Vaza Jato provoca mudanças na vida política e no jornalismo brasileiro

Editor do The Intercept Brasil conversa com estudantes e professores da Famecos

  • Discussões sobre ética no jornalismo, limites da profissão e cenário político atual regaram a conversa com o editor do The Intercept, Alexandre de Santi na arena da Escola de Comunicação, Artes e Design da PUCRS, na manhã de quarta-feira (17/9). A conversa, com uma tônica de bate papo, durou mais de uma hora e teve como enfoque principal a rotina de um dos veículos de comunicação mais populares da atualidade. Para mais de 50 estudantes, professores e ex-alunos, De Santi falou sobre os desafios de publicar a série de reportagens que ficou conhecida como Vaza Jato. 

As mais de 20 matérias foram escritas a partir de um arquivo, que chegou às mãos do Intercept Brasil por uma fonte anônima. Desde então, o veículo vem publicando semanalmente conteúdos que comprovam postura suspeita de procuradores e do juiz Sérgio Moro que atuava na operação Lava Jato. O impacto e a repercussão do material são incontestáveis, e foram tão relevantes que fizeram com que outro meios de comunicação se interessassem, expandindo o time de parceiros para mais de mais, dentre os quais estão Folha de S. Paulo, Agência Pública e revista Veja. 

O editor ressaltou alguns pontos sobre a atuação da equipe de profissionais envolvida, abordando principalmente quais critérios éticos foram primordiais para a construção de uma narrativa tão extensa e importante para a democracia nacional. Na sua fala, ele destacou a identificação que todos os membros do time têm quanto aos critérios jornalísticos para divulgação das informações, trazendo uma ideia de alinhamento entre todas as partes, variando apenas os interesses editoriais. Além disso, ao ser questionado sobre uma possibilidade de censura, caso existisse o contato com os personagens que aparecem nas matérias antes de sua veiculação no site, De Santi foi categórico: “O interesse público de colocar o material na rua era maior do que correr o risco de uma ação de censura prévia.” 

O jornalista acredita que o material não chegou por acaso ao Intercept, pois para melhor preservação e divulgação do conteúdo era preciso ser visto e editado por veículo de comunicação da mídia independente, devido aos múltiplos interesses dos meios de comunicação tradicionais. 

Quanto ao impacto político do conteúdo da Vaza Jato, De Santi reitera que foi gigante, assim como as ameaças que o veículo passou a receber, algumas transformadas em processo judicial. Para o profissional, a principal força política na atualidade é a Lava Jato. Com a série de informações apresentadas, a opinião pública passou a mudar ao perceber que há posicionamento político implícito nas decisões da operação e não apenas interpretação jurídica a partir das investigações e provas. “Eu acho que o que aconteceu agora é uma pequena fissura no sistema, muita gente que preferia fechar os olhos para isso tudo começou agora a pensar duas vezes”, disse De Santi .. 

Ao ser questionado sobre o impacto que esse momento poderia vir a ter nas eleições de 2022, já que recentemente o Brasil elegeu um presidente (Bolsonaro) de posicionamento e discurso autoritário oposto aos quais vinham governando, ele afirmou que esse movimento conservador cresce em todo o mundo. A partir da Vaza Jato fica evidente a postura corporativista que era adotada pelos órgãos da justiça brasileira em nível nacional, e que o autoritarismo já estava dentro das instituições, visto nos diálogos entre o juíz Sérgio Moro e o procurador federal Deltan Dellagnol, por exemplo.  

A conversa foi além, deixando algumas previsões para o futuro do jornalismo. De Santi deu a entender que vê no Intercept um modelo a ser replicado ao redor do mundo, e principalmente no Brasil. Aos presentes deixou um questionamento: será que narrativas parecidas com a Vaza Jato só possuem espaço em veículos independentes?  

Autor: Luísa de Oliveira Thaís Macedo 

Fonte: Famecos/PUC-RS.