“Vaquinha” online busca dar um telhado para os filhos dona de casa de Gravataí

PUC-RS
O desafio da reforma da casa é mais um desafio para Elaine, cuja vida é permeada por diversos tipos de dificuldades e marcada pela superação

“Quando chove, alaga. Quando venta, sacode tudo”. A casa não tem viga, nem coluna. As telhas estão em cima de varas redondas de eucalipto. A construção, que era só de madeira, foi crescendo, ganhou tijolos, mas faltou a estrutura. Essa é a realidade do local onde mora Elaine Dorieta da Silveira Trindade, 39 anos, que cuida sozinha de seis filhos. A família mora no bairro São Vicente, parada 76, em Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Com o objetivo de arrecadar recursos para o conserto do telhado da casa, Elaine resolveu buscar ajuda pela internet.

Elaine não tem receio de pedir socorro. Sem perder a dignidade, revela aspectos da vida que muitas mulheres, por medo de represálias, preferem deixar escondidos. Dois companheiros, sete filhos – dois especiais, cada filho um histórico de doença ou animosidade – e uma vida de abusos e agressões. Estudou até a 7ª série do ensino fundamental e trabalhou, durante oito anos, em bingos da capital. Hoje, sobrevive de pequenos bicos. Também faz faxinas, quando elas aparecem.

Das oito peças da casa, cinco são quartos. Todas têm marcas deixadas pela chuva. À esquerda da entrada fica o quarto de Elaine. Na local que mais alaga quando chove, ela dorme com os três filhos mais novos. Um armário divide a peça onde dormem outros dois. Outra fica reservada para as visitas do filho que não mora em casa. A filha mais velha ocupa um dormitório só dela. A casa se completa com um banheiro e a peça de entrada, onde estão a sala e a cozinha.

Sem condições para reformar o telhado, Elaine pediu ajuda há cerca de um mês, depois de uma chuva forte. Era madrugada, horário de levar as crianças para a escola. Apavorada, começou a tirar fotos do telhado e publicou-as na internet. Um amigo sugeriu fazer uma vaquinha online – iniciativa colaborativa com objetivo de arrecadar dinheiro para uma ideia ou projeto, ou apenas para ajudar alguém.

Sem condições para reformar o telhado, Elaine pediu ajuda há cerca de um mês, depois de uma chuva forte

Sem condições para reformar o telhado, Elaine resolveu pedir ajuda depois de uma chuva forte

Foi a analista de sistemas Renata Silveira Vidal, 37 anos, quem auxiliou Elaine a fazer a vaquinha. Elas se conheceram na comunidade Free Your Stuff (FYS), no Facebook. O objetivo do grupo é trocar ou doar objetos que as pessoas não utilizam mais. Ela ficou surpresa quando viu Elaine pedindo alimentos. Renata já visitou Elaine duas vezes. Doou fraldas, itens de higiene e chegou a pagar o IPTU da casa.

Foi na última gravidez que Elaine decidiu criar a sua conta no Facebook. Com 813 amigos na rede social, ela reconhece a importância da internet e das pessoas que lhe ajudam. “Muita coisa, se não fosse a ajuda do pessoal do Face, eu não sei o que seria de mim. Acho que eu já teria desistido, não iria conseguir, faz muita diferença”.

A vaquinha começou no dia 15 de setembro e se encerra em 14 de dezembro. O objetivo é atingir R$ 4 mil. Até o momento foram arrecadados R$ 2.166, correspondente a 54,15% do total, embora R$ 500 dos boletos ainda estejam pendentes. O valor da doação é livre. Para ajudar a Elaine a arrecadar recursos para o conserto do telhado da sua casa, é só acessar este link.

“Tendo de comer, eu gosto”
Elaine conta muito com doações para sobreviver. Elas estão por toda a casa. Das bonecas a um skate. De uma janela a um saco de cimento. De uma gravata para o filho usar na igreja evangélica ao violão para ele tocar no culto. Do fogão à máquina de lavar roupas. Mas as doações que mais deixam a família feliz são os alimentos.

Mesmo que todos os filhos queiram leite, por exemplo, a bebida é racionada, porque não há dinheiro para comprar para todos. O privilégio é reservado só aos três mais novos. Talvez por isso a frase mais ouvida na casa seja “tendo de comer, eu gosto”.

Elaine estudou até a 7ª série do ensino fundamental e trabalhou, durante oito anos, em bingos da capital

Elaine estudou até a 7ª série do ensino fundamental e trabalhou, durante oito anos, em bingos da capital

Vida marcada por dificuldades e superações
O telhado é mais uma das dificuldades pelas quais Elaine já passou. Quando a mãe se separou do pai, devido a agressões, ela tinha apenas um ano de idade. Só foi conhecê-lo aos 13 anos, quando estava internado tratando de alcoolismo. Vítima de dois derrames cerebrais, não reconheceu a filha. Ele morreu há seis anos.

Aos 12 anos, Elaine e a irmã Cátia – três anos mais velha –, conheceram dois irmãos e foram embora de casa. O companheiro de Elaine tinha 24 anos à época.

“A mãe tinha um namorado hoje, outro amanhã. Era comum sermos abusadas. Eles diziam que, se nós contássemos para a mãe, iríamos apanhar. Nós contávamos, mas a mãe não acreditava, dizia que éramos mentirosas, que nos oferecíamos, que a culpa era sempre nossa”, diz, justificando a independência precoce.

Seis anos mais tarde, Elaine engravidou pela primeira vez e foi desprezada pela mãe e pelo primeiro companheiro, com quem acabou tendo quatro filhos.

Grávida, morou na rua por oito meses. De dia, ficava na casa das amigas e colegas da escola. À noite, dormia no albergue, ou na Igreja, no centro de Gravataí, onde tinha uma fachada e ela conseguia se abrigar. Desse período, a pior recordação foi a fome. ”Eu estava grávida e tinha vontade de comer, mas não havia comida”.

Das oito peças da casa, cinco são quartos. Todas têm marcas deixadas pela chuva

Das oito peças da casa, cinco são quartos. Todas têm marcas deixadas pela chuva

Quando o bebê nasceu, prematuro de oito meses, a avó e o ex-companheiro foram conhecê-lo na maternidade. Com o nascimento do primogênito, Elaine foi convidada a voltar para casa. Hoje, ele estuda Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e desde os cinco anos mora com a avó, em Porto Alegre.

Logo depois, Elaine engravidou da primeira filha. Diabética e com problemas no coração, todas as suas gravidezes foram de risco. Aos seis meses, a garota foi diagnosticada com leucemia e realizou, com sucesso, um transplante de medula óssea. Um ano depois, nasceu um filho com um só pulmão e paralisia cerebral. Na sequência, Elaine engravidou de trigêmeos, mas um só sobreviveu. Depois de inúmeras brigas, Elaine se separou. “Ele me batia muito, eu sofria agressão. Ele bebia, eu achava que era a culpada. Eu era louca por ele”.

Com um novo companheiro, que conheceu em uma boate, onde trabalhava, Elaine teve mais três filhos. O primeiro tem hoje quatro anos. Mais tarde, com apenas 900g e 35cm, nasceu mais uma garota, que permaneceu 75 dias internada na UTI. Os médicos disseram que ela não iria sobreviver.

A filha mais nova, hoje com dois anos, nasceu com paralisia cerebral. Como havia sofrido violência doméstica, realizaria mais uma cesariana, tinha pressão alta e tomava muitos medicamentos, os médicos sugeriram que fizesse um aborto legalizado. Elaine insistiu e quis ter a filha.

Apesar de separados, as agressões continuavam. Na última vez, em abril desse ano, ela pediu que ele viesse ficar com as crianças porque precisava ir ao médico. Ele chegou bêbado, agrediu-a e acabou quebrando o nariz e fazendo um ferimento na testa de Elaine. “Quando eu vi que não ia aguentar mais, que ele ia me matar, eu fugi para o mato”. Cansada das agressões, Elaine buscou proteção na Lei Maria da Penha.

Elaine tentou o suicídio duas vezes. Na primeira oportunidade, apaixonada, ela não admitia separar-se do pai dos primeiros filhos. Na segunda, o motivo foi a perda de um bebê que estava com 20 semanas de gestação. Motivado por isso, o último companheiro de Elaine alegou que ela representava uma ameaça às crianças.

O Ministério Público impôs-lhe uma curadora, alguém que lhe auxilia, até que ela seja capaz de não demonstrar perigo. Diagnosticada como bipolar, Elaine faz tratamento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e toma seis remédios.

"Quando chove, alaga. Quando venta, sacode tudo", diz Elaine sobre a sua casa

“Quando chove, alaga. Quando venta, sacode tudo”, diz Elaine sobre a sua casa

Motivos para viver
Pergunto a Elaine qual é a motivação que tem para seguir em frente apesar dos problemas. Ela responde, emocionada, com os olhos apertados, segurando o choro.

“Os meus filhos. Em não ver a minha filha passar o que passei na mão de homem. Não ver meus filhos usando drogas ou roubando para ter alguma coisa. Não ter que mendigar”. Arrependida de ter casado cedo, se pudesse, queria ser advogada.

Coração aberto
Elaine criou, por 15 anos, uma enteada. E no ano passado, durante oito meses, uma menina que tinha perdido a mãe. Antes de irmos embora, mais uma surpresa. Ela comenta que vai abrigar uma amiga que tem duas filhas, sendo uma delas, de oito anos, especial. O coração de Elaine é grande. A casa pode não ter telhado, mas tem sempre espaço para mais um, ou no caso, mais uns. Solidariedade em primeiro lugar, sempre. Depois de formar os filhos e deixá-los independentes, Elaine pretende ser uma mãe social e auxiliar crianças que não tenham lar.

Texto: Marcelo Machado
Foto: Ana Carolina Lisboa
 FONTE: Famecos/PUC-RS