Ex-detentos auxiliam presidiários a melhorarem de vida

PUC-RS

Há algum tempo que Enio Andrade e Leonel Daboitt substituíram as roupas do sistema prisional de Porto Alegre por terno e gravata. Prometeram para si mesmos que largariam a vida de crimes e passariam a ajudar detentos que hoje se encontram em presídios de todo Rio Grande do Sul. Ao longo das suas vidas, foram muitos os lugares por onde passaram. De reformatórios a presídio, estiveram ainda em fundações de atendimento sócio educativo.

Abandonado aos 11 meses junto de seus três irmãos na antiga Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem), Enio cresceu sem pais. Chegou a ser amamentado por uma diretora da fundação, a quem acolheu e cuidou junto de sua filha. Ao todo, passou por quarenta casas de internato de menores. Conheceu a sua verdadeira mãe apenas aos seis anos. Foi quando se mudou para Sapucaia do Sul com ela e o padrasto. Na adolescência, começou a praticar seus primeiros furtos. Fugiu de casa aos 14 e aos 17 já tinha passagem pelo Presídio Central. “Me criei na rua, fazendo pilantragem, naquela de malandro”.

Conta que passou por diversos presídios, como a Penitenciária Estadual de Charqueadas e a Penitenciária Estadual do Jacuí, conhecida também como Tio Patinhas. Os crimes eram os mais diversos: Assaltos a mão armada, roubo de joias e tráfico de drogas. Segundo ele, aos 30 anos caiu a ficha de que aquela vida estava errada. “A minha transformação de criminoso para uma pessoa do bem aconteceu justamente em um assalto. Eu fui tomar um carro e não vi que o sujeito também estava armado. Levei dois tiros na região do pescoço e por sorte não morri. Comecei a perder muito sangue, a ponto da arma começar a tremer na minha as mão’’, conta.

Ele então teria corrido para uma direção contrária, torcendo para que o atirador não estivesse atrás dele. “ Quando virei em uma rua, já meio cambaleando, encontrei um sujeito estacionando um carro. Pensei em assaltá-lo e sair dali o mais depressa possível. Mostrei a arma para ele mas para a minha surpresa ele não mostrou reação”.

Segundo Enio, a atitude do homem o surpreendeu pois nunca havia visto tamanha tranquilidade para uma vítima de assalto. Como havia perdido muito sangue, ele acabara desmaiando, e mais tarde viera a acordar em um hospital. “ Aquele homem me levou em seu carro até o hospital. Ele se chamava Oliveira, era um farmacêutico. Aquele cara que eu pensava ser apenas mais um trouxa foi quem me salvou”.

A partir de então, a vida de Enio mudou completamente. Jurou nunca mais fazer mal a alguém. Ao invés disso, decidiu ajudar aqueles que frequentam a vida de crimes. Viria a conhecer Leonel Daboitt apenas mais tarde, como companheiros nesta causa.

Leonel nasceu em uma zona pobre de Porto Alegre, e assim como muitos meninos destas regiões, entrou cedo para o crime. Cumpriu 30 anos de pena por homicídio, algo que segundo ele, o persegue até hoje. “ Eu era um monstro. Não tinha vida”.

Na época, Leonel jamais havia cursado o ensino fundamental. Teve a oportunidade dentro do presídio, graças a um programa que oferecia aula aos detentos. “ Agradeço até hoje pela minha professora. Foi a partir dessa iniciativa que resolvi mudar, largar essa vida. Ao sair do presídio, completei o segundo grau e passei a me tornar uma pessoa melhor”, conta.

Com 65 e 55 anos respectivamente, Leonel e Enio se conheceram na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados ( APAC ), uma entidade civil sem fins lucrativos que oferece aos ex-detentos uma chance de recuperação. Atuando em cerca de 55 cidades em todo o Brasil, os dois estão ansiosos para ver a primeira sede ser construída no estado, localizada no município de Canoas. A APAC mostrou para muitas pessoas que existe sim a possibilidade de uma humanização do sistema penitenciário brasileiro. “Nós vamos até as zonas mais obscuras dos presídios. Muitas daquelas pessoas não têm salvação, mas ajudamos cerca de 90% dos presos a largar aquela vida”, conta Leonel.

Hoje vice-presidente do projeto, Enio explica que a APAC opera como uma entidade auxiliar do Poder Judiciário e Executivo, auxiliando na execução penal e na administração do cumprimento das penas privativas de liberdade.

Além dos presídios, o projeto auxilia também os menores infratores da Fase, mas de uma forma diferente. “Mostramos àqueles jovens como é a vida no presídio. A diferença é que muitos deles voltarão a cometer crimes, pois estão ligados desde pequenos a gangues e facções. Para eles, assaltar e roubar cidadãos é uma forma de status dentro de seu nicho. Eles veem o Central (presídio) como um bom lugar”, conta Enio.

Amparada pela Constituição Federal, a APAC tem liberdade de atuar nos presídios, trabalhando temas como a valorização humana. Leonel conta como o projeto faz diferença dentro dos sistemas prisionais: “ Na APAC nós sempre temos uma rotina, desde que chegamos lá nas prisões. Já cedo fazemos uma oração, e depois conversamos com os presos, tentamos passar um pouco da nossa experiência de vida. Mostramos que eles podem sim sair daquela situação se quiserem”. Em um sistema falido e precário, atitudes simples podem salvar vidas

 

Texto: Douglas Stadulni e Germano Durand
FONTE: Famecos/PUC-RS