Transformar o pior da vida em recomeço

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Esta é a missão de pessoas que promovem paz a quem conheceu a guerra

Uma refugiada formada em Relações Internacionais, um assessor de informação, um editor de jornal de comunidade, um professor de Educação Física, um ex-traficante de drogas e um antropólogo do Ministério Público Federal. Muitas podem ser as diferenças entre essas pessoas. É verdade. Mas há algo em comum entre elas. Todas abrem mão de parte de seus dias- por vezes, das noites também -, abdicam do tempo livre com a família, da folga nos fins de semana, do conforto do lar, e do que for preciso para ajudar quem já viveu o pior da vida: violência, injustiças, perseguições, direitos humanos desrespeitados, perda de entes queridos, e privação de liberdade. Mudam as experiências de cada uma, as classes sociais, os cargos que ocupam. As metas não: todas ajudam a dar paz aos que já viveram a guerra.

Guerra é a palavra exata para descrever o que viveu Mireille Muluila, de 37 anos, assistente de campo da CáritasArquidiocesana do Rio de Janeiro. Refugiada da República Democrática do Congo, há um ano longe dos horrores que viu de perto, ela ainda tem dificuldade para falar, por causa do idioma e da dor. A guerra civil no Congo é causada por grupos armados em disputa pelos recursos do país – principalmente, o Coltan, minério utilizado na produção de aparelhos eletrônicos. Oitenta por cento das reservas do mundo estão em território congolês. O resultado: casas invadidas, estupros de crianças e mulheres como arma de guerra, famílias destruídas e mais de seis milhões de mortos. Mireille escapou. O Brasil e a Cáritas foram à porta para um futuro melhor. Retribuir a quem viveu algo parecido é gratificante. “Eu gosta muito de ajudar as pessoas. Ficar fora da guerra é legal, mas mais melhor seria com a família. Eu estou bem, feliz, mas e a minha família e o meu país? Eu não sei o que será deles”, diz ela, ainda sem domínio do português.

Eles não são apenas a família da Mireille. São milhões de pessoas. Inclusive os que conseguem fugir, mas se deparam com um futuro incerto e uma paz ainda distante. Estima-se que 59,5 milhões de pessoas foram deslocadas por guerras no ano passado – desse total, cerca de 30% são refugiados. Ou seja, quase 20 milhões saíram do país onde viviam por causa de conflitos armados, questões de raça, religião, grupo social, opinião política ou violação generalizada de direitos humanos. “Vive-se hoje a pior crise migratória depois da Segunda Guerra Mundial”, afirma Luiz Fernando Godinho, oficial de Informação Pública do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). No Brasil, as solicitações de refúgio crescem de forma assustadora: em 2010, foram 500; até setembro deste ano, 12.600. Hoje são 8.530 já regularizados, o que corresponde a irrisórios 0,05% do total de refugiados no mundo.

Número incapaz de refletir os sentimentos dos que querem simplesmente viver e encontram um novo lar no Brasil. Diogo Félix, de 32 anos, assessor de informação da Cáritas, conhece muitos dramas e superações, como o da senegalesa Evelyne Sambou. Ela fugiu para não se casar com um chefe religioso e aprendeu português ao som das músicas do grupo Exaltasamba. Quem não conseguiu evitar esse tipo de laço matrimonial, foi a africana R., cujo nome Diogo preferiu preservar. Nas palavras dele, R. sofreu de tudo: mutilação genital na infância, casamento forçado aos 13 anos, violência doméstica e perseguição religiosa e a LGBTs. Quando a namorada foi morta, ela decidiu deixar a África. Entrou em um navio clandestino, sem destino. Chegou ao Rio de Janeiro e hoje está bem (as duas estão).  Por maiores que sejam os problemas, aqui eles se sentem mais seguros. “Paz é ter o mínimo de condições para planejar um futuro”, sentencia Diogo. Essa paz vale para todos. Ou deveria.

Engana-se quem pensa que não há guerra no Brasil. Antes de receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), o Complexo do Alemão era dominado pelo tráfico de drogas.Milhares de moradores viviam o terror imposto pelo poder paralelo e a negligência do Estado. Cansado dessa situação, Rene Silva decidiu agir aos 11 anos. Hoje, aos 22, ele é editor-chefe do jornal “Voz da Comunidade”. Com a cobertura da ocupação do complexo em 2010, o jornal ganhou força. E o ideal do Rene também. “Eu não vou apenas me acomodar, eu vou incomodar”. Quem também não se acomoda é o professor de Educação Física, Bruno Dark, de 26 anos. Ele trabalha no projeto Clube de Lutas do Complexo do Alemão, que tem o objetivo de formar cidadãos de bem. Se o futuro pertence às crianças, é preciso dar planos a elas. Com este pensamento, ele acredita em menos violência e mais liberdade. “Paz é o direito de ir e vir, independentemente da classe social, etnia, religião. É essa a paz com que sonho”.

Foto 2                  Mudança. João Paulo Garcia, do Afroreggae, oferece a mesma chance que foi oferecida a ele

Quem também sonha é Junior Alves, de 26 anos, ex-traficante de drogas. Ele ficou preso durante dois anos e hoje luta por um futuro longe do crime e perto da família. A esposa nunca o abandonou. Os filhos são a razão para querer mudar. Para ele, paz é viver dignamente comum trabalho, mas consegui-lo é difícil.“Penso em jogar tudo pro alto quando a situação aperta, mas penso nos meus filhos e me acalmo. Assim vou vivendo”. Não é fácil para ninguém, mas para egressos do sistema prisional é, de fato, mais complicado. Quem atesta é João Paulo Garcia, de 35 anos, coordenador da agência de empregos Segunda Chance, do Afroreggae. Ele foi traficante na Maré e diz que, sem a empresa, provavelmente ainda estaria no crime. Além dos egressos – de facções criminosas, como Comando Vermelho, Amigos dos Amigos, Terceiro Comando e Milícia –,hoje a agência atende outros interessados. São 8.000 cadastrados e cerca de 2.000 já empregados. “Eu não pensava em paz quando estava no crime. Hoje, paz é estar na legalidade, fazer o que gosto e retribuir o bem que o Afroreggae fez por mim”.

Retribuir ou fazer o bem é o objetivo dessas pessoas. Os motivos que levam cada uma a agir em prol dos outros são diferentes, e isso não importa. Segundo o psicólogo Thyago Henrique Vargas, o ser humano é formado pelo meio social em que vive e pelas experiências que coleciona ao longo da vida – tudo se relaciona também com o pensamento, as emoções e os comportamentos. Sempre que se ajuda alguém, a pessoa se sente bem e a probabilidade de repetir tal atitude aumenta. Isso serve para todos os que ajudam o próximo e não apenas para quem já recebeu o bem em algum momento – como João Paulo e Mireille. Ajudar é muito bonito e nobre, mas é preciso estar preparado para lidar com vidas tão complexas. “Ter empatia e ser altruísta e solidário com os dramas alheios são as principais características compartilhadas por essas pessoas. Elas escolheram ajudar o próximo porque perceberam que esse trabalho é libertador”.

Libertador define bem o trabalho do Ivan Farias, de 50 anos. Ele é antropólogo do Ministério Público Federal e, há quase duas décadas, atua junto a grupos indígenas, quilombolas, ciganos, pescadores, ribeirinhos e outras comunidades. Depois de viver com os Yanomami em Roraima, tudo mudou. Foram os índios que fizeram dele um antropólogo e não o título acadêmico. A luta pelos direitos – e pela paz – dos índios é o que o move. “Não posso e não conseguirei fugir da luta. Ainda há muito que fazer. Sigo até o fim”. As revoltas internas provocadas pelo trabalho deram lugar à necessidade de ser solidário, de conscientizar-se de que todos são iguais e de minimizar a dor das vítimas. Vencer a guerra entre índios e exploradores é utópico, mas resistir às derrotas com dignidade, já é uma vitória.

Vitória que não está necessariamente ligada a um estado de superioridade. A paz também não está. É possível ter paz em meio ao caos. E é possível ganhar, mesmo quando se perde algo. Ivan se lembra de uma história marcante. Ele foi chamado pela organização Médicos Sem Fronteiras para ajudar na remoção de uma índia com malária que vivia em uma maloca na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Ele tentou de todas as formas convencê-la de que a única chance de viver era ser levada a um hospital. Apesar de acreditar na boa intenção dele, a mulher não quis sair dali e nenhum membro da tribo autorizou que ele a levasse. “Para ela, a morte não era o fim de tudo como é para os homens brancos. Ela se importava em morrer longe dos seus, que deixariam de enterrar a sua alma. Agradeceu minha presença e não mais respirou”.Ivan percebeu naquele momento que a paz é um valor social em construção. A paz dele, da índia e dos outros cujas histórias foram contadas aqui.

(créditos na imagem destacada: Diogo Félix)

Renata Bustamante é estudante de jornalismo e colaboradora do clube do jornalismo