A saúde mental na Universidade de Brasília

100

A saúde mental na Universidade de Brasília

“O sentimento de culpa, de fracasso, a baixa autoestima e solidão são bem comuns na Universidade. E a falta de tato ao se falar desses sentimentos por parte da comunidade acadêmica não ajuda em nada. É bem difícil tentar explicar porque trancou um semestre quando o motivo é saúde mental. Isso ainda parece tabu dentro da universidade.”

-Estudante da UnB de 21 anos.

Há algum tempo um assunto tem levantado questões na Universidade. Como anda a saúde mental da comunidade acadêmica? E no sentido amplo, além dos estudantes é importante lembrar do corpo que forma a instituição: funcionários, professores e terceirizados – que também fazem parte dessa porcentagem.

Mas que porcentagem?

Uma pesquisa da Uol, feita em dezembro de 2017, aponta que 49,1% dos universitários sofrem algum tipo de transtorno psíquico. O resultado foi obtido a partir do estudo de 1.375 artigos internacionais que analisaram a rotina de alunos da área da saúde. Já o percentual médio de transtornos psicológicos do cidadão brasileiro em geral gira em torno de 30%.

Segundo uma matéria do huffpost Brasil (outubro de 2017), em uma pesquisa divulgada pela associação nacional dos dirigentes das instituições federais de ensino superior aparece que, em 2016, 30% dos alunos de graduação em instituições federais brasileiras buscam atendimento psicológico e 10% fizeram uso de medicamento psiquiátrico.

Porém, alguns setores nem possuem espaço nesses cálculos. De acordo com uma matéria da Folha, de dezembro de 2017, as principais universidades brasileiras não têm diagnóstico de saúde mental de seus alunos de pós-graduação – incluindo a UnB, que, segundo a reportagem da folha, não respondeu o questionário sobre o assunto.

 

E por que isso acontece?

Antes de analisar essas estatísticas, é preciso entender o que é essa pressão, que aparece em muitos desabafos de alunos da UnB*. Alguns estudantes aceitaram conversar com a gente sobre a rotina na Universidade que acarreta em diversas situações de fragilidade emocional. Vários deles mostram que a situação se repete e é algo vivido em comum por muitos jovens universitários.

*Não colocamos os nomes, apenas o curso e idade, para preservar a identidade dos entrevistados.

“Tudo ali me pressiona, os professores dizendo que eu tenho que ser a melhor me pressionam (porque eu já tenho isso dentro de mim), os alunos competindo me sufocam, ninguém ajuda ninguém e todo mundo quer se aparecer para os outros, os professores te cobrando conhecimentos que tecnicamente não foram dados, eu super entendo e concordo que devemos procurar ter uma visão de mundo, mas o jeito que eles fazem é desumano. ”

– Estudante de Farmácia, 20 anos.

“É simplesmente impossível fazer tudo ao mesmo tempo e ainda de forma perfeita, como é cobrado. Não tem como passar pelo Ciclo básico de matérias[1] sem reprovar, nunca vi um caso. E a maior parte dos professores não têm interesse pelos alunos. É algo que influencia muito negativamente no curso. Desestimula, desanima.”

– Estudante de engenharia elétrica, 20 anos.

“A pressão vinha de acreditar que eu precisava estar no mesmo nível que todo mundo, uma coisa bem fantasiosa já que não tinha como saber como todo mundo estava academicamente. Queria tirar as melhores notas, precisava me preparar muito bem porque no futuro, ao entrar no mercado de trabalho teria que competir com muita gente e, pelo que eu imaginava, todo mundo estava indo MUITO melhor que eu em absolutamente qualquer disciplina. A cada prova que eu estudava, o tanto que conseguia, e via que não tinha o resultado que esperava era um golpe, uma dor. E eu desabava de novo e de novo…. As notas não alcançadas, o medo do futuro, a cobrança que eu tinha comigo mesma, a minha ideia de que só eu estava nessa situação me faziam sentir contra a parede, sem ar, sem esperança.

Eu acho que aqui na faculdade é muito fácil se perder. Se desconhecer como uma pessoa, que sente, chora, fracassa, não consegue ter tempo pra fazer tudo o que precisa. E quando você não alcança metas, você é taxado de irresponsável, de preguiçoso. Quando decide trancar um semestre pra se cuidar, o que falam é que você desistiu.”

– Estudante de Agronomia, 21 anos

No quadro atual que vive a Universidade de Brasília, há uma pressão diária vivida pelos funcionários e professores, segundo a psicóloga Sélvia Valle de Paula. A profissional também relata que atende vários profissionais da universidade, que procuram tratamento psicoterápico, com dificuldades diversas, como o receio do desemprego para os terceirizados, por exemplo, que influencia nessa estabilidade emocional, pois gera uma ansiedade pela incerteza do futuro.

Uma funcionária da limpeza comenta: “Quem está de aviso, já não tem o que fazer a não ser esperar ser mandado embora. Mas a pressão em cima de quem fica é enorme. E, pra piorar, o nosso trabalho é desvalorizado por grande parte das pessoas: superiores, funcionários da UnB, professores, alunos… Os terceirizados sofrem muito assédio moral desse pessoal. Tem professor que ignora que a gente está limpando. Um dia um só passou por cima da cera que estava no chão e falou ‘Minha aula é mais importante que isso’ “, conta ela.

Já em relação aos alunos de graduação e pós graduação, os motivos são um pouco diferentes. Aqui aparece, segundo relatos de estudantes, a pressão feita por professores, cobrança de imediatismo, o desejo de ser bom em tudo mas ser impossível diante do choque constante entre disciplinas, o tempo como um fator de estresse e preocupação com o “atraso” da graduação. “Tenho vários alunos da UnB, de cursos diferenciados. Esses alunos, na maioria das vezes, apresentam uma grande ansiedade e preocupação, trazendo prejuízos na suas vidas.  Muitos estão no final do curso, com TCC,  preocupados em prazos e entregas a cumprir”, completa a psicóloga.

Como lidar?

Para Sélvia Valle, a solução está em uma ação conjunta. “O diálogo sempre foi e sempre será a melhor escolha. O ambiente universitário pode ser de harmonia, mas isso depende dos dois lados: tanto da Universidade quanto dos alunos. A universidade pode ajudar os alunos sendo clara, transparente, vendo o bem estar dos funcionários e alunos. Oferecendo ciclos de conversas, palestras conforme as necessidades que vão surgindo durante o ano.”

Há algumas orientações, de acordo com Ana Carolina Cardoso Gonçalves, especialista na área de suicidologia, que podem ajudar nesse quadro de fragilidade emocional. Na palestra ministrada em um simpósio sobre saúde mental feito na UnB, ela destacou algumas coisas que a própria Universidade poderia promover para diminuir a sobrecarga mental de seus integrantes, como por exemplo:

  • Sessões de relaxamento: Meditação, yoga, artesanato, voluntariado – todas essas opções geram um benefício para seu praticante.
  • Flexibilidade: Menos sobrecarga, menos pressão de forma geral, respeitando o ritmo do aluno. Deixar de fazer coisas desnecessárias, uma maior compreensão e suporte dentro dos departamentos.
  • Orientação: Programa de treinamento obrigatório para todos os professores e orientadores com o objetivo de identificar situações de risco e fragilidade mental, para saber como lidar ou para onde encaminhar o aluno.
  • Liberdade para inovar: estimular a criatividade e inovação é algo que contribui muito e ainda agrega cultura.
  • Bolsa: Mais oportunidade de bolsas de estudo para os estudantes que se sobrecarregam com trabalho que, muitas vezes, nem é em sua área de atuação.
  • Burocracia: facilitar transações extremamente burocráticas que travam a pesquisa e consomem tempo, gerando desgaste.
  • Atividade física: Essa é bem importante. Incentivos a prática de atividade física diminui a sensação de estresse e traz mais disposição. A universidade separar um tempo que possa ser dedicado a isso como atividades de extensão, por exemplo, é uma proposta.

A procura de um profissional também é indispensável. Existem atendimentos gratuitos, como o do CAEP/UnB – Centro de Atendimento e Estudos Psicológicos (Tel: 61 3107 – 1680), que abrangem toda a comunidade. Em casos mais urgentes, onde se identificam riscos à integridade física e até pensamentos suicidas, existe o CVV – Centro de valorização à vida (Tel: 188).

Falar com alguém sobre sentimentos e admitir que nossa saúde mental está frágil na Universidade é o primeiro passo para que esse quadro possa ser melhor analisado e, futuramente, solucionado. É importante saber que não se está sozinho e que há sempre um jeito.

Informações adicionais – matérias e eventos sobre o tema “Saúde mental na Universidade”

Esta semana as postagens do Campus Online tiveram foco em saúde mental. É possível encontrar uma matéria no Instagram, que fala do CAEP, outra no Facebook, de um simpósio sobre saúde mental promovida por graduandos do curso de museologia – eles também estarão promovendo uma exposição chamada “Meus medos”,  que remete ao tema da saúde mental no ambiente universitário. Será na galeria da Faculdade de arquitetura e Urbanismo (localizada no icc norte), dia 11 de junho. Tem também a terceira edição do Podcast, que é uma conversa com dois graduandos – um da área psicologia e outro da de psiquiatria, que trazem visões bem interessantes sobre o tema e falam de projetos de ajuda que existem na UnB.

Fique ligado, o Campus Online tem muita coisa boa essa semana!

Por Jakceline Spies e Thifany Bastista

Foto: Rebeca Borges

[1] Nas exatas, o ciclo básico de matérias se refere ao período inicial do curso, que teoricamente duraria 4 semestres (ou 2 anos). Aqui tem cálculo 1 e 2, física 1e 2, metodologias científicas, laboratórios entre outras matérias. Às vezes várias delas se chocam e uma depende de outra.

Autor: Lucas Oliveira

Foto: Thifany Batista

Fonte: UnB