Brasileiros têm piora na qualidade do sono com a chegada da pandemia, aponta estudo

Segundo pesquisa feita pela Philips, cerca de 74% das pessoas possuem um ou mais problemas para dormir.

Entre os diversos impactos negativos gerados pela chegada da pandemia do novo coronavírus, certamente a piora na qualidade do sono foi um dos incômodos mais recorrentes. Seja por conta da rotina de trabalho e estudar dentro de casa, até a apreensão pelos riscos oferecidos pela doença, muitas são as razões que levaram as pessoas a desenvolver dificuldade para dormir. 

Em estudo realizado pela Royal Philips, empresa de tecnologia voltada à saúde, com dados de 17 de novembro a 7 de dezembro de 2020, contando com a participação de 13 países, foi constatado que aproximadamente 74% dos brasileiros adquiriram um ou mais problemas ao dormir desde o início da pandemia. O mesmo relatório ainda aponta que 53% das mulheres apresentam quadro de insônia, enquanto nos homens o número cai para 40%. 

A estudante Giovanna Bernardes, 21, moradora de São Bernardo, não apresentava complicações para descansar antes do período de isolamento social. “Comecei a ter insônia depois que parei de trabalhar e não pude mais sair de casa por causa da pandemia.” Desde então, encontra dificuldade para estabilizar um horário de sono ideal e não encontrou o tratamento adequado. “Tentei tomar remédio para ajudar a dormir, mas a situação até agora não melhorou.”  

O desemprego também afetou o supervisor de telemarketing Marcos Sousa, 42, morador de Diadema, que até a chegada da pandemia, não passava noites em claro. “Tenho crises de ansiedade próximo ao horário de ir para a cama, preocupado com a situação financeira.” Segundo Sousa, são raras as noites em que não acorda durante o repouso e acredita que o principal empecilho seja a inacessibilidade à ajuda médica. “Gostaria de fazer tratamento, mas atualmente não posso arcar com os valores de consulta e receita médicas.” 

Uma alternativa para quem deseja investigar o que está atrapalhando na hora de dormir são as consultas online. De acordo com a neuropsicóloga Camila de Masi, especialista em Distúrbios do Sono, houve aumento na busca por tratamento durante a quarentena. “Os atendimentos online flexibilizaram esse acesso e a severidade dos problemas promoveu uma maior busca por ajuda médica.” Entre os principais motivos destacados pela especialista, a instabilidade emocional e psicológica, somada ao crescente uso de álcool e demais substâncias, agravaram o quadro de insônia de parte da população. 

Quais os principais problemas de cada faixa etária? 

Segundo a neuropsicóloga, as agitações comuns às crianças durante a noite costumam ocorrer porque o hábito de dormir corretamente ainda está sendo construído, momento em que ocorre o chamado neurodesenvolvimento. 

Já para os adolescentes, as alterações hormonais geram maior demanda por horas de descanso e mudança no horário em que o corpo sente cansaço. “As mudanças hormonais causam atraso de fase do sono, fazendo os jovens sentirem cansaço mais tarde, precisando acordar mais tarde.”  

Apesar da alteração fisiológica, muitos estudantes acabam tendo de acordar mais cedo que o necessário para irem até a escola no período matutino. Nesse caso, a privação de sono, mesmo que por curtos períodos de tempo, pode causar distúrbios cognitivos que resultam em dificuldade para prestar atenção, memorizar e na aprendizagem.   

Os maus hábitos ligados ao repouso cultivados ainda na adolescência impactam diretamente na vida adulta do indivíduo, que com maiores problemas psicológicos desenvolvidos, podem acelerar o quadro de insônia. Mas não são apenas os adolescentes que podem encontrar dificuldades para descansar por conta de hormônios, aponta a especialista. “Nas mulheres, as alterações hormonais ocorridas durante o climatério podem ser um empecilho para que elas relaxem ao deitar na cama.”  

Principalmente nos casos de pacientes adultos que passam grandes períodos sem dormir adequadamente, são maiores os riscos de complicações cardiovasculares e metabólicas, como diabetes, já que o corpo fica desregulado.     

Entre os idosos, a redução na quantidade de horas de repouso pode ocorrer por fatores fisiológicos, especialmente com a mudança na produção da melatonina, um dos principais hormônios responsáveis pelo indivíduo conseguir dormir. Embora essa condição possa gerar regularidade nos horários em que o idoso acorda ou vai descansar, aspectos comportamentais podem ser decisivos na reparação oferecida durante as noites. “Especialmente para os homens, a aposentadoria é um fator que pode causar alteração do sono pela ansiedade gerada por mudanças na rotina.” 

Como dormir bem durante a pandemia? 

De acordo com o especialista em medicina preventiva Werther Busato, é essencial que se mantenha uma rotina, mesmo durante o isolamento social. “Precisamos seguir o ciclo circadiano, com mais atividades estimulantes durante o dia e com menor exposição à luz durante a noite, para a produção de melatonina.” 

Para Busato, é importante que a chamada higiene do sono seja feita antes do indivíduo dormir. Pelo menos uma hora antes de ir descansar, o indivíduo deve reduzir a intensidade da luz do tipo azul, que é a mais estimulante, além de se isolar de ruídos. “Ao repousarmos em condições ideais, a temperatura interna do corpo consegue diminuir, possibilitando a reparação desejada, que é sentida na manhã seguinte.” 

Quando se invade o período de descanso com distrações presentes em telas, fones de ouvido e até mesmo livros que despertem grande interesse, o indivíduo promove a chamada privação de sono. É considerada parcial, caso a pessoa consiga dormir, mesmo que por um tempo menor que o necessário. A privação é completa ou total, se não há repouso por um ou mais dias. Ambas situações, se prolongadas, podem levar a um quadro de insônia.  

O costume popularizado da automedicação quando surgem problemas para dormir, é contraindicado pelo especialista, já que a consulta médica é fundamental para a descoberta do que está causando dificuldades para relaxar à noite. “Caso o indivíduo seja insone, é feita a terapia cognitiva comportamental para insônia, que pode ou não incluir uso de remédios e substâncias, como a melatonina.”

Autor: Mateus Bertole.

Fonte: Metodista.