Transformar para agregar

Rafael passando as técnicas do esporte para os alunos do Centro Infanto Juvenil Monteiro Lobato.

Dois personagens do Bairro Restinga buscam, com dedicação e entrega, modificar a realidade de uma das regiões mais populosas e carentes da Capital

Em apenas um bairro da capital gaúcha vivem mais de 60 mil pessoas, segundo o último censo do IBGE. Mas há controvérsias. Os moradores afirmam ter muito mais do que o registro oficial. Mesmo assim, esse índice já é três vezes mais do que a população projetada para viver na região. Lá tem bancos, creches, escolas, organizações não governamentais e até faculdade. Já saíram nomes de ex-atletas como Tinga e Ronaldinho Gaúcho. É conhecida pela escola de samba, pela música e pelo futebol. Infelizmente, também ganha destaque nos noticiários por seus altos índices de violência e criminalidade. É na realidade do bairro Restinga, um dos maiores de Porto Alegre, que se destacam duas histórias distintas, mas que muito têm em comum.

Anderson Rafael Gomes, de 33 anos, nascido e criado no bairro Restinga, hoje atua à frente de uma das ações sociais que vem ganhando destaque na comunidade pela sua singularidade. Depois de trabalhar 12 anos no Exército, encontrou em um time de futebol americano, na época chamado Porto Alegre Asgar, uma oportunidade de exercer uma atividade capaz de reunir pessoas em torno de algo positivo. A equipe surgiu a partir de quatro amigos que se encontravam no campo Cecores, mais conhecido como Pampa, para praticar como lazer esse esporte não muito convencional no país. Aos poucos, foram ganhando visibilidade e novos adeptos. A brincadeira tomou uma proporção maior que o imaginado, até receber o nome de Porto Alegre Redskulls. “A primeira coisa que eu fiz quando virei presidente do time foi trocar o nome. Agora é Restinga Redskulls. Porto Alegre não vai nos ajudar, quem vai nos apoiar mesmo e estar sempre com a gente é a nossa comunidade”.

Com nome, associação, equipamentos e time formado, começou a surgir outras preocupações além da motivação de ganhar campeonatos. Como está inserida em um dos bairros mais violentos da cidade, a equipe percebeu que precisava se envolver mais com as questões sociais do local. O ex-técnico do Restinga Paulo De Tarso Pillar foi quem despertou aos apelos sociais. Mostrar o quanto o esporte pode contribuir no desenvolvimento pessoal de cada um. A primeira oportunidade surgiu através de Wagner Tavares, ex professor da escola municipal Professor Larry José Ribeiro Alves. Lá, Rafael, nome que é conhecido em sua comunidade, dava palestras e vivência para 160 crianças de quatro a seis anos, em dois turnos. Ele, que não tinha muita intimidade para lidar com jovens, era dono de um comportamento mais retraído e extremamente disciplinado, legado de sua experiência no Exército. Conta que na medida em que se envolvia com a proposta, foi se transformando. “Os projetos sociais me deram outra visão de mundo. Hoje eu consigo lidar naturalmente com todos eles. Aquele cara que não tinha sensibilidade nenhuma mudou totalmente, sou muito mais tranquilo”.

Não atuam mais na escola Larry por questões políticas, mas ainda possuem projetos fixos. Faça chuva ou faça sol, nas quintas-feiras desenvolvem trabalhos com crianças de seis a 16 anos do Centro Monteiro Lobato. No mesmo campo em que os quatro amigos iniciaram os primeiros jogos de futebol americano. Sextas-feiras é o dia da ONG Renascer da Esperança, onde um público de seis a 17 anos desenvolve técnicas e valores do esporte. O Restinga Redskulls leva a cultura do futebol americano para diversas escolas da capital que os convidam para apresentar seus projetos. Já estiveram em colégios com grande estrutura, até nas que as atividades não puderam ser realizadas por falta de infraestrutura. Mas procuram sempre acrescentar algo à comunidade que visitam. Entre os lugares que já visitaram estão o Morro Santana, Leopoldina, Morro da Tuca e Morro da Cruz. Outras equipes gaúchas também levam essa modalidade para as escolas como o Juventude, Pumpkins e Bulls, mas o diferencial dos caveiras vermelhas é o seu trabalho com as comunidades, como afirma Rafael: “A gente que veio da periferia  quer levar esse esporte para quem não tem como ter esse contato. O pessoal que tem uma família constituída tem como acessar isso. Então, é nessa parte que a gente quer chegar, mostrar para a comunidade até onde eles podem ir”.

A cada quadra do bairro possui uma quadra de futebol. Rafael, que cresceu jogando bola e brincando na rua, filho de mãe solteira com mais três irmãos, enxerga uma mudança cultural na realidade em que vive, mesmo que lentamente. Para as crianças que cruzam o seu caminho procura mostrar o quanto a sua realidade pode ser diferente. Deixar um legado é que o incentiva a prosseguir seu trabalho. “A restinga não é só futebol e samba. Tem muitas possibilidades. É através da educação que essas crianças vão conquistar um futuro melhor. Estudar é a essência da vida deles, só assim você vai transcender, ver o mundo sem esquecer a sua essência aqui atrás.”

Do campo ao asfalto  

Paulo Roberto Santos tem 33 anos e divide do mesmo objetivo pessoal que Rafael: criar novas oportunidades para transformar a Restinga em um lugar melhor para viver. Nascido e criado no bairro, aos 29 anos foi o idealizador do projeto social Skatinga, no Centro Social Padre Pedro Leonardi, na Vila Chácara do Banco. O projeto potencializa a qualidade na educação dos jovens que frequentam o Centro Social, como prevê no  Artº 26º dos Direitos Humanos: “que todo o indivíduo tem direito a uma educação de qualidade e de forma gratuita. Vista como o pleno desabrochar da personalidade humana e reforço do respeito dos direitos do homem e das liberdades fundamentais.” São esses os princípios desenvolvidos no Centro Social que buscam agregar a comunidade.

Paulinho com seus alunos Centro Social Padre Pedro Leonardi.

Paulinho com seus alunos Centro Social Padre Pedro Leonardi.

Paulinho, como é conhecido no Centro Social,  relembra que, quando era mais novo, as quadras de futebol participavam do seu imaginário social. Na medida em que foi crescendo, encontrou sua nova paixão nos asfaltos e pistas de Skate. Com 16 anos, se tornou adepto de um dos esportes mais populares do Brasil, com 2,7 milhões de praticantes. Muito além de ser considerado apenas um esporte, o skate é visto como um estilo de vida e um lugar de infinitas possibilidades pelos que praticam. “A vida muda por causa dele. Skate é união, fazer vínculos de amizade, trocar experiências e ter a possibilidade de rodar o mundo andando de skate. Eu vivo dele hoje! Não é preciso ser skatista profissional. Podem surgir várias oportunidades nesse meio”.

Na juventude não frequentou nenhum centro social. Paulinho conta que em sua época não existia lugares como o que trabalha hoje, só frequentava a escola e no turno inverso ficava ocioso. Nesse período viveu uma fase conturbada e acabou se envolvendo em coisas erradas. Então, percebeu que precisava recomeçar e viu o skate como uma ferramenta para lhe impulsionar para uma vida melhor. “O skate pode fazer uma transformação na vida dos jovens, como fez na minha. Eu cresci dentro da comunidade e tive a infelicidade de ir para o lado errado, mas o esporte me trouxe de volta. E é isso que eu tento passar para eles, que o skate salva”.

Em 2011, o jovem criou o grupo Only By Skate, com 12 integrantes. Eles costumavam se reunir para andar, fazer eventos e participar de competições. Foi quando surgiu a ideia de criar um projeto onde pudesse transmitir o aprendizado sobre o esporte. O seu olho brilhou ao relatar que ensinar crianças e adolescentes a compreender o impacto que o skate pode gerar na vida de cada um era o seu grande sonho. Quando andava pelas ruas do bairro, via que muitos se aproximavam com curiosidade e não existia nenhum lugar que ensinasse a prática. Com uma pista de madeira feita por ele mesmo e muita força de vontade, colocou no papel suas ideias e as ofereceu para diversos centros e escolas da região.

“O padre Ceron me disse: olha, agora a gente não tem estrutura para fazer o projeto, mas quando tiver eu vou te chamar. E eu pensei que ia ser só mais um lugar em que eu ia largar meu projeto, de tantos outros que já tinha ido…”

Mas no Centro Social foi onde realmente aconteceu. Depois de um ano, Paulinho foi chamado para iniciar os trabalhos. Com capacidade para 60 crianças e 15 skates, o grupo era dividido em quatro turmas de uma hora cada, em dois turnos. Em pouco tempo, a fila de espera chegou a 120 crianças. De lá para cá, a demanda cresceu ainda mais. Surgiu a necessidade de ampliar o projeto e começar a produzir seus próprios skates. Paulinho estudou e aprimorou suas técnicas durante um ano para montar uma fábrica de shapes, onde os alunos do Centro Social têm a oportunidade de adquirir conhecimentos de marcenaria sob o comando do professor. Além do trabalho com a madeira, desenvolvem noções de serigrafia que utilizam nos shapes e em camisetas com o educador Tharcus Aguilar.

Shapes produzidos no Centro Social pelos alunos com a supervisão de Paulinho.

Shapes produzidos no Centro Social pelos alunos com a supervisão de Paulinho.

A ideia do projeto é sustentável. Fabricar e vender o produto para cobrir as despesas de toda a matéria-prima, pagar o consumo que os equipamentos necessitam e com o que sobrar poder oferecer uma renda para os alunos. A fábrica atua há dois meses e já conseguiu gerar lucros para os estudantes. Com o mesmo brilho no olhar de quando conversava sobre os seus sonhos, Paulinho consegue identificar evolução e entusiasmo no rosto dos jovens que passam por seus ensinamentos. “É gratificante sentir que o trabalho que se está realizando dá certo de verdade”.

Texto: Maria Luíza Moreno
Foto: Valentina Rodrigues