Vidas com AIDS

Gina com 48 anos, convive com o HIV há 12 anos.

Reportagem conta a história de três pessoas que contraíram o vírus HIV. As dificuldades, o preconceito, o cotidiano e a luta diária contra a doença que atualmente atinge mais de 800 mil brasileiros.

Gina é casada e tem 48 anos de idade. Mora em Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e tem dois filhos. Há 12 anos deixou a função de corretora em uma instituição bancária. Joyce é natural de Santa Cruz do Sul e tem 55 anos. É transexual é trabalha na ONG Igualdade, que presta apoio a transexuais e travestis em Porto Alegre. Yura é uma porto-alegrense de 24 anos. Atua como voluntária em um projeto social nas áreas carentes da Capital. As vidas de Gina, Joyce e Yura se cruzam na dor, no medo, na incerteza e na sobrevivência. Joyce soube que tinha Aids em 1994. Gina contraiu o vírus HIV em 2005. E Yura recebeu o diagnóstico de soropositivo em 2015.

Foi apenas mais uma transa para a mulher de 35 anos, uma transa normal com camisinha, mas que terminou de um modo inesperado. Durante a relação, o homem tirou o preservativo e continuou sem avisá-la. Um ano depois, Gina foi diagnosticada com AIDS.

Naquele ano de 2005, Gina emagreceu 30 quilos. Doente e frágil, foi levada de cadeira de rodas para o Hospital São Lucas da PUCRS, onde descobriu que tinha o vírus. Mãe de dois filhos, um de 22 anos e uma de cinco, ela não suportou o impacto da notícia. Entrou numa depressão que parecia não ter fim, o que afetou ainda mais sua imunidade.

A epidemia da AIDS surgiu nos anos 80, classificada como ameaça para a saúde pública pela ONU. Hoje, um total de 36,7 milhões de mulheres e homens em todo o planeta são portadores do vírus HIV. Desde a sua descoberta, provocou 36 milhões de mortes. Segundo a UNAIDS, no Brasil há 830 mil pessoas vivendo com a doença. No ano passado, 14 mil pessoas morreram em decorrência da doença.

Antes do diagnóstico, Gina trabalhava num banco em Porto Alegre. Ao contrair o vírus, a doença progrediu rapidamente. Quando começou a emagrecer e a sentir fraqueza, as coisas mudaram no emprego, e Gina foi demitida.

Mesmo fragilizada, Gina resolveu buscar apoio. E encontrou o Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS (GAPA). “O que eu queria encontrar no GAPA era gente viva com AIDS, algum exemplo de superação”. Por essas coisas inexplicáveis do destino, foi no Gapa que ela conheceu o seu atual marido, um amigo, um companheiro e um casamento que já dura 12 anos. “É uma ligação de almas. A gente cuida um do outro”.

Gina conseguiu tirar da doença boas doses de energia positiva. Começou a militar em prol dos direitos de acesso à saúde e se engajou em causas populares referentes à saúde pública. Hoje, integra a Pastoral da AIDS e dá muitas palestras em eventos sobre a doença. “Conheci um novo mundo, eu realmente renasci. Inclusive na forma de pensar”.

Joyce é transexual e foi diagnosticada com HIV em 1994. Aos 17 anos, percebeu ser homossexual, em Santa Cruz do Sul. Começou trabalhando como garota de programa na cidade, até conhecer uma amiga e se mudar para Passo Fundo, onde ficou dois anos trabalhando com prostituição. Depois decidiu passar uma temporada com a avó em Rio Pardo, onde realizou um curso de cabelereira.

Chegou a Porto Alegre em 1984, aos 21 anos, trabalhava de dia num salão de beleza e à noite como garota de programa. Até que em 1994 sua vida mudou totalmente. Com infecção urinária, foi ao médico. E descobriu que estava com AIDS. “A vida muda, dá uma volta de 180 graus”.

Joyce comenta que logo após ser detectada buscou acompanhamento psicológico. Como Gina, foi ao GAPA buscar o que estava procurando: um suporte emocional, “Imaginei que ia morrer no outro dia … Fica aquele fantasma na cabeça”. Ela contraiu a doença numa relação com um cliente, o homem não contou que tinha AIDS. Joyce lembra que estava sob efeito de cocaína. “No momento que você está drogado, o cérebro não funciona. Na época, tudo era festa, uma irresponsabilidade”.

Joyce, da ONG Igualdade,em defesa dos transexuais e travestis.

Joyce, da ONG Igualdade,em defesa dos transexuais e travestis.

Aos 55 anos, Joyce é ativista da ONG Igualdade, onde presta apoio à transexuais e travestis. Está em um relacionamento há 10 anos e admite que sua qualidade de vida é muito boa. Ela afirma que hoje é uma pessoa responsável. “Gostaria de ter a cabeça que tenho hoje em 1994”.

Rio Grande do Sul e Porto Alegre costumam aparecer nos rankings de novos casos e mortalidade por AIDS com números negativos. De acordo com o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, o Estado apresenta a segunda maior taxa de detecção de AIDS no país, com 38,3 casos para cada 100 mil habitantes, quase o dobro da média nacional (19,7 casos por 100 mil). Em 2014, Porto Alegre foi a capital com a maior taxa de detecção: 94,2 casos por 100 mil habitantes, mais do que o dobro do índice gaúcho e quase cinco vezes superior à taxa brasileira. Quanto às mortes por AIDS, os últimos anos vêm mostrando uma tendência de queda, mas os números ainda são altos: o Rio Grande do Sul tem 10,6 mortes para cada 100 mil habitantes, e Porto Alegre, 28,3, quase cinco vezes acima do coeficiente nacional (5,7).

Yura tem 24 anos e já convive com a AIDS há dois anos. Em janeiro de 2015, contraiu pneumonia. Cinco meses depois, com o corpo frágil e com sinais de perda de cabelo, foi internada. Chegou ao hospital em uma cadeira de rodas. Ali soube que estava com o vírus HIV. Todo aquele ano foi marcado por internações e o medo permanente de não voltar mais. “Até eu me estabilizar, achava que ia morrer sempre que ia para o hospital”. Com o tempo, soube superar o peso na consciência logo depois do diagnóstico. “No primeiro momento vem aquela culpa de não ter se cuidado”.

Yura convive há 2 anos com a AIDS.

Yura convive há 2 anos com a AIDS.

Com o apoio da família, Yura leva uma vida normal. Recebeu carinho e motivação para focar na sua recuperação. “É muito importante o acolhimento das pessoas”. Ela trabalha em um projeto junto à Secretaria Municipal da Saúde, o Fique Sabendo Jovem, um ônibus móvel no qual são fornecidas informações sobre AIDS e outras DSTs.

O último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, de 2016, revela que 25% das novas infecções são na faixa etária de 15 a 24 anos de idade. O HIV é um vírus que ataca o sistema imunológico, fazendo com que o organismo fique suscetível a doenças oportunistas. Isso porque ele acaba com as células de defesa. Todas as pessoas entrevistadas na reportagem contraíram doenças, como pneumonia, por exemplo, em decorrência do vírus.

O GAPA

Pessoas infectadas pelo vírus HIV sempre tiveram um lugar onde buscar informação e apoio, o Grupo de Apoio e Prevenção da Aids, fundado em 1989, em Porto Alegre. No mês passado, no entanto, o GAPA teve sua sede fechada. O dono do imóvel pediu reintegração de posse do prédio porque a Secretaria Estadual da Saúde,  responsável pelo aluguel, não fazia o pagamento havia oito anos. A Organização Não-Governamental se tornou referência na luta contra a Aids nos anos 1990.

Procurando uma nova sede há anos, o grupo ouviu promessas dos governos estadual e municipal, mas elas nunca se concretizaram. Em 2009, o Estado chegou a ceder um imóvel na Avenida João Pessoa, mas depois voltou atrás. Em 2011, a Secretaria Municipal de Saúde ofereceu um prédio na Rua Jerônimo Coelho, no Centro Histórico. O imóvel chegou a ser reformado para receber o grupo, mas, às vésperas da mudança, o Corpo de Bombeiros interditou o local.

Texto: Rodrigo Brasil
Foto: Pedro Spieker
Fonte: Famecos/PUC-RS