Um novo roteiro para a geografia do cinema escrito por mulheres

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Oficina de roteiro ministrada por uma venezuelana e uma brasileira busca incentivar a participação de mulheres no cinema

Elas se conheceram em Cuba. Uma nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul. A outra, em Maracaibo, na Venezuela. Entre outros, na literatura, gostam do argentino Cortázar. No cinema, do italiano Fellini. As roteiristas Eleonora Loner, 28 anos e María Helena Morán, 30, se reencontraram em Porto Alegre. Na capital gaúcha, em 2015, tiveram a ideia de realizar oficinas de roteiro voltadas a mulheres. As aulas, divididas em duas turmas, com alunas entre 17 e 45 anos, financiadas com colaboração espontânea, foram frequentadas por profissionais de áreas como jornalismo, direito, ciências sociais e artes visuais.

Neste ano, o Projeto Criativas – Oficina de Roteiro Audiovisual para Jovens Mulheres foi contemplado pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproarte), da prefeitura de Porto Alegre. O edital era específico para o público infanto-juvenil. As roteiristas disponibilizaram duas turmas por semestre. A oficina, que está sendo ministrada, e teve inscrições gratuitas, recebeu participações de adolescentes a partir dos 12 anos. Entre os temas desenvolvidos nos roteiros, questões como violência de gênero, relacionamento abusivo, crise de identidade e preconceito racial.

Eleonora Loner, 28 anos, é egressa da primeira turma de Cinema e Animação da Universidade de Pelotas (UFPel)

Eleonora Loner, 28 anos, é egressa da primeira turma de Cinema e Animação da Universidade de Pelotas (UFPel)

As aulas são realizadas semanalmente, em um período de três meses, na Associação de Práticas e Pesquisas em Humanidades (APPH), no centro da capital gaúcha. Entre as motivações para a realização da oficina, um levantamento divulgado pela New York Film Academy: para cada mulher que atua na indústria cinematográfica, cinco homens trabalham na mesma área. Podemos destacar, nesse sentido, o 2º artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que diz que todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas sem distinção de sexo.

Eleonora é egressa da primeira turma de Cinema e Animação da Universidade de Pelotas (UFPel). María Helena, formada em Comunicação Social pela Universidad del Zulia, em Maracaibo. Depois de concluírem os cursos nas cidades onde nasceram, a dupla se formou na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de Los Baños (EICTV), em Cuba. Neste último, elas passaram por uma rigorosa seleção de admissão. Estudaram durante três anos em um curso que tinha atividades em três turnos: aulas pela manhã e tarde, e atividades complementares à noite. Entre os colegas, representantes de toda a América Latina e de países como Bósnia, Irã, Austrália, África e Tanzânia.

Sobre o tamanho do envolvimento do cinema na vida das roteiristas, María Elena, que, além de trabalhar com cinema, é mestranda de escrita criativa na PUCRS e frequentou as oficinas literárias dos professores Assis Brasil e Charles Kiefer, diz que é presa da ficção. “Tô sempre olhando as coisas com um olhar narrativo.” Eleonora, por sua vez, afirma que gosta muito de conversar com os amigos, ouvir e falar. “Isso não é cinema, mas é a vida que vai te dar alimentos para as coisas que tu escreves.”

Entre os roteiros preferidos, aqueles que gostariam de ter escrito, María Helena cita Uma Mulher sob Influência (de John Cassavetes) e Aquarius (de Kleber Mendonça Filho). Já Eleonora destaca Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo (de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes) e qualquer um do Charlie Kaufman.

As roteiristas, que nunca tinham sido professoras, se sentem realizadas com o projeto. Muitas alunas terminam a oficina e afirmam que têm a vontade de fazer vestibular para cinema. Algumas chegam a concluir o curso e já inscrevem o roteiro em um festival. Na primeira aula, elas trabalham com um estímulo para incentivar a criação literária: apresentam uma pintura, uma música e um poema. Cada aluna tem 10 minutos para escrever a primeira ideia que lhe vier à cabeça. O curso apresenta uma parte teórica com a conceituação de tópicos como estrutura clássica, personagem, conflito e diálogo. Em sala de aula são lidos roteiros e analisados curtas-metragens. Ao concluir o curso, as alunas devem apresentar o roteiro de um curta. María Helena afirma que o maior sucesso da oficina foi fomentar um espaço confortável para que as meninas tivessem vontade de falar qualquer coisa.

Mariana Ribeiro de Oliveira, 14 anos, natural de São Sepé, estudante do 9º ano do Colégio São Judas Tadeu, em Porto Alegre, foi uma das participantes da oficina. A aluna fez um roteiro cujo tema foi o amor platônico em uma estação de trem. A oficina colaborou para que ela ficasse ainda mais ansiosa para, no futuro, cursar Audiovisual. O último filme que a adolescente assistiu foi Aquarius. “É um dos orgulhos do cinema nacional, é um filme muito poético. Qualquer um se identifica com a protagonista.” Mariana é uma entusiasta da oficina. Ela diz que se, no começo, as colegas tinham vergonha de se expressar, depois foram se soltando. “Um lugar em que todas queriam a opinião das outras para ver se a sua ideia estava boa”.

Eleonora e María Helena dizem se sentir realizadas com o projeto oficinas de roteiros de cinema para mulheres

María Helena e Eleonora dizem se sentir realizadas com o projeto oficinas de roteiros de cinema para mulheres

Eleonora é crítica dos estereótipos. “Eu tenho muita birra, e eu acho muito chato, tem uma personagem mulher, não sabem o que fazer, beleza, ela vai ser estuprada, nossa, isso me dá uma raiva. Mesmo que isso seja uma coisa horrível no filme, mesmo assim tu estás colocando as mulheres sempre como a vítima. Tantas coisas podem acontecer com as personagens, por que a gente está sempre insistindo em fazer as mesmas histórias?” María Helena, que está há quatro anos no Brasil  – conheceu o namorado, que é de Passo Fundo, em Cuba, e depois veio para Porto Alegre – também concorda com a colega. “Se já em grupos que incluem bastante mulheres tu já tens uma certa repetição de padrões, imagina num grupo com escassas ou nenhuma mulher!”

Eleonora destaca a diferença nas áreas em que homens e mulheres trabalham no cinema. “As mulheres estão colocadas em funções que elas tenham que desempenhar quase tarefas burocráticas e de organização porque supostamente são boas para organizar o trabalho que os homens vão criar.”

No futuro, elas sabem que vão continuar fazendo cinema. Em relação às oficinas, elas não descartam a possibilidade de fazer oficina de roteiro aliada a de direção e de produção, só para mulheres. Bom, mas aí, é roteiro para outros curtas ou filmes!

Texto: Marcelo Machado
Foto: Roberta Requia
 FONTE: Famecos/PUC-RS