Restinga, um bairro povoado de histórias para serem contadas

FAMECOS PUCRS
Márcio Figueira, 38 anos, na sua casa, onde fica o escritório da TV Restinga.
Márcio Figueira, 38 anos, na sua casa, onde fica o escritório da TV Restinga.

O ambiente é interiorano. Um cachorro late, o vizinho fala em voz alta, os carros passam fazendo barulho. Bairro: Restinga. Zona Sul de Porto Alegre. Distância do centro: 21 quilômetros. A rua, ou melhor, o acesso, é de paralelepípedos: Esclarena Bueno Araújo. Número: 4.621. Márcio Figueira, 38 anos, transformou a sala da residência na sede da TV Restinga. Na peça, além de mesas e computadores, equipamentos básicos para produção: uma filmadora Sony, uma câmera semiprofissional DSLR (que grava imagens e fotografa) e o inseparável celular. À direita de quem entra, uma Bíblia está aberta. O microempresário diz que estudou muito o livro sagrado e que a sua religião é Deus.

O canal comunitário de vídeos na web, batizado com o nome do bairro, destaca, principalmente, as ações positivas da Restinga. O objetivo é dar espaço aquilo que não se divulga nos jornais, na rádio e na televisão. “A gente foi na contramão, quer mostrar uma Restinga diferente, uma Restinga que nós, moradores, sabemos que existe, e as pessoas não sabem porque não é falado”. O canal tem 3 milhões de views no site (www.tvrestinganaweb.com.br) e 500 mil visualizações nas redes sociais.

Márcio nasceu em Viamão, mas transferiu-se, aos dois anos, para a Restinga. O pai, em 1980, se inscreveu e foi sorteado pelo Departamento Municipal de Habitação (Demhab) para a construção de uma casa na quarta e última unidade do bairro. Assim como muitos moradores, já foi vítima de preconceitos por morar no local. “A gente, por ter sido criado aqui, sentiu e sente na pele aquela coisa de procurar um emprego, preenchendo uma vaga de estágio. Tu moras onde, eu moro na Restinga, a pessoa para, já te olha”. A discriminação ainda persiste, mas teve algumas mudanças devido a investimentos diversos como hospital, escola técnica, lotações, ampliação do comércio. “Mas a Restinga ainda é estigmatizada, como Rubem Berta, Cruzeiro, Bom Jesus, comunidades mais carentes onde prevalece essa questão do tráfico de drogas”.

O começo foi em novembro de 2011. Márcio, trabalhando como web designer, juntou-se ao amigo Sandro Camisolão, que tinha uma produtora de vídeo. No início, o propósito era formatar um portal de notícias com objetivo comercial. Nesse período, o canal contava com profissionais que tinham funções específicas como editor de vídeo, cinegrafista e produtor. Depois, a TV Restinga foi cada vez mais se identificando como uma mídia alternativa e sem fins lucrativos. O trabalho é voluntário, não há remuneração. A equipe, formada conforme a pauta, não tem mais do que três integrantes. Márcio é casado com Alessandra, 37 anos, que atua na emissora como fotógrafa, e pai de Nicole, 12 anos, e Nathaly, sete. A sua remuneração é proveniente da Agência WPOA, onde atua, principalmente, como web designer. Aprendeu técnicas do jornalismo pesquisando e observando. “Conheço o padrão de cada grupo de comunicação. Não vamos fazer de qualquer jeito, mas temos que ter a nossa identidade comunitária”. A TV Restinga participa de editais públicos e privados e, quando contemplada, desenvolve atividades na comunidade.

E o que não faltam são histórias para contar, relatos de personagens que fazem parte do terceiro bairro mais populoso da capital gaúcha. São 51.569 moradores. Márcio conta que Seu Adão e Dona Marlene, por exemplo, mudaram de vida após terem se transformado em notícia nas imagens da TV Restinga. O homem, semianalfabeto, foi contratado para cuidar de cavalos e porcos em uma área verde na Vila Chácara do Banco. Como ele não tinha onde deixar a família, levou-os para morar no local, junto ao chiqueiro e ao estábulo. Um tempo depois, o proprietário levou os animais embora. As pessoas continuaram morando no local.

A pedido da presidente da associação dos moradores, a TV fez uma reportagem mostrando as condições insalubres em que a família habitava. A repercussão foi imediata: as instalações foram derrubadas, um empresário construiu no lugar uma casa pré-moldada e representantes governamentais das áreas de assistência social e direitos humanos visitaram o espaço. A reportagem acabou pautando, por exemplo, o jornal Diário Gaúcho, que incluiu a história na série Os Invisíveis.

Seu Gilberto, conhecido baleiro que trabalha nos terminais de ônibus da Avenida Borges de Medeiros, no centro de Porto Alegre, vende os seus doces há 40 anos. Um dia, na fila, esperando o ônibus para retornar à Restinga, Márcio reconheceu o homem. Lembrou que, quando guri, acompanhado do pai e da mãe, era freguês assíduo daquele senhor. Mais tarde, ao frequentar o Centro, para fazer cursinho, trocava fichas de vale-transporte por bala. Ao reconhecê-lo, puxou conversa. E qual não foi a surpresa, ao perguntar em que bairro o homem morava: Restinga, Vila Castelo, respondeu. No mesmo instante, Márcio tirou uma foto e publicou-a nas redes sociais. Entrou no ônibus. O trajeto de retorno à Restinga levou uma hora.

Ao chegar em casa, nova surpresa: o post atingiu centenas de compartilhamentos, comentários e curtidas. Uma moça, vizinha do Seu Gilberto, disse que ele estava passando muitas dificuldades. A esposa, vítima de AVC, estava na cama, e a filha enfrentava problemas de saúde. Ao saber da situação, Márcio, no mesmo dia, às 21h, foi à casa do homem e ficou impressionado com as más condições em que ele vivia com a família. O local tinha apenas duas peças: uma sala – com vidro quebrado – onde todos dormiam e um banheiro. Márcio lembra que, há um ano, o senhor não sabia o que era um chuveiro quente. Uma campanha foi realizada, e a casa ficou com falta de espaço para receber tamanho número de peças de roupas e quantidade de alimentos que foram arrecadados. Além disso, uma minirreforma foi realizada no local. O fato ganhou repercussão e diversas emissoras de rádio noticiaram o fato. Histórias como essas não podem deixar de ser contadas. Como diz o artigo 19ª da Declaração Universal dos Direitos Humanos ,“todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e expressão.”

A TV Restinga registra problemas que ocorrem no dia a dia da comunidade. Pode ser uma moradora que recebeu uma tele-entrega de uma pizza mal acondicionada, um buraco que se transformou em cratera e não era fechado há seis meses, uma creche que ficou sem luz durante oito dias ou os transtornos causados por aqueles que precisam ficar durante a madrugada na fila do posto de saúde para conseguir uma ficha de atendimento. Márcio afirma que não sofreu, até agora, nenhum tipo de represália pelo tipo de denúncia que realiza. “A gente tem um bom relacionamento, sabe onde está pisando, bate, pega o poder público. Também somos parceiros. Quando uma obra que está sendo feita, ou quando reclamamos que algo não funciona e é consertado, a gente vai lá e mostra. A comunidade e o poder público têm que andar junto, nenhum é inimigo do outro”, ensina. Segundo Márcio, o canal é como uma válvula de escape para essas demandas. “As pessoas começaram a ver a TV Restinga como um espaço onde a gente começou a comprar brigas da comunidade porque nós somos daqui. É diferente de um grande veículo de comunicação. Eles vêm aqui fazer a matéria e vão embora, não tem envolvimento.” A TV Restinga publica pelo menos um vídeo por semana e, diariamente, nas redes sociais.

Alunos de pelo menos três universidades, entre elas a PUCRS, já se dedicaram a estudar o trabalho desenvolvido pela TV Restinga em monografias e trabalhos de pós-graduação. Um dos planos para o futuro do empreendimento é a construção do Centro Cultural Restinga. O projeto, avaliado em R$ 1 milhão, pretende contar com estúdio de gravação e áudio, rádioweb (primeiro passo para a implementação de uma rádio comunitária) e uma redação para a edição de uma revista. O terreno, cedido pelo Demhab, está localizado na Estrada João Antônio da Silveira.

Valtencir Cruz, 48 anos, é o diretor do jornal Vitrine Gaúcha

Valtencir Cruz, 48 anos, é o diretor do jornal Vitrine Gaúcha

Um jornal que escreve a história do bairro
Além da TV Web, a Restinga tem pelo menos um jornal comunitário. “De volta à Elite”, destacava o retorno da Estado Maior da Restinga, a Tinga, ao grupo principal do Carnaval de Porto Alegre. “Fusca ‘tunado’ é sensação”, fazia uma referência ao carro modificado com inspiração no design da Porshe. Essas foram as manchetes de estreia do Jornal Vitrine Gaúcha, em março de 2009.

“A aventura olímpica da família Teixeira”. Essa foi a manchete da mais recente edição do Vitrine, de número 166, da primeira quinzena de agosto. A matéria conta a história de quatro integrantes de uma mesma família, moradores da Restinga, que trabalharam como voluntários nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. Com o slogan “escrevendo a história do Bairro”, o impresso apresenta seções como editorial, música, geral, educação, esporte, entretenimento – com horóscopo, tirinha e cruzadinha – classificados e culinária.

O jornal nasceu da provocação de sócios da Associação do Comércio e Indústria da Restinga. Os empresários queriam uma publicação que tivesse credibilidade. Valtencir Cruz, 48 anos, que trabalhava na entidade como gestor, aceitou o desafio. Natural de Cachoeira do Sul, veio para Porto Alegre aos 11 anos. Formado em administração de empresas pelo IPA, antes de investir em jornais, foi gerente, durante 20 anos, da empresa de transporte coletivo Tinga.

Valtencir, que mora no bairro, é o diretor. A equipe se completa com dois designers, um funcionário na área comercial e outro na distribuição. O Vitrine Gaúcha tem periodicidade quinzenal, 16 páginas, tiragem de 7,5 mil exemplares e distribuição gratuita em 40 pontos da Restinga e da Hípica. A empresa também publica outros dois jornais de bairro: Vitrine Extremo Sul (com alcance no Belém Novo, Ponta Grossa, Guarujá, Serraria, Aberta dos Morros e Lami) e Vitrine na Lomba do Pinheiro (na Lomba do Pinheiro e parte da Agronomia). Esses últimos são mensais e têm a mesma tiragem do Vitrine Gaúcha.

O Jornal Vitrine Gaúcha é um jornal comunitário presente nos bairros Restinga e Lomba do Pinheiro

Além do Vitrine Gaúcha, o mesmo grupo publica os jornais Vitrine Extremo Sul e Vitrine da Lomba do Pinheiro

Até abril, a tiragem das publicações era de 10 mil. Com a crise, o empresário fez uma consulta aos anunciantes: redução de 25% na tiragem ou aumento de 15% na publicidade. A primeira opção foi a escolhida. Valtencir tem preocupação com o público. “Um cuidado que nós temos é fazer com que as pessoas se vejam. A gente procura fazer um jornal 100% local.” Ele cita, por exemplo, as coberturas esportivas. “O mesmo destaque que os jornais diários dão para Grêmio e Inter, eu dou para a várzea. A gente publica até pôster. Isso é fundamental, faz com que as pessoas busquem o Vitrine.

De acordo com o empresário, o jornal sempre teve como objetivo destacar as pautas positivas. “As pessoas quando, querem ver um jornal de bairro, procuram aquilo que elas não veem na grande mídia. A gente tentou mudar, deixar mais popular, mas não foi bem aceito. Dizem que a tragédia vende jornal, mas o nosso jornal é gratuito”.

Entre as matérias de destaque, o empresário cita o exemplo das salas de lata. Segundo ele, o Vitrine Gaúcha foi o primeiro jornal a publicar a notícia. Em 2009, crianças da Escola General Neto, localizada na Avenida Edgar Pires de Castro, tiverem que ter aulas em contêineres, desde que a escola foi destruída por um incêndio e a construção do novo prédio acabou interrompida. Pessoalmente, a matéria que marcou Valtencir foi uma entrevista realizada com o escritor Moacyr Scliar, um pouco antes de sua morte.

Texto: Marcelo Machado
Foto: Annie Castro

FONTE: Famecos/PUC-RS