Sem luz e sem água, mas com esperança

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Sem luz elétrica, nem água encanada. Essa é a realidade de Joseane Alves, usuária de crack em processo de recuperação, que vive com o companheiro e a filha de dois meses, em um casebre de quatro metros quadrados no interior do Rio Grande do Sul.

De dentro de um casebre de um cômodo, erguido com restos de madeira velha que o companheiro ganhou em um “bico”, sem banheiro, luz elétrica nem água encanada, Joseane Alves assegura com um sorriso no rosto: “Eu não tinha nada, e hoje eu tenho tudo isso. Nós vivemos muito bem aqui”.

Josi é uma mulher pobre, mãe de quatro filhos, que ao longo dos seus 30 anos vivenciou histórias de pouca glória e muita dor. O vício do crack, grande responsável pelas marcas que carrega na alma, avassalou seu passado e deixou feridas profundas que insistem em assombrar o futuro.

Por conta da droga, Josi perdeu a guarda de três dos quatro filhos. Perdeu casa, família, amigos. Certa vez, no desespero de não querer mais seguir aquela angústia, foi até a boca de fumo e pediu R$ 300 emprestados para tentar a internação na cidade onde cresceu, Minas do Leão. Ao pedir ajuda para mãe e aos irmãos, foi maltratada e humilhada. Recebeu um não como resposta. Voltou para Butiá e fumou o restante do dinheiro que havia sobrado.

A casa onde mora possui aproximadamente quatro metros quadrados. Tem um fogão de seis bocas, um armário de cozinha com as portas soltas, um sofá velho de três lugares e uma cama de casal quebrada, cujos pés são sustentados por pedras de granito. O aroma do café, que foi passado com a água que pega dos vizinhos, tomou conta da pequena peça. A mão que segura o copo plástico com a bebida quente também segura o pão seco com mortadela para liberar a mão direita que enxuga os olhos úmidos. “Não gosto de falar disso, é muito triste”.

O lugar onde Josi vive fica no bairro São José, local que já foi um dos mais importantes de Butiá nos tempos em que o carvão mineral era a principal fonte de renda da cidade, localizada na região carbonífera, interior do Rio Grande do Sul. Hoje, a história das ruínas do antigo esqueleto – onde o carvão extraído das minas –, fica ao lado do casebre de Joseane. O antigo prédio está abandonado, assim como parece ter sido abandonada a vida da mãe de Ana Luíza.

Joseane é o tipo de pessoa que já é estereotipada antes mesmo de falar uma palavra. Para alguns, uma pobre viciada que sobrevive com o que pode. Para outros, uma ingrata que merece viver na miséria. Por ela, mais um ser humano que cometeu erros, mas que agora quer uma oportunidade de virar o jogo e mudar. Mudar para melhor.

Antes de ganhar o terreno da prefeitura e construir o espaço onde mora, Josi vivia de favor em uma outra casa com o parceiro Luiz Henrique, de 46 anos. O lugar também não tinha água e nem luz. Para piorar, a casa que era uma espécie de “cracolândia”, abrigava outros usuários da droga, que entravam e saiam o tempo todo.

Junto com o companheiro com o qual dividiu momentos ruins, por causa do vício. Mas também compartilharam recomeços, quase sempre frustrados. A droga sempre foi mais forte. O casal parece ter encontrado um novo rumo depois do nascimento da filha. A calma e dorminhoca Ana Luíza nasceu em março deste ano, às pressas, no hospital da cidade que não tem maternidade e dependente de doações e mutirões solidárias para manter as portas abertas.

A inesperada gravidez, segundo Josi, foi o divisor de águas. Com o bebê, surgiu a chance da renovação, um recomeço. Mas como em vários outros momentos em que passou na vida, também não foi fácil lidar com a surpresa.

Durante a gravidez, as ideias de aborto, doação e até mesmo de vender a criança passaram pela cabeça de Joseane, que admite ter usado crack durante a gestação. Uma família da cidade tratou de custear os gastos do pré-natal, sob o acordo de que, quando a criança nascesse, seria entregue a eles em troca de R$ 5 mil. Já estava quase tudo certo, até Ana Luiza, perfeita e saudável, dar o primeiro choro. O choro do amor e da esperança.

A mãe de 4ª viagem, que já não convive com os outros filhos que moram com o pai, desistiu da ideia de abrir mão de Ana Luiza. Negou o dinheiro e, mesmo sem condições financeiras e psicológicas de criar uma criança, decidiu que iria tentar.

Com a menina sendo amamentada, a mãe olha para a cria cheia de orgulho. “Se existe um milagre de Deus, este é o milagre”. Ao nascer Ana Luíza, conforme Josi, renasceu sua lucidez. Passou a enxergar todos os malefícios e prejuízos que a pedra lhe trouxe. Anos perdidos que não voltarão.

Os três vivem temporariamente na casa improvisada de um cômodo, que logo será substituída por outra, do Projeto Habitacional Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal. A ideia anima o casal, que aguarda ansiosamente o fim da burocracia para dar início à nova vida, em um lar mais digno.  Enquanto isso, com doações e “bicos”, já que ambos não possuem emprego fixo, eles sobrevivem um dia de cada vez. Sem pressa, mas com ambição.

Como o casebre onde moram não tem banheiro, quando precisam utilizá-lo, vão até a casa dos compadres que moram perto. As roupas da família e da bebê também são lavadas lá. As notícias do mundo e o entretenimento são buscados nas ruas, com os vizinhos e em encontros no CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), que os ajudam na recuperação do vício. Televisão e telefone celular são realidades inexistentes no cotidiano da família que vive, de dia, sob a luz do sol e, de noite, com um facho de uma lâmpada de LED.

Para não fraquejar, Josi procura não ficar muito em casa e diz que conversar com as pessoas é a melhor forma de espairecer a cabeça. Para ela, mudar não é difícil. Contudo, ressalta que nem o melhor tratamento clínico é capaz de retirar uma pessoa do mundo das drogas se ela não estiver disposta.

 “Tu sai na rua, tu sempre acha um amigo que te oferece uma pedra. Agora, aqueles teus amigos que tu tinha, quando tu vai pedir um apoio pra comprar uma fralda, tu não consegue. Bebida? Tu chega no boteco e te dão, nem te vendem. Chega lá e pede pra comprar uma salsicha, uma linguiça seca? Eles falam: Vai trabalhar, vagabunda!”

O passado do pai e da mãe da pequena Ana Luíza ainda causa desconfiança e medo. Desconfiança por parte da sociedade que não acredita na recuperação de Josi e Luiz Henrique. Medo por parte dos pais que não suportam a ideia de ficar longe da filha. “Tu tem certeza que não é do conselho tutelar?”, indaga Josi, com receio, durante esta entrevista. “Querem me tirar ela, mas eu não vou deixar”, resiste.

Sem luz e nem água a família recomeça. Se Ana Luiza seguirá irrigando e iluminando o caminho dos três, só o tempo dirá. A batalha contra a pedra é difícil. Involuntariamente, o crack ganha aliados que utilizam do preconceito e da discriminação para lutar contra adversários frágeis e machucados. Mas para Joseane, Luiz Henrique e Ana Luíza, a guerra não está perdida. Pelo menos por hoje, eles querem tentar a vitória em paz.

Texto: Edna Alves e Matheus Cabral

FONTE: Famecos/PUC-RS