Saúde da Rua: conheça o projeto que já fez mais de 500 atendimentos médicos na Cracolândia

Com parcerias e voluntários da área da saúde, iniciativa já realizou 13 ações em São Paulo.

Na região da Cracolândia, no Centro de São Paulo, vivem aproximadamente 1680 pessoas, de maioria negra, com ensino fundamental incompleto e desempregadas há mais de um ano, segundo estudo da Universidade Federal de São Paulo. “É uma realidade que ninguém deveria estar vivendo, diz Rebeca Pelosof, estudante do 5º ano de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC).

população de rua da cidade de São Paulo saltou 53% de 2015 a 2019, indo de 15.905 a 24.344 pessoas, segundo um censo realizado pela Prefeitura. Hoje, são quase 25 mil desabrigados na capital.

Atendimento do Saúde da Rua na Cracolândia. Acervo Pessoal.

Pensando nisso, Rebeca sentiu a necessidade de utilizar sua profissão para fornecer auxílio a eles. “A ideia surgiu no ano passado, quando eu e uma amiga fomos a uma ação chamada Natal Invisível. Nesse evento, eu participei da doação de alimentos e vi que havia um grupo de médicos realizando atendimento. Essa ação acontece uma vez ao ano, mas eu percebi que vários problemas poderiam ser evitados caso houvesse um atendimento contínuo. Por exemplo, um morador tinha uma infecção no dedo, que teria de ser amputado. Mas talvez, se tivéssemos entrado com antibiótico três meses antes, isso poderia ser evitado”, diz.

SAÚDE DA RUA

O projeto Saúde da Rua foi criado por Rebeca e sua amiga, Cibele Shintani Akaki, em julho deste ano, com a ideia inicial de fazer uma triagem pensando na covid-19. “Tínhamos planejado ir com um termômetro e  checar a saturação do pulmão dos pacientes para realizar ou não um encaminhamento. Mas, quando chegamos lá, percebemos que isso não ia ser suficiente. Foi aí que começamos a realmente ampliar o projeto, e certamente nunca imaginamos que ia crescer tanto”, conta. A iniciativa já realizou 13 ações e fez 594 atendimentos em São Paulo e agora conta com filiais em São José do Rio Preto, Campinas e Itajaí.

Quanto à prospecção de pessoas para formar a equipe médica, a estudante explica: “Hoje temos o Padrão Saúde da Rua, ou seja, em toda a ação precisamos ter pelo menos dois médicos. Também temos estudantes de medicina, enfermeiros, estudantes de enfermagem, mas, no mínimo, dois médicos”. E, segundo ela, não foi difícil conseguir voluntários. “Muitos vieram nos procurar para falar que só faltava uma oportunidade para poderem contribuir, já que tinham vontade de fazer esse tipo de trabalho. Isso foi comprovado pelo número de inscrições que tivemos, cerca de 70 profissionais, e isso nos incentivou muito”.

A estudante também atenta para uma questão urgente: a saúde das mulheres. “Nós criamos o Saúde da Rua para Elas, que será focado nas mulheres em situação de rua. Embora elas representem 13% dessa população, elas estão sujeitas a todos os tipos de abuso, são frequentemente vítimas de estupro, por vezes rumam à prostituição. Essa parte do projeto trará ginecologistas, psiquiatras, médicos e estudantes”, explica.

A primeira ação será este mês, em homenagem ao Outubro Rosa, e Rebeca pontua que a maior dificuldade enfrentada é divulgar o projeto para as mulheres e informá-las. “Normalmente, de 40 pessoas que atendemos, apenas duas são mulheres”, diz.

A VULNERABILIDADE DOS PACIENTES

Segundo Rebeca, os beneficiados são uma população “extremamente vulnerável, sujeita aos mais diversos problemas de saúde”. Sobre os atendimentos, ela diz: “Nós realizamos testes de DSTs e tem doenças que aparecem constantemente entre os moradores de rua, como hepatite B, que tem vacina do SUS e praticamente todos são vacinados”. Com a proximidade das vivências dos pacientes, ela percebeu “o quanto o nosso sistema de saúde é deficitário, mesmo sendo um dos mais inclusivos do mundo”.

A médica voluntária do projeto, Dra. Raquel Biasi, conta que seu primeiro contato com o projeto foi via redes sociais. ”Eu achei uma ideia incrível, porque a população de rua já vive em uma situação vulnerável, e no contexto de pandemia, isso ficou escancarado. Eu nunca tive a oportunidade de fazer trabalho voluntário como médica, apenas como estudante de medicina em algumas ocasiões. Então foi o meu primeiro trabalho e foi uma sensação indescritível. É uma troca de experiência de vida, eles nos contavam como é a vida deles e, muitas vezes, denunciam que os abrigos estão fechados”, diz.

Atendimento do Saúde da Rua na Cracolândia. Acervo Pessoal.

Antes de ir à ação, era pedido a todos os profissionais que fossem “com a cabeça aberta”. “Na faculdade, nós aprendemos uma espécie de roteiro para lidar com isso. Primeiro, temos que saber a história. Depois, o exame físico. Quando eu estava ali, percebi que eles não necessariamente vão querer contar, e tudo bem. Esse não é o nosso papel. O nosso papel é estender nossa mão a essas pessoas. De que adianta levar uma caneta e um papel e prescrever um remédio que eles nunca vão conseguir comprar? Ao entender isso, você cresce muito mais e aprende muito mais com a ação”, explica a médica.

PARCERIAS E DOAÇÕES

Para viabilizar a iniciativa, parcerias foram importantes. “A primeira foi com o projeto Maratona do Bem, em que alguns amigos fizeram uma corrida e arrecadaram dinheiro para o projeto, além de nos darem materiais. Depois, nos juntamos aos Unidos do Bem, que faz cerca de três mil marmitas por dia. Eles já nos deram marmitas e agora nos doaram testes rápidos de covid. Outra parceria foi com o projeto Banho pra Geral, que leva chuveiros portáteis às ruas. E, por fim, a parceria com o Human Day, que reúne vários coletivos para fazer uma doação humanizada, ou seja, eles não doam simplesmente uma roupa, eles fazem uma loja para que as pessoas escolham o que querem, assim como um restaurante com várias opções de alimentos”, detalha a estudante.

No dia 18 de outubro, está previsto o próximo encontro do projeto, na região da Cracolândia, em parceria com o Human Day.

COMO AJUDAR?

Seguindo o @saudedarua e acessando o site, fazendo doações e compartilhando a vaquinha. Para ajudar com materiais, basta entrar em contato com a equipe via direct, e-mail ou site (eles conseguem recolher em todas as regiões de São Paulo e até mesmo fora da capital). São aceitos medicamentos somente em caixas fechadas e dentro do prazo de validade, além de EPIs para proteção contra o coronavírus. Profissionais da saúde que queiram se voluntariar podem preencher o formulário liberado no Instagram uma vez por mês. “Todo tipo de ajuda é bem vindo”, diz Rebeca.

Autora: Melissa Charchat.

Fonte: Cásper Líbero.