Um pesadelo de olhos abertos

PUC-RS

Registros de pessoas que desapareceram cresceu 45% nos últimos 10 anos

Três anos e meio. Mais de 1.280 dias. Em outubro completa quatro anos que Beatriz Winck, à época com 77 anos, desapareceu sem deixar nenhuma pista. A idosa sumiu no dia 21 de outubro de 2012 quando participava de uma excursão à cidade de Aparecida (SP) junto com o marido Delmar Winck, de 85 anos, que reside no município de Portão, a 48 quilômetros de Porto Alegre. Segundo a família, Beatriz estava à espera de Delmar na porta da Casa das Velas, ao lado do Santuário. Ao retornar das compras, a mulher havia desaparecido.  O misterioso caso de Beatriz engrossa a lista de desaparecidos no Brasil, praticamente um a cada dois minutos.

Beatriz não sofria de Mal de Alzheimer, mas apresentava lapsos de memória. A Polícia Civil acredita que ela tenha tido um lapso e possa ter entrado por engano em um ônibus e ter se dirigido a qualquer lugar do país. Também não foi descartada a hipótese de sequestro da idosa. Para ampliar os contatos nas redes sociais, a família criou a página Beatriz Winck no Facebook, onde as pessoas podem compartilhar informações e entrar em contato pelo site ou pelos telefones divulgados na página. Em uma publicação de abril de 2015, a família escreveu que tinha indícios de que Beatriz estava viva, mas em grave estado de saúde. A última atualização da página foi há quase um ano, no dia 5 de maio de 2015.

Carlos Winck, filho do casal, conta que a Promotoria de Portão está com o caso e que o inquérito policial de Aparecida foi transferido para São Paulo. Nos primeiros anos, a família foi bastante contatada por relatos e ligações anônimas de todo o país, que informavam pistas e possíveis lugares onde Beatriz poderia estar. Com o passar do tempo, o número de informações obtidas também foi escasseando. “A polícia só nos liga quando há algum fato novo”, relata Carlos, em tom de desânimo. A família tem convicção de que Beatriz não está morta. Os Wink peregrinaram por diversas unidades do Instituto Médico Legal no país para tentar identificar corpos de idosas, sem sucesso. Em todos os casos, exames de DNA descartaram ser Beatriz. Carlos tem sua hipótese do que pode ter acontecido com a mãe: Beatriz pode ter perdido a memória e, neste momento, estar sob os cuidados de uma clínica em algum ponto do país. “Oferecemos recompensa em dinheiro para quem nos dê pistas do lugar em que minha mãe está. Estamos todos muito angustiados, espero que ela apareça de uma vez por todas para acabar com esse sofrimento”.

Os dados de 2013 da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul mostram que foram registrados 10,2 mil casos de desaparecimento. Destes, 5,3 mil são menores de idade (entre 12 e 17 anos) e 4,9 mil adultos. O índice dos que são encontrados é de 79,4% (8,1 mil pessoas). Na Capital, por exemplo, os números indicam que das 2,6 mil que sumiram, 2,2 mil voltaram ao convívio familiar. Ainda que pequeno, considerado o universo de registros, o número de homens que desaparecem é maior que o de mulheres, com 109 casos a mais. As estatísticas da Secretaria de Segurança atestam uma preocupação: nos últimos 10 anos, houve aumento de 45% do número de desaparecidos. Entretanto, em 82% dos casos é registrado o reaparecimento. As histórias, a seguir, de Egídio Berwig e Roger Conceição da Silva fazem parte dessa estatística.

“A pior sensação da vida”

Foram 56 horas de pânico. Três dias e duas noites. Neste tempo, Juliana Berwig viveu os piores momentos de seus 37 anos. No dia 2 de abril deste ano, o pai desapareceu. Diagnosticado com Mal de Alzheimer, Egídio Berwig, 77 anos, se perdeu na Zona Norte de Porto Alegre. “Foi um pesadelo de olhos abertos”, desabafa Juliana. Em um país em que 28 pessoas desaparecem a cada 60 minutos, muitos não têm a mesma sorte de Juliana. Muitos somem para sempre.

A família Berwig notou o sumiço no primeiro sábado de abril deste ano, às 9h30min. Egídio, também conhecido como Guido, é viúvo e mora com acompanhantes. Naquele dia, porém, estava sozinho. Após conversar com vizinhos, os familiares foram informados que Egídio havia deixado o apartamento no começo da manhã. Foi a senha para dar início a uma busca exaustiva e incerta.

Com uma foto de Guido, a filha implorou por ajuda e compartilhamento de seus amigos no Facebook, esperando alcançar o maior número de pessoas possíveis. A iniciativa surgiu após uma frustrante ida à 9ª Delegacia de Polícia Civil, no Bairro IAPI. Ao registrar o desaparecimento, a família percebeu que a polícia não poderia dedicar muitos esforços na busca, devido à falta de recursos e um certo despreparo dos agentes para este tipo de ação. Depois da polícia, os Berwig trataram de eliminar as alternativas mais comuns. Contataram hospitais e o Instituto Médico Legal da capital. Nada. Foi preciso coragem e controle emocional para suportar uma noite longa e cheia de pontos de interrogação.

No domingo de manhã (3), um alento para Juliana. Pelo telefone, um funcionário do pedágio da RS-040 afirmou ter visto um idoso caminhando pela região de Águas Claras, área rural do município de Viamão, na Região Metropolitana. Egídio disse para o funcionário que “estava indo para casa”. Distribuídos em quatro carros, os familiares concentraram as buscas na localidade, seguindo dicas da Polícia de Viamão. Cartazes com fotos foram espalhados pela região. Os primeiros locais a serem investigados foram restaurantes e bares, considerando que Egídio havia saído de casa sem comida ou dinheiro. O esforço foi grande. O resultado, nulo. Quase 48 horas depois de desaparecer, o paradeiro de Egídio continuava uma incógnita.

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O terceiro dia de buscas começou com pistas: moradores haviam avistado alguém dormindo na parada 108 da RS-040, em Águas Claras. A família Berwig soube de uma notícia que alguém estava desacordado e recebendo atendimento médico nas proximidades da parada 104. Egídio foi encontrado às margens da rodovia desacordado e incapaz de reconhecer a família. O idoso, desidratado, tinha queimaduras na pele e picadas de inseto. Foi encaminhado para ao Posto de Saúde de Viamão. Logo depois, foi levado ao Hospital Conceição, na Capital. 

24 dias de pavor

Sexta-feira Santa, dia 25 de março de 2016. Roger Conceição da Silva, de 18 anos, saiu da casa do avô, no Morro da Cruz, Bairro Partenon, sem avisar ninguém. Poucas horas depois, os familiares estranharam o sumiço do garoto. Começava uma longa procura por Roger, que sofre de esquizofrenia e toma remédios controlados.

O tio de Roger, Isaías Cardoso, conta que o primeiro local onde a família procurou foi no Postão da Vila Cruzeiro. Em casos psiquiátricos, as pessoas encontradas pela polícia são deixadas lá. Também foi feito contato com a imprensa. “Eu e minha esposa Eliane espalhamos cartazes nos bairros próximos, fizemos buscas nos hospitais e fomos ao Bairro do IAPI. Não encontramos nada”, lembra. Roger passou a Páscoa longe de casa.

O desaparecimento de Roger foi registrado no Palácio da Polícia. “Eles (polícia) falaram que iam fazer a parte deles e entrar em contato com outras instituições”, diz Isaías. O caso foi publicado na página do Facebook Porto Alegre 24 Horas e teve mais de 900 compartilhamentos. Apesar do engajamento e da solidariedade nas redes sociais, poucas pessoas entraram em contato com Isaías e Eliane. “Tivemos pouco retorno”.

Com o passar dos dias, a angústia e o desespero aumentavam cada vez mais. Mesmo com muita mobilização, não havia nenhum indício do possível paradeiro de Roger. A polícia não dava notícias. Treze dias depois do sumiço de Roger, em 7 de abril, a família foi contatada por uma ligação que devolveu esperança à família. Do outro lado da linha, uma voz informou que o menino teria sido visto em Esteio, Região Metropolitana da Capital. Isaías saiu de carro em para fazer a busca. Apesar de andar pela cidade até as 2h da madrugada, Roger não foi encontrado. A família contabilizava duas semanas do desaparecimento. O drama persistia.

A terceira semana sem Roger passou em branco. Nenhuma informação, nenhuma pista, nenhum indício. Tudo indicava que seria mais um caso sem solução. Passaram-se 10 dias desde a procura por Roger em Esteio. Mais uma semana começava, com poucas perspectivas. Entretanto, tudo mudou. Na segunda-feira, 18 de abril, uma vizinha de Isaías teria visto Roger andando, perdido, em uma rua do Bairro Bom Jesus. Ela contatou Isaías imediatamente. Na mesma rua, pessoas da Igreja Evangélica estavam circulando e cruzaram com o garoto. Acreditando que Roger fosse um menino de rua, o convidaram para ir a um retiro espiritual. Roger teria aceitado e se juntou ao grupo, que andou em direção a uma igreja evangélica próxima do bairro. Isaías já estava a caminho do Bom Jesus. Quando chegou no local descrito pela sua vizinha, o sobrinho não estava mais lá. Ao questionar moradores do local, Isaías descobriu o paradeiro de Roger: ele estava nas dependências de uma Igreja Evangélica. O drama de 24 dias havia chegado ao fim, sem a ajuda da polícia. “Eles têm outras coisas para fazer”, disse. Ele completou, afirmando que “é preciso ter muita fé em Deus em momentos como esse”.

“Não existe crime de desaparecimento. A polícia trabalha com crime”

Para a polícia, o desaparecimento de pessoas está ligado a muito motivos. Doenças que afetam a memória, como no caso de Egídio Berwig, homicídio (porque matou alguém ou foi morto), sequestro, cárcere privado ou, no caso de crianças, abuso, exploração sexual e tráfico de pessoas. Entre vários goles de café, o titular da 5ª Delegacia de Homicídio e Proteção à Pessoa da Capital, delegado Gabriel Bicca, explica que a primeira coisa a fazer é traçar o perfil do desaparecido. “Se a pessoa é alvo potencial de um crime, passamos a orientação para que os bombeiros façam buscas em uma determinada região”. Com o desenvolvimento da tecnologia, as redes sociais também são utilizadas para a apuração de informações da vítima. “Investigamos páginas do Facebook para analisar a linha do tempo, buscando eventuais publicações suspeitas. “Tivemos o caso de um jovem que frequentemente mencionava em seus posts que ia se matar. Depois de um tempo, ele desapareceu e o encontramos morto, vítima de suicídio, em uma praia que ele costumava marcar nas publicações”, disse.

Nas investigações da polícia, é feita uma verificação preliminar das atividades da pessoa desaparecida, como a rotina: onde mora, onde trabalha, que horas volta para casa etc. A partir do momento em que há uma “quebra de rotina” e nenhum amigo ou familiar esteve recentemente em contato com a pessoa, é hora de começar a fazer as buscas. Antes de chamar a polícia, Bicca sugere: “É preciso esgotar todas as possibilidades. Falar com a família, amigos, colegas de trabalho, atividades que a pessoa realiza durante o dia. Caso não se obtenha nenhuma informação, deve ligar para hospitais e órgãos públicos, como o Instituto Médico Legal (IML)”.

É recomendado que o registro de desaparecimento seja feito imediatamente. No caso dos menores, é comum que os adolescentes saiam para ir a festas ou a casa de um amigo sem avisar os pais. Essa é uma das causas do alto número de ocorrências. No caso de Egídio (idosos com doenças mentais regressivas), muitas pessoas saem sem documentos, o que dificulta na investigação.

Sobre a reclamação das pessoas quanto ao preparo de agentes da polícia para lidar com o desaparecimento de pessoas, Bicca é enfático: “Não existe crime de desaparecimento. A polícia trabalha com crime”. A polícia, acrescenta o delegado, trabalha com a quebra da rotina das pessoas e os relatos de testemunhas. “Se alguém disser que viu fulano de tal pela última vez entrando em um carro suspeito, por exemplo, aí vamos investigar com mais equipes, porque pode ter havido um crime”.

Juliana Berwig, Carlos Wink e Isaías Cardoso não se conhecem. Nunca trocaram uma palavra. Mas têm em comum o pânico de ter um parente desaparecido. Juliana e Isaías tiveram a sorte de reencontrar o pai e o afilhado, respectivamente, que entraram para a estatística com final feliz. Guido e Roger voltaram para casa. Carlos ainda não chegou lá. Carlos ainda sonha com o encontro com a mãe, Beatriz. Carlos ainda vive um pesadelo de olhos abertos.

Texto: Eduardo Comerlato e Leonardo Sá
Foto: Sara Santiago e Juliana Baratojo
FONTE: FAMECOS/PUCRS