Consumo de informação na pandemia: o que mudou?

Os novos hábitos estabelecidos durante a quarentena estão conectados com a disseminação exacerbada de informação em diversos veículos.

É fato que, durante a pandemia, pessoas do mundo inteiro tiveram a necessidade de mudar suas rotinas. Fazer compras de supermercado por aplicativo, pedir refeições em serviços de delivery e passar mais tempo em casa, para quem pode, foram algumas das mais expressivas delas. Mas outra pergunta ainda está presente: diante deste novo cenário, as pessoas mudaram seus hábitos de consumo de informação? Mesmo que antes da pandemia as pessoas já tenham tido acesso a informação prestada pela mídia tradicional, as mídias digitais tiveram um papel importante na propagação de dados, principalmente relacionados ao Covid.

Redes sociais e seu papel incerto

Segundo Sérgio Lüdtke, jornalista, coordenador do Atlas da Notícia e editor-chefe do Projeto Comprova, iniciativa que verifica a veracidade de conteúdos da internet, as pessoas “não necessariamente precisam ir atrás de informação, elas estão recebendo informação e muita desinformação”. E mesmo que boa parte destes dados sejam confiáveis e com base segura, a disseminação de informações falsas é expressiva.

O jornalista explica que é difícil ter certeza de que o papel das redes sociais na difusão de conteúdos teve impacto positivo ou negativo no geral. Por um lado: “as redes sociais têm uma possibilidade de disseminação de informação de uma forma quase instantânea e parece que as histórias que as pessoas contaram, de tragédias pessoais, foram importantes para que os outros se conscientizassem do problema da pandemia e tivessem mais cuidado para que houvesse uma menor disseminação do vírus.”

Por outro lado, as mesmas mídias sociais ajudaram a propagar a desinformação, graças ao compartilhamento irresponsável de informação, sem preocupação com a procedência. Sérgio explica que a propagação de inverdades se aproveita da sensibilidade de quem acessa determinado conteúdo: “essas cargas emocionais que a informação provoca são muito suscetíveis à desinformação.”

Valorização do jornalismo

Ao pensar nas poucas mudanças não negativas que a pandemia de Covid-19 trouxe, é importante citar o restabelecimento da credibilidade jornalística. A jornalista e professora do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação, Artes e Design Famecos-PUCRS Cristiane Finger explica que, pela onda de desinformação, a credibilidade dos profissionais da área de comunicação era alvo de desconfiança por parte da população. No entanto, por conta da situação de dúvidas a respeito do funcionamento do vírus, as pessoas “acabam entendendo que a informação salva vidas, e que a gente necessita de uma informação clara, precisa, ética e técnica.” Juntamente a isso, houve um crescimento do impacto de jornalistas científicos, que conseguiram traduzir a linguagem da ciência para um público mais amplo.

Da mesma forma que os profissionais da comunicação ascenderam durante a pandemia, as mídias conhecidas como “tradicionais” também tiveram seu lugar na procura por informação. Cristiane afirma que, apesar do termo “tradicional”, estes meios de informar não necessariamente estão presentes nas formas mais conhecidas de oferta de dados: “a informação tradicional pode estar em novos formatos e novas tecnologias”. 

Limite de acesso

Ainda que se manter informado a respeito do contexto social e econômico de pandemia seja importante para que não se acredite em informações equivocadas, a “overdose de acessos” pode ser um problema. Pelo fato da pandemia de coronavírus ser o assunto de importância máxima neste momento e a população estar sempre em contato com o tema, o excesso de informação pode ser cansativo, o que motiva as pessoas a questionarem os veículos de mídia sobre a “negatividade” dos informes.

“Por um lado, como um telejornal vai ignorar o que está acontecendo em relação a mortes  neste país? As pessoas não querem mais ouvir os números, mas é impossível, não dá. O jornalismo tem de dar informação a aqueles que nem sabem que precisam daquela informação e que não querem recebê-la porque não é agradável”, contou Cristiane.

A jornalista acrescenta que é ideal que as pessoas filtrem a quantidade de informação a qual estão expostas: “eu tenho que saber o quanto eu preciso de informação, e onde eu acho que ela tem mais credibilidade”. 

Autor: Juliana Affeldt.

Fonte: PUC-RS.