A volta de uma marcha silenciosa e resistente

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Gremistas se mobilizam para enfrentar a homofobia na Arena, usando a precursora e extinta torcida Coligay como modelo

Com o Grêmio onde o Grêmio estiver. Assim canta o torcedor gremista, fazendo referência ao hino do clube escrito por Lupicínio Rodrigues. Em meio à canção, com um tom de marcha, o músico descreveu: “Nós, como bons torcedores, sem hesitarmos sequer, aplaudiremos o Grêmio, aonde o Grêmio estiver”. Com o mantra proporcionado pela canção, enfrentando o preconceito de alguns torcedores, núcleos ligados ao movimento LGBT lutam contra a hesitação em frequentar o estádio tricolor, reivindicando um ambiente mais igualitário, diversificado e respeitoso. Para tentar conscientizar a pequena parte resistente, alguns grupos estão unindo-se para combater o preconceito, que ainda é muito latente nos estádios.

No futebol, o torcedor vem mudando seu comportamento. Antigamente, era muito raro ver presença de mulheres nas arquibancadas, por exemplo. O futebol era visto como um esporte para homem, denotação que abria espaço para um machismo de quem frequentava as partidas. Contudo, o tempo foi reeducando esse torcedor, dando uma nova cara ao ambiente esportivo. Hoje, a presença feminina nos estádios é comum. Futebol não é mais um esporte apenas para homens – a evolução social é nítida nesse caso. Porém, existem situações em que alguns grupos de torcedores continuam relutando contra a aceitação.  A diversidade sexual nos estádios é um exemplo dessa não-aceitação que ainda gera constantes preconceitos e repreensão de algumas pessoas. Os gritos de “bicha” e “viado” continuam sendo usados como xingamentos aos adversários, dando uma conotação negativa a esses adjetivos, e, consequentemente, a essa orientação sexual.

Na procura por unir esses grupos em busca de um ambiente mais diversificado, Flávia tentou convocar os torcedores a se unirem à causa. Ela propôs em uma rede social a formação de uma torcida organizada formada com ideais LGBT, recriando a pioneira torcida organizada gremista Coligay. Contudo, após o grande número de compartilhamentos da publicação, ela sofreu ameaças de torcedores contrários à ideia. “Eu recebi um feedback positivo, muito bom. Muita gente divulgou, muita gente ficou interessada. Algumas pessoas vieram falar comigo querendo mesmo fazer parte do movimento, se prontificando a ajudar, participar, fazer parte no que fosse necessário”, conta Flávia. Mas o retorno negativo, que ela já esperava, foi surpreendente. “É bem assustador ver acontecer. A gente recebeu ameaças, um print do anúncio circulou em grupos no Whatsapp e as pessoas comentando que, caso acontecesse, eles bateriam na gente e iriam fazer uma série de coisas. Isso foi bem assustador”, lembra a torcedora.

Jovem de 24 anos, Flávia é bissexual e conta que evita de levar pessoas com quem se relaciona ao estádio, pois sabe que o ambiente, em alguns momentos, não está preparado para isso. Ela conta que já sofreu preconceito no lugar. “De maneira muito direta não, porque eu não levei ninguém que me relacionava. Eu não demonstrei de alguma forma que fosse da comunidade LGBT. Mas já aconteceu de eu ouvir alguns comentários, xingamentos, e rebater, responder, e aí começar uma discussão. Dentro dos estádios e nos arredores, também”, relata. Pelas questões emocionais e de proteção física, Flávia declara certo receio em frequentar o estádio, mas reitera o desejo dessa união social da torcida. “Sem dúvida, eu tenho o desejo de reunir a comunidade LGBT, de forma silenciosa ou não. A gente não quer mais se esconder. Então, sim, ainda quero reunir as pessoas em prol disso. Mas não é fácil”.

A luta pela diversidade não é novidade para a torcida gremista. Na transição dos anos 1970 para 1980, em meio ao regime militar, momento onde as pessoas não tinham acesso ao diálogo e a troca de informações era censurada, um grupo de torcedores gremistas foi formado em uma casa noturna da capital gaúcha. A boate Coliseu serviu como berço da torcida Coligay. O núcleo, formado por homossexuais que torciam pelo Grêmio, ficou conhecido pela animação nas arquibancadas. O grupo, antes das partidas, se encontrava na boate, localizada na Avenida João Pessoa, na zona central de Porto Alegre, e caminhava até o Estádio Olímpico, antiga casa do clube, no bairro Azenha. Além de representar um movimento aberto à diversidade social em um período onde o tema era pouco abordado pela sociedade, a Coligay deu sorte ao clube.

Com o apadrinhamento do falecido presidente Hélio Dourado, a torcida esteve ao lado do clube na conquista do Campeonato Gaúcho de 1977 – quebrando a hegemonia de títulos do principal rival, Internacional -, Campeonato Brasileiro de 1981, Libertadores da América e Mundial de 1983.

Em busca de resgatar essa luta por um ambiente mais aberto às questões sociais, gremistas formaram dois núcleos que saíram das redes sociais e conquistaram espaço dentro da Arena: Tribuna 77 e Grêmio Antifascista. A Tribuna, em seu espaço na Arena, neste ano, celebrou o aniversário de 40 anos da Coligay na partida contra o Iquique, pela Libertadores da América. Ainda em sua luta por ambiente menos preconceituoso, busca pelo fim da expressão macaco – em referência à torcida do Internacional – nos cânticos da arquibancada. No sentido contrário, saindo do estádio, na página do Facebook, a torcida aprecia toda a cultura em que o Grêmio está envolvido, desde as relações com músicos, escritores, ex-dirigentes e ex-jogadores. Em sua essência ideológica, é aberta à diversidade cultural e social. Em um ambiente caracterizado por grupos organizados que só pensam nas questões futebolísticas, blindando as questões sociais que envolvem toda uma sociedade e um clube, o núcleo é uma nova concepção de interação entre os gremistas. O grupo luta além do campo e da bola para a reeducação e conscientização desta cultura superficial do futebol.

Para Valentina, as duas torcidas trouxeram de volta a vontade de frequentar o estádio. “Eu sempre fui aos jogos do Grêmio sozinha, mas não me sentia bem no estádio. É um ambiente machista, agressivo, racista e homofóbico”. Conforme a jovem, ao encontrar um conjunto de gremistas que defende os mesmos princípios em que ela acredita, a Arena transforma-se em mais receptiva e acolhedora. “Depois de me afastar um tempo, fui voltando aos poucos e conheci os movimentos Grêmio Antifascista e Tribuna 77. Primeiramente pela internet, depois no estádio, encontrei as pessoas antes do jogo. Foram muito receptivas e, desde então, assisto a todos os jogos na Tribuna 77. Foi um alívio enorme encontrar gente tentando tornar o estádio um lugar menos preconceituoso”. Para a torcedora, o preconceito dentro do estádio é apenas um reflexo da sociedade atual. “O estádio de futebol não é algo isolado, não é uma bolha. Faz parte de um contexto histórico, social e político que, por sua vez, lgbtfóbico, racista, xenófobo, machista. E o pior, parece que as pessoas se utilizam deste lugar de forma mais irracional ainda (às vezes parece que deixam seus cérebros e valores na catraca quando entram para assistir a um jogo), em nome da rivalidade e de um clubismo desmedido”.

Tanto para Valentina quanto para Flávia, além da mobilização das arquibancadas em busca de um lugar melhor, o clube também pode ajudar na conscientização do seu torcedor. “O futebol é a paixão que une todos os torcedores. O próprio Grêmio, enquanto instituição, já se manifestou a favor da diversidade, mas acredito que ainda possa explorar muito mais”, declara Valentina. Para Flávia, a instituição pode se basear na sua própria história para criar um ambiente mais propício à diversidade. “Naquela época, o presidente do clube acolheu a Coligay. Acho que foi muito importante. Os clubes são instituições perfeitas para reeducar, porque o alcance que eles têm é muito grande e a influência cultural é fortíssima“, conclui.

O que pode parece ser movimento precursor no futebol brasileiro, já é uma realidade no futebol europeu. Na Inglaterra, grupos LGBT ganharam espaço nos estádios. Em White Hart Lane (estádio do Tottenham), Etihad Stadium (Manchester City) e Stamford Bridge (Chelsea) já são vistas, em meio ao público, várias bandeiras com as cores do arco-íris, representando uma arquibancada mais diversificada. No futebol inglês, já são mais de 30 torcidas voltadas exclusivamente ao público LGBT. Canal Street Blues (Manchester City), Proud Lilywhites (Tottenham) e Gay Gooners (Arsenal) são exemplos de grupos que se consolidaram nas arquibancadas inglesas. É possível citar, além do aumento significativo destes núcleos, a instituição “Football v Homophobia”, que luta por um ambiente igualitário entre torcedores. A diversidade é uma certeza na terra da Rainha.

Flávia, Valentina, Tribuna 77 e Grêmio Antifascista reivindicam um ambiente mais igualitário, sem preconceitos. Como cita o artigo número 2 da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação”. Amor não tem cor, não tem raça, não tem orientação sexual. O futebol tem a força de educar, conscientizar e desenvolver uma sociedade mais equilibrada e menos preconceituosa. No caso da torcida gremista, a mobilização de alguns grupos ideológicos serve para, assim como diz o hino do clube, estar com o Grêmio onde o Grêmio estiver. Independentemente da orientação sexual.

Texto: Leonardo Radaelli
Foto: Nicolas Chidem
Fonte: Famecos/PUCRS