TCCs vão além de trabalhos acadêmicos

Existem diversas opções para concluir o curso, dentre elas, a monografia se destaca pelo caráter acadêmico.

TCCs vão além de trabalhos acadêmicos

SATISFAÇÃO. Discernimento. Responsabilidade. Amor. Envolvimento. Reciprocidade. Pode não parecer, mas essas palavras foram atribuídas à experiência de fazer o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em uma universidade. Motivo de sofrimento, desespero e até mesmo piadas na internet, o TCC pode se tornar muito mais do que só um trabalho para se formar na faculdade, é uma experiência de vida.

Luana Costa, 27, se formou em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo em 2011. Seu TCC, na época, foi um livro-reportagem sobre a obra e o legado de Clementina de Jesus, uma das maiores vozes do samba brasileiro. O livro ganhou o Prêmio Destaque de 2011 da Metodista, e o de melhor livro-reportagem acadêmico produzido em 2011 pelo ExpoCom, que abrange a região sudeste, e Intercom, nacional.

Mas o grupo de Luana, formado também por Janaina Marchesini, Raquel Munhoz e Felipe Castro, não se contentou só com os prêmios e foram além. Lançaram, em 2017, pelo Grupo Editorial Record, “Quelé, A Voz da Cor – Biografia de Clementina de Jesus”, primeiro registro da história da sambista. Luana relatou que uma das maiores dificuldades do projeto foi o acesso à informação da vida de Clementina anterior ao período em que ela foi descoberta, em 1964.

“Ela ficou 63 anos praticamente ‘em branco’ nas páginas dos jornais, que nortearam o início de nossa pesquisa. Isso nos motivou a diversificar nosso trabalho para não depender apenas deles”, lembra Luana. Entre conversas com amigos e ex-vizinhos de Quelé, artistas que conviveram com ela e os próprios depoimentos da cantora, foi possível tornar o trabalho um dos livros de cultura mais vendidos deste ano.

“Nós queríamos que Clementina de Jesus fosse conhecida. Ela era neta de escravos, negra, empregada doméstica e lançada artisticamente aos 63 anos. Tinha o canto contralto, voz rouca, forte, algo muito diferente, muito ancestral. Descobrimos que ela cantava coisas que levava na memória, cantos de sua mãe, de seu pai, que ela ouvia quando era garota. Isso tudo evidencia que a história de Clementina é riquíssima, ela enquanto mulher, negra, sambista. Representa um Brasil profundo, um Brasil do povo que não é comumente representado nos veículos de comunicação”, explica ainda a ex-estudante.

Se apaixonar pelo projeto e por contar histórias desconhecidas não é incomum. Arthur Fernandes, 24, formado em 2016, pegou um carro e saiu de São Bernardo em direção à Argentina. O resultado foi o livro “Collas: Retratos de uma Cultura”, sobre os povos de cultura Inca que vivem no que é, hoje, a região noroeste na Argentina.

“Fiquei em cidades de porte pequeno, que ainda têm sua maioria da população Colla, e também fui para povoados onde o grupo não chegava a 500 pessoas. O local não tinha estradas, energia, delegacia e hospitais. Quis registrar, da melhor forma possível, como essa cultura se adaptou à interferência de povos hegemônicos com o passar dos anos, mas ainda mantendo seus traços ancestrais”.

Seu livro, recheado de fotos que mostram, com riqueza de detalhes, as paisagens, as pessoas, a vida de cada lugar que visitou durante dois meses, rendeu o Prêmio Destaque da Metodista de 2016 e também uma exposição das fotos no Shopping Atrium, em Santo André. “A cultura Inca normalmente é vista por um lado turístico, no Atacama, na Bolívia e no Peru. Poucos trabalhos foram realizados de forma social sobre esses povos, mostrando seu estilo de vida, seus costumes e crenças. Penso que o livro conseguiu trazer um relato pessoal, uma experiência sobre tudo que vi e aprendi com aquelas pessoas”.

E se fazer um trabalho que aborde temas pouco conhecidos é uma preocupação, o TCC de Lucas Alencar, 22, formado no ano passado, que sempre gostou muito de histórias em quadrinhos (HQs), tem como um dos pilares justamente isso: abordar um assunto deixado de lado pela mídia. Junto com Bruna Penilhas, Daniel Generalli e Juliana Frezarin, Lucas fez uma websérie de cinco episódios de apenas seis minutos, disponível no YouTube, intitulada “Vozes e Traços”, que fala sobre o cenário das HQs no Brasil.

“Tentamos ouvir pessoas que efetivamente produzem e movimentam o mercado, não historiadores, acadêmicos e professores. Assim, se a pessoa não conhece nada sobre HQs brasileiras e topa com nosso trabalho, não fica ouvindo um lenga-lenga que pouco importa, mas já conhece a voz e muitas vezes o traço daquele artista/editora”, conta Lucas.

Vencedores do HQMix, o Oscar dos quadrinhos no Brasil, na categoria “TCC – Trabalho de Conclusão de Curso”, o primeiro passo para a realização do trabalho foi conhecer o material que estava sendo produzido no Brasil, e que ainda sofre para conseguir destaque. Entre os entrevistados estão Sidney Gusman, coordenador editorial da Mauricio de Sousa Produções, Janaina de Luna, editora da Mino, Ramon Vitral, dono do blog Vitralizado e jornalista especializado em HQs, além de vários artistas brasileiros e outras pessoas de referência na área.

“O TCC é um processo trabalhoso, mas quando você tem um tema que gosta, faz de coração mesmo, o que você mais quer é ver um ótimo resultado. Então, por mais que seja difícil e exija um trabalho árduo, não há satisfação maior do que ver que conseguiu colocar em prática o que estudou nos quatro anos anteriores”.

 Livros-reportagem

QUANDO CHEGA o último ano do Curso de Jornalismo, o foco dos alunos passa a ser o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Mesmo com as várias opções de trabalho – monografia, documentário, ensaio fotográfico etc. – a preferência pelo desenvolvimento de um livro-reportagem é grande. Só no ano de 2016, dos 39 TCCs, 14 seguiram essa modalidade.

O caminho para a realização dessa grande reportagem é longo, e o primeiro desafio é a escolha do tema, que deve buscar originalidade e ter uma abordagem inovadora. Os livros são feitos por dois alunos ou mais, não possuem limite de páginas e os assuntos são os mais variados possíveis, dependendo da criatividade do estudante.

Ao longo dos anos já foram produzidos livros-reportagem sobre: histórias de iraquianos que deixaram a zona de batalha para viverem no Brasil, a trajetória do rock nacional, lembranças da Copa de 1950, a vida de mulheres de presidiários, a busca das pessoas pelo bem interior, entre outros.

As alunas do último semestre de 2017 de Jornalismo Érika Motoda, Lauana Viana e Nathalia Fabro realizaram o livro-reportagem “Na Casa dos Outros: Histórias Vividas por Trabalhadoras Domésticas”. Segundo as estudantes, um dos desejos era que o trabalho trouxesse emoção, e se ele não tivesse sido feito em formato de livro-reportagem, não teria o mesmo impacto. “Em um documentário, por exemplo, você poderia visualizar a pessoa contando a história, mas a gente faz a pessoa ler, ir imaginando a situação, ficando indignada, até querer ir para a próxima página para ver o que acontece”, diz Nathalia Fabro, 22.

De acordo com a coordenadora dos Trabalhos de Conclusão de Curso de Jornalismo da Universidade, Veronica Cortes, geralmente, por volta da metade dos alunos optam pelo livro-reportagem. Para ela, o fato de ser uma produção de Jornalismo impresso de grande profundidade, faz com que os alunos adquiram um amadurecimento textual.

“O livro-reportagem não é ficção, é realidade, mas os alunos usam as técnicas da literatura, e assim, vão trabalhando a construção linguística e apropriação do texto. É todo um amadurecimento na escrita, que eu diria que nenhum trabalho dá igual”, conta Veronica. 

Além do aprendizado, os livros-reportagem são capazes de contribuir socialmente. É o caso dos formandos de 2006 Felipe Moreira, Ingrid Costa, Vanessa Vianna, Aline Cebalds e Fernanda Charldis que inclusive, publicaram o livro “Travestis: Muito além das ruas”.

“Quando decidimos abordar a situação das travestis, falava-se pouco sobre o tema, e esse livro faz com que essas pessoas que vivem esquecidas pela sociedade tenham um lugar que ninguém vai apagar. A história delas está imortalizada”, diz Felipe Moreira, 32.

Monografias

A MONOGRAFIA é uma das modalidades de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação em Jornalismo. Seu objetivo é reunir informações, análises e interpretações que agreguem valor científico a um determinado tema. Esse tipo de produção é, na maioria das vezes, escolhido por alunos que querem seguir a carreira acadêmica.

É o caso da mestranda em Comunicação Social Jéssica Collado, 23, que produziu uma monografia a partir de um trabalho de iniciação cientifica sobre “A mulher repórter no jornalismo pós-industrial”. Jéssica conta que seu desejo sempre foi fazer a monografia. “Eu não tive nenhuma dúvida sobre o trabalho de conclusão, na verdade, eu só não sabia se eu poderia unir o meu TCC à minha iniciação científica, mas depois que conversei com minha orientadora, foi perfeito”.

A mestranda relata que após algumas experiências na área jornalística, confirmou que sua vontade era realmente seguir a vida acadêmica. “Desde o momento em que fiz estágio em assessoria de imprensa e depois com a produção de reportagens na faculdade, tive certeza que minha vocação não era ser repórter de rua. Então, assim que eu terminar o mestrado, já quero entrar direto no doutorado para ser professora de graduação e pós-graduação”.

Formado em Jornalismo há apenas um ano, Arthur Marchetto, 23, produziu a monografia para analisar o trabalho dos jornalistas escritores na imprensa brasileira e decidiu ingressar no mestrado para continuar pesquisando a relação do jornalismo com a literatura. “O trabalho de pesquisa, leitura e reflexão crítica sempre foi bem o que eu quis, e observando as áreas que o jornalismo propiciava, eu optei por seguir a carreira acadêmica, porque era o que mais se encaixava nos meus desejos”, afirma Marchetto.

Já o mestrando Carlos Ferreira, 28, formado em Jornalismo desde 2012, declara que foi um acaso produzir a monografia. “No TCC, meu desejo era fazer um aplicativo de turismo, mas não deu certo porque a faculdade não considerou o produto jornalístico”. Após se formar, Ferreira chegou a ser gerente de marketing digital, mas resolveu buscar novos caminhos e fazer o mestrado. Segundo ele, a carreira acadêmica é um desafio. “A maior dificuldade é justamente por conta da graduação não ter me dado uma formação mais humanística. Temos uma carga horária muito baixa para as questões teóricas”.

Autores: Edmara Galvão, Danielly Fernandes e Giovana Telles.

Fonte: Metodista.