Inovação na educação: professor de história traduz conteúdos com rap no TikTok

Yan Santos, o “flowfessor”, que já tem mais de 100 mil likes no Tiktok, busca tornar conteúdos acessíveis e ser alternativa ao método tradicional.

A educação caminha junto à tecnologia. Com a explosão do fenômeno do TikTok, diversos conteúdos, dos mais variados, marcaram presença dentro da plataforma. Com um público de maioria jovem, o aplicativo atingiu cerca de dois bilhões de downloads somente em 2020. De acordo com a GlobalWebIndex, 40% dos usuários do TikTok têm de 16 a 24 anos. Nesse contexto, surgem nomes como o “Flowfessor” e outros educadores que utilizam a plataforma e do público alvo como uma alternativa de repassar e expandir o conhecimento.

Com mais de 100 mil likes na plataforma, Yan Allen Silva Santos, de 34 anos, conhecido como “Flowfessor”, encontrou no rap uma forma de traduzir conteúdos históricos, dos mais antigos aos atuais, como, por exemplo, a Revolução Russa e o conflito entre Israel e Palestina.

Yan mora em Santa Bárbara, na Bahia, e está no ramo educacional desde 2011, lecionando para os ensinos fundamentais, médio e também pré-vestibular. Agora, usa o TikTok para democratizar e traduzir conhecimento para mais pessoas.

Seu incentivo para levar o conteúdo para a plataforma veio de uma colega professora. “Ela dizia que meu conteúdo era a cara do TikTok, resolvi dar ouvidos e tive essa boa surpresa”, conta.

INFLUÊNCIA DO RAP: DA PERIFERIA AO TIKTOK

O rap influenciou a vida do professor desde sempre: “Três elementos, dentre os vários que compõem o meu ser, são marcantes na minha juventude: o fato de eu ser um jovem negro, periférico e evangélico. A realidade da periferia estava no meu cotidiano, mas eu não via uma expressão artística que preenchesse esse vazio dentro da cultura evangélica, até conhecer Apocalipse 16” – banda pioneira do rap cristão no Brasil.

“Algum tempo depois, já no ensino médio, com um pouco mais de maturidade e independência, um amigo colocou para eu ouvir “Capítulo 4, versículo 3”, dos Racionais. Aquilo foi tão potente para mim que uma semana depois, pela primeira vez, eu apresentava um trabalho oral. Adivinha como? Rimando”,  lembra Yan, sobre o início de sua paixão pelo estilo, que se tornou presente até mesmo em sua profissão.

Com um personagem no TikTok inspirado em Mano Brown, Yan busca levar conteúdos para além da sala de aula, aproveitando-se do espaço online de uma forma alternativa, algo que se tornou comum durante o período de pandemia e isolamento social. Inspirado por um pensador chamado Austin Kleon, escritor do livro “Roube como um artista”, o Flowfessor adotou o conceito de que “a criatividade nada mais é que a combinação de coisas que já existem para criar algo novo”.

“Digo isso porque a inspiração para os vídeos “professor Mano Brown” veio, por um lado, assistindo alguns vídeos do YouTube que tinham mera intenção de entreter, mas que geravam muita conexão, e, por outro, com a combinação da vontade de upar conteúdo educacional diferente do que já tinha e estava consolidado na internet”, explica.

Ele conta sobre como surgiu a ideia de mesclar um ritmo que é a cara do Brasil e a história, necessária para a compreensão de diversos fenômenos: “O rap com conteúdo histórico é uma combinação da importância dele na minha vida, da ascensão e capilaridade de nomes do rap atual na juventude, como Matuê, Djonga, Teto e da influência positiva de um dia ter visto um professor dando aula e tocando violão”.

TIKTOK E EDUCAÇÃO ACESSÍVEL

Crescendo cada vez mais, Yan mostra quão importante é aproveitar um ambiente composto por tantos jovens para espalhar conhecimento de uma forma acessível, que muitas vezes é deixada de lado. “Rubem Alves em ‘Ao Professor, Com O Meu Carinho’ diz ‘pela analogia, o pensamento pula de uma coisa que ele conhece para outra coisa que ele não conhece’ e essa é a minha intenção: levar aquele estudante, que de maneira tradicional não faria uma reflexão, a sair da sua zona de conforto”, diz.

Além disso, reconhece essencial trazer assuntos mais complexos para a realidade de quem está aprendendo. O uso de termos e uma linguagem mais rebuscadas, por diversas vezes, não se torna atrativo, distanciando o público do conteúdo. Um dos grandes virais de seu perfil, por exemplo, foi um vídeo onde aplicava letras dos Racionais para explicar o conflito entre Israel e Palestina, no último mês de maio.

Yan acredita que é importante incluir produtos culturais no contexto atual da educação brasileira: “O professor é um profissional que não pode estar de fora de nenhuma equação que vise o desenvolvimento de uma nação. Sendo assim, trabalhar sinergicamente educação e aspecto culturais, sobretudo de setores historicamente marginalizados, ajuda a promover o respeito e a alteridade numa sociedade tão polarizada, como a em que vivemos atualmente”.

“Há também, não nego, uma estratégia de aceitação de um conteúdo que de outra forma poderia ser visto como chato, utilizando como veículo de informação esses produtos culturais que, apesar de marginalizados em outro momento, estão atualmente no mainstream da indústria cultural”, completa.

Sua meta é exatamente essa: tornar atrativo o conhecimento, que é essencial para moldar um pensamento crítico dos cidadãos, tão importante em tempos de crise. “Ser um dos nomes que os estudantes lembram quando pensam em “professor de história” ou “professor de atualidades”. Dentro do aplicativo, é alcançar cada vez mais estudantes que acham estudar uma coisa chata para relembrar a eles que aprender pode ser algo muito bom”, afirma.

Autora: Izabella Giannola.

Fonte: Cásper Líbero.