Em Busca de Sentido: sobre a difícil procura de propósitos nos tormentos

Uma tocante abordagem sobre o significado da vida para quem anda de mãos dadas com o sofrimento.

Conforme a humanidade consolida o papel do indivíduo na sociedade em uma fórmula geral e cíclica baseada no trabalho, pode resultar no seguinte questionamento: qual o propósito de tudo isso?

Em diversas situações, os humanos conseguem encontrar a felicidade e bons sentimentos durante suas respectivas jornadas. Mas imagine agora uma situação onde, de um dia pro outro, você perde a possibilidade de buscar essa mísera fórmula em vida, perde o seu nome, e perde inclusive qualquer identidade pessoal que possua.

Além disso, as poucas pessoas que você nutria grande afeto sumiram do seu campo de vista, e no lugar delas, surgiram seres que possuem grande ódio por você e desejam pôr um fim na sua existência. Foram nessas condições, que o prisioneiro N°119104, o autor de “Em Busca de Sentido”, buscou respostas no sofrimento para achar um propósito durante sua estadia no inferno na Terra.

A obra literária, pensada no decorrer da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e publicada pela primeira vez em 1966, aborda os relatos pessoais do psicólogo Viktor Frankl durante suas experiências como prisioneiro em campos de concentração para judeus.

Diferente de outras histórias sobre o ocorrido, Viktor traz uma abordagem psicoterapêutica em suas escritas. Ele argumenta que há relatos suficientemente registrados para credibilizar os horrores do holocausto. Com isso, nos são apresentados os próprios relatos de Frankl com um formato resultante na reflexão do leitor, aproximando-o da lógica das atitudes e pensamentos de um prisioneiro da época.

O livro é sutilmente dividido em duas partes principais: a primeira serve para registrar e ambientar as experiências tocantes, abordar sobre os pensamentos inconvenientes/estranhos que acontecem nos campos de concentração e refletir sobre os fenômenos que ocorrem na mente de quem está preso nesse tipo de local. Já a segunda, foi escrita posteriormente em uma edição americana de 1984, e tem o propósito de ajudar o indivíduo moderno com conclusões acerca do sentido da vida e do existencialismo. Aborda também os princípios científicos da logoterapia, ciência desenvolvida por Viktor Frankl.

A logoterapia, ramificação psicanalítica da psicologia, parte da dimensão espiritual para atingir os outros aspectos da vida. Dela, são contextualizadas as situações somáticas e psicológicas, fornecendo assim um enfrentamento duro ao conflito existencial da mente do indivíduo. Não há como negar as dores e os sofrimentos, então é necessário aceitar a existência deles e buscar neles uma contemplação espiritual, consequentemente atingindo positivamente a mente do ser.

No início da narrativa, se observa que Viktor Frankl não estava pronto para a situação, entrando em choque com a deportação e a nova realidade podre que o cercava. Mas, à medida que acompanhamos as reflexões e interações dos prisioneiros, são identificáveis as relações de enfrentamento mental que as pessoas passavam. Muitos desistiam de viver a podridão e iam “de encontro com os fios”, isto é, escolhiam o suicídio.

Os que conseguiam suportar a forte realidade, o cheiro péssimo, a energia negativa, o covarde tratamento e a escassa alimentação passavam por uma não menor montanha-russa de sentimentos. Frequentemente, reações frias ocorriam com a normalização da morte e doenças nos campos, mas também, experiências de êxtase com a alegria eram consideravelmente normais. As contadas noites em que sobreviviam mais um dia para catarem piolhos ou a contemplação do lindo pôr-do-sol entre as montanhas são bons exemplos.

Pertinente ao livro, é necessário destacar que a narrativa traz consigo uma energia pesada. Entretanto, trata-se de uma necessária e tocante obra para a compreensão de quem conseguiu se agarrar nos mais difíceis problemas para hoje nos ensinar sobre o nascimento da esperança a partir do sofrimento mundano.

Autor: Eduardo Ito (1º semestre) | Foto: Eduardo Ito (1º semestre) 

Fonte: PUC-RS.