Uma voz contra a guerra

Os bastidores do poder do jornalista Seymour Hersh.

Vencedor de diversos prêmios jornalísticos, Seymour M. Hersh reúne no livro ‘Repórter: Memórias’ os detalhes da carreira de jornalista investigativo em plena Guerra Fria. A obra, publicada há dois anos no Brasil pela Editora Todavia, não apenas relata as experiências pessoais do jornalista, mas também conta todos os acontecimentos do cenário político nos Estados Unidos. A autobiografia escrita por acaso recupera as principais memórias durante a ‘era de ouro do jornalismo’.

Após uma tentativa frustrada de publicar um livro sobre Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos no governo de George W. Bush e a visita ao Vietnã depois de quatro décadas desde a primeira vez em 1971, Seymour Hersh começa uma verdadeira recuperação das memórias na carreira de mais de 60 anos. O projeto sobre o político não foi publicado, pois segundo ele, era arriscado colocar a integridade e segurança das fontes em risco. Com isso, nasce ‘Repórter’, obra que conta as apurações do jornalista que já trabalhou no The New York Times e Washington Post.

Começando a carreira jornalística em 1959, Seymour teve o primeiro trabalho como repórter policial contínuo do City News Bureau na cidade de Chicago, nos Estados Unidos. Cobrindo crimes, incêndios e outros acontecimentos locais, ele ficou lá por alguns anos até se demitir para ir a Washington D.C trabalhar para a Associated Press e, em seguida, para a assessoria de imprensa de Eugene McCarthy durante as eleições presidenciais de 1968. Já na capital do país, ele ficou amigo de I. F. Ston, um jornalista independente que foi um dos maiores defensores dos direitos humanos e contra a Guerra do Vietnã.

Inspirado no amigo ao falar abertamente contra a Guerra, Hersh então começou a maior investigação e furo jornalístico de sua carreira após receber informações de uma fonte não identificada: o genocídio de My Lai. O episódio aconteceu em 1968, acarretou na morte de cerca de 500 pessoas, incluindo mulheres e crianças em uma aldeia no Vietnã, e foi ordenado pelo tenente William Calley. No livro, além de expor todos os detalhes mínimos da investigação, Seymour faz um passo a passo de como, sozinho, conseguiu chegar diretamente a Calley, conseguindo a confissão do próprio autor do crime. O artigo publicado pela The New Yorker rendeu o prêmio Pulitzer de Reportagem Internacional em 1970. 

Além desse artigo, ele também publicou outras diversas denúncias da política norte-americana, como o caso Watergate, a espionagem ilegal da CIA de organizações pacifistas durante Guerra do Vietnã e o ataque as Torres Gêmeas no 11 de setembro. “Essa minha profissão é incrível. Eu não faria nada diferente”, afirma o jornalista.

Fica claro, o poder da voz jornalística de Seymour M. Hersh e o leal comprometimento com a verdade de forma democrática. Não somente isso, a obra é essencial para todos os aspirantes do jornalismo investigativo e curiosos em relação ao mecanismo do jogo político na Casa Branca.

Autor: Luiza Rech.

Fonte: PUC-RS.