Enfermeiros deslocados prestam cuidados de saúde na Etiópia

Em uma pequena casa de pedra de um cômodo em Mekelle, capital regional de Tigré, região da Etiópia que passa por conflitos, Brukti* mede o braço de uma jovem para fazer um exame de desnutrição. Se não fosse pelos “antibióticos” e “medicamentos de emergência” pendurados em um armário na parede, seria difícil dizer que se trata de um posto de saúde.


“Sou uma enfermeira certificada e quero ajudar as pessoas necessitadas”, diz Brukti, que trabalhou como enfermeira por quatro anos antes que o conflito de Tigré a forçasse a fugir de sua aldeia perto de Adwa, junto com milhares de outras pessoas.

“Quando soube que pessoas estavam sendo mortas, fugi com meu filho. Vimos cadáveres em algumas das aldeias por onde passamos”, lembra. “Não consegui entrar em contato com meu marido porque a rede [móvel] estava fora do ar, mas finalmente nos reunimos.”

Quando chegaram a Mekelle, Brukti imediatamente começou a se voluntariar no local onde encontraram abrigo.

Estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas foram deslocadas internamente pelo conflito em Tigré, agora em seu oitavo mês. Centenas de milhares de pessoas forçadas a fugir buscaram refúgio nas principais cidades da região. Alguns estão hospedados em comunidades, enquanto outros se abrigam em locais públicos superlotados, como escolas.

“Eles realmente nos ajudam, tornando possível ver mais pacientes em um dia”

É em um desses locais, onde vivem mais de 1.800 pessoas deslocadas, que Brukti e outros 15 enfermeiros treinados estão se voluntariando em um pequeno centro de saúde improvisado. Eles estão trabalhando com o médico-chefe do Escritório Regional de Saúde em Mekelle, bem como com outros médicos recém-formados da comunidade local, que também são voluntários na clínica.

Médico etíope, Haile Haregot, em sua mesa na clínica improvisada onde lidera um grupo de voluntários em Mekelle, Etiópia. © ACNUR / Elisabeth Arnsdorf Haslund60dc75b93

A enfermeira etíope deslocada Brukti* verifica um posto de lavagem das mãos em frente a uma clínica de saúde improvisada em Mekelle, Etiópia. © ACNUR / Elisabeth Arnsdorf Haslund60dc75eb4

Brukti*, uma enfermeira etíope deslocada, verifica a altura de uma criança em uma clínica improvisada em Mekelle, na Etiópia. © ACNUR / Elisabeth Arnsdorf Haslund

“Eles realmente nos ajudam, tornando possível ver mais pacientes em um dia”, disse o Dr. Haile Haregot, um dos médicos voluntários. “Também nos beneficiamos de suas especialidades variadas, já que alguns são treinados para ajudar vítimas de violência sexual e de gênero, enquanto outros se especializaram em triagem de crianças para desnutrição.”

Ele acrescenta que sua decisão de ser voluntário no local para pessoas deslocadas veio sem ponderações. “Civis estão sofrendo, algumas pessoas estão morrendo de desnutrição e, na minha profissão, não consigo sentar e não fazer nada. Eu preciso ajudá-los”, diz.

Cerca de 20 a 30 pacientes vão ao centro de saúde todos os dias. As queixas mais comuns são tosse e diarreia, mas os voluntários também cuidam de pessoas com várias doenças crônicas, incluindo hipertensão.

Há também casos de suspeita de malária, mas Brukti diz que faltam ferramentas para um diagnótico adequado. “Nossa principal preocupação é a escassez de medicamentos e a ausência de equipamentos médicos”, diz.

Os recursos são escassos. Não há o suficiente para suprir as necessidades básicas de comida, abrigo e água, e os deslocados dependem muito da ajuda da comunidade local.

“A comunidade nos ajudou imensamente, compartilhando sua comida e nos fornecendo roupas, mas como o número de deslocados continua a aumentar, é muito difícil para eles ajudarem a todos nós”, disse Bekele*, um líder comunitário no local.

Os deslocados organizaram-se e elegeram representantes em colaboração com as autoridades e com o apoio do ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, e de parceiros envolvidos na coordenação e gestão do campo.

Representantes como Bekele desempenham um papel importante em acompanhar as necessidades, coordenando o apoio das comunidades locais e atuando como pontos focais para agências de ajuda. Eles também administram a distribuição de alimentos e outros auxílios às famílias abrigadas na escola.

“Mesmo quando não dá, sempre tentamos distribuir ajuda para todos, mas temos que priorizar. Por isso, fornecemos mais nutrientes aos mais vulneráveis​​”, explica Bekele.

“Estou feliz em ajudar minha comunidade neste momento crítico”

O ACNUR, junto com outras agências da ONU e parceiros de ajuda, aumentou sua resposta nos últimos meses e distribuiu ajuda vital, como cobertores, mosquiteiros, lâmpadas solares, sabonete e galões para famílias deslocadas em diferentes locais em Tigré. Até agora, mais de 13.000 famílias receberam os itens de socorro.

O ACNUR também estabeleceu “balcões de proteção” em 38 locais em Shire e Mekelle, onde os deslocados podem acessar serviços e informações vitais, compartilhar preocupações com funcionários do ACNUR, obter aconselhamento psicossocial e serem encaminhados aos serviços relevantes, se necessário. Em abril e maio, o ACNUR encaminhou mais de 100 casos com necessidades especiais e conduziu mais de 700 sessões de aconselhamento individual.

Para aqueles que precisam de cuidados médicos, Brukti e seus colegas voluntários estão prontos para ajudar com quaisquer recursos disponíveis. “Estou feliz em ajudar minha comunidade neste momento crítico, mas minha esperança é que a paz seja restaurada para que eu possa ver o resto da minha família novamente”, diz.

No entando, acontecimentos recentes em Tigré desafiam a capacidade do ACNUR de fornecer assistência humanitária. Com o acesso limitado dentro e fora da região, falta de energia elétrica, redes telefônicas inativas e mudanças de equipe, ajuda e suprimentos básicos estão se tornando cada vez mais difíceis.

Reportagem adicional de Woini Gebregeorgis.

* Nomes alterados por motivos de proteção.

FONTE: ACNUR.