seu filho Sajad, 12 anos, no meio de cebolas plantadas na Fazenda de Adel na Bósnia e Herzegovina. © UNHCR/Dorijan Klasnic

A Alta Comissária Adjunta de Proteção do ACNUR, Gillian Triggs, se encontrou com Adel quando visitou a Bósnia e Herzegovina em julho. O felicitou pela sua contribuição empreendedora para a economia do país e para a sua comunidade local.

“É importante identificar o mais cedo possível aqueles que procuram verdadeiramente refúgio na Bósnia-Herzegovina, registar e processar os seus pedidos”, disse, destacando que compreende a pressão que Adel e outros enfrentam enquanto esperam, muitas vezes durante anos, por uma decisão.

“Os longos tempos de espera, especialmente para pessoas em situação de vulnerabilidade, podem afetar o seu potencial de integração. O ACNUR apoiará as autoridades para melhorar os processos”, destacou.

O ACNUR está trabalhando com o Ministério dos Direitos Humanos e Refugiados, sociedade civil e refugiados para desenvolver um estatuto para uma melhor integração. A lei facilitaria o acesso de solicitantes da condição de refugiado ao complexo sistema administrativo do país, melhorando o acesso à educação, formação profissional e linguística e serviços sociais.

“Seja paciente e aprenda a língua”

Entretanto, o caminho para encontrar um lugar na sociedade pode ser longo. Saiffedin Khalid, por exemplo, chegou ao país em 2015 vindo da Síria com um visto de estudante. Pouco tempo depois procurou refúgio.

Levou mais dois anos até poder se inscrever na Universidade de Travnik, mas foi forçado a desistir porque não tinha o direito de trabalhar e ganhar um salário. Eventualmente, foi ganhou o estatuto de proteção subsidiária – uma forma de proteção internacional que normalmente vem com menos direitos do que o estatuto de refugiado – e se mudou para Sarajevo, onde encontrou trabalho como guia turístico em uma agência de viagens local.

Em abril de 2020, perdeu esse emprego devido à pandemia de COVID-19. Graças a um projeto financiado pela União Europeia destinado a mitigar o impacto da pandemia em refugiados em situação de vulnerabillidade na Bósnia e Herzegovina, recebeu ajuda do ACNUR até que as restrições fossem atenuadas e conseguisse recuperar o seu emprego.

Desde maio, Saiffedin trabalha na Vaša Prava, uma organização parceira do ACNUR que presta assistência jurídica gratuita no país. Ele é educador em outro projeto financiado pela União Europeia que fornece informações a potenciais solicitantes da condição de refugiado. É um novo começo e uma oportunidade para praticar os seus conhecimentos da língua bósnia, mas tem sido uma longa viagem para a estabilidade.

“Eu digo às pessoas que desejam procurar segurança na Bósnia para serem pacientes e aprenderem a língua, pois demonstra respeito pela comunidade de acolhida”, disse. “Leva tempo, mas ter uma nova vida em segurança é possível”.

Autor: Dorijan Klasnic em Bihać, Bósnia e Herzegovina.

Fonte: ACNUR.