Quem são? – Os rostos da representatividade feminina brasileira nas Olimpíadas

As atletas brasileiras Ana Sátila e Viviane Jungblut falam sobre suas trajetórias e a representatividade feminina nas Olimpíadas de Tóquio.

Cerimônia de abertura das Olimpíadas de Londres – 1900. Os primeiros jogos com participação feminina. | Foto: COI.

Na primeira edição dos Jogos Olímpicos, em 1896, dos 241 atletas participantes, nenhum era mulher. Na segunda edição, as competições contaram pela primeira vez com atletas femininas, sendo apenas 2,2% do total de competidores. A disparidade de gênero no elenco olímpico era justificada, nos séculos passados, com o argumento de que os corpos femininos serviam exclusivamente para a maternidade. O próprio criador dos Jogos, Pierre de Coubertin, certa vez disse: “é indecente ver mulheres torcendo-se no exercício físico do esporte”. Hoje, muitas atletas se esforçam para reformular essa concepção, e se caminhe para uma presença feminina maior em qualquer modalidade.

Com o passar dos anos, o número de mulheres nas Olimpíadas oscilou entre aumentos e declínios, registrando recorde nos jogos de 2016, com 5176 atletas femininas, sendo aproximadamente 46%. A expectativa agora está na próxima edição da competição, que inicia no dia 23 de julho de 2021 no Japão.

O Comitê Organizador de Tóquio já adiantou que neste ano o recorde da presença feminina será batido, e as mulheres serão aproximadamente 49% entre o total de atletas. Na Seleção Brasileira, dos 302 atletas inscritos e 18 substitutos, 147 são mulheres.

Os rostos do protagonismo feminino

Ana Sátila e Viviane Jungblut estão entre as atletas que representarão o Brasil nas Olimpíadas 2021. Em entrevista para o Editorial J, elas contam sobre suas trajetórias e como a representatividade feminina é essencial para o progresso esportivo.

Ana Sátila faz pronunciamento na Recepção aos Atletas Medalhistas dos Jogos Pan-Americanos de Lima 2019 | Foto: Alan Santos/PR.

Ana, que compete na canoagem slalom, já é veterana nos Jogos Olímpicos, participou das duas últimas edições da competição, em Londres (2012) e Rio (2016). Iniciou sua história com o esporte vinte anos atrás, quando tinha apenas cinco anos de idade. O primeiro contato foi com a natação, em que ela e sua irmã eram treinadas pelo próprio pai. Anos mais tarde, foram convidadas pelo técnico para praticar a canoagem e competir, sempre com muito apoio familiar.

Numa delegação de 10 meninos e três técnicos homens, Ana fez sua estreia nas Olimpíadas em 2012.

“Ser a única atleta feminina entre os colegas e técnicos mudou minha experiência de competição. Pra mim foi muito difícil. Os assuntos e as brincadeiras são diferentes. Querendo ou não, você acaba se sentindo fora do lugar.”

A atleta também não foge das barreiras mais difíceis fora da água. Buscar bons resultados deixou de ser um objetivo pessoal e virou uma forma de mostrar que é possível. Para Ana, ser exemplo na canoagem e trazer mais meninas para a modalidade também é chegar ao lugar mais alto do pódio.

Viviane Jungblut durante prova de 1.500m nado livre no Campeonato Mundial dos Esportes Aquáticos, Coreia do Sul. | Foto: Satiro Sodré.

A paixão de Viviane pela água também vem desde cedo. Quando pequena, a atleta acompanhava os irmãos mais velhos nas piscinas e queria nadar como eles. Aos sete anos, começou a frequentar a escolinha de natação do Clube Grêmio Náutico União, em Porto Alegre. Desde lá, mergulhar é a parte preferida do seu dia. 

“Meu parâmetro acaba sendo os meninos que treinam comigo. Eu não quero que o meu técnico me dê treinos mais fáceis do que os meus colegas homens. Eu não quero ter um tratamento diferenciado por ser mulher. Eu quero ser reconhecida pelo que eu faço. Pelo meu mérito e pelos meus resultados.”

Em decorrência da pandemia do Coronavírus, os treinos foram interrompidos por um longo período. Tanto a canoagem quanto a natação dependem de infraestrutura externa e a parte técnica foi bastante prejudicada. Ambas as atletas contam que, apesar de permanecerem com treinos para manter o condicionamento, a pausa causou muitos danos ao preparo físico. 

Mesmo com a flexibilização do isolamento e a possibilidade de treino seguindo todas as medidas de distanciamento, o preparo emocional precisou de atenção redobrada. Viviane conta que a expectativa para os jogos requer acompanhamento psicológico constante, principalmente para lidar com as incertezas causadas pelo vírus e a chegada da competição.

A nadadora fará sua estreia nos jogos olímpicos neste ano. No início do ano a atleta testou positivo para a covid-19 e ficou de fora da seletiva brasileira de natação. Mesmo com a frustração, a atleta garantiu sua vaga na repescagem, com direito a quebra de recorde brasileiro.

Ana já participou de outras edições das Olimpíadas, conquistou a vaga nos jogos pela primeira vez com apenas quinze anos e em 2014 foi campeã mundial júnior. A canoísta se mostra confiante com a competição em Tóquio e diz que nunca se sentiu tão preparada como agora.

Com todas as adversidades, as mulheres têm grande contribuição nas medalhas brasileiras. No judô, modalidade em que o Brasil mais saiu vitorioso, duas das quatro medalhas de ouro são femininas. No vôlei, tanto de praia quanto de quadra, a equipe feminina é responsável por 11 dos 23 pódios.

A cerimônia de abertura das Olimpíadas de Tóquio aconteceu no dia 23 de julho. As competições, no entanto, iniciaram dois dias antes. Com 302 classificados até o momento, o Brasil já tem a maior delegação fora de casa da história. Embora a quantidade de atletas seja consideravelmente menor que no Rio 2016, a previsão é que o número de medalhas brasileiras será mantido, segundo estudo da empresa americana Gracenote.

Autores: Maitê Dal Soglio, Valentina Biason, Maria Eduarda Zucatti e Fabiana Damian.

Fonte: PUC-RS.