Quem bate?

USP

“Bola na marca… é pênalti!”

— Preferia que não fosse. Preferia que o juiz desse continuidade ao jogo, esperasse a conclusão do lance e não tivesse uma compulsão inenarrável por apontar a marca da cal. Um simples gesto do árbitro e a vitória está somente nos meus pés. Uma pressão enorme de todos os lados, a linha tênue entre a glória e a piada, entre a aclamação e o ódio eterno do público. Se eu perco, a organizada me ameaça de morte; se eu faço, a organizada me oferece uma estátua na sede. Vou com a famosa cavadinha? Muito arriscado! Cobrança de segurança, bola a meia altura no meio do gol. Mas e se o goleiro esperar? Ora, então bata no canto, forte e rasteira, impossível pra qualquer um. E se for pra fora? Então enche a pancada! Não, posso isolar! Uma simples escolha se torna, tão facilmente, um pesadelo impenetrável.

— Vamos! Respire fundo! Um vexame hoje e minha chance no profissional desaparece. Ninguém sabe o que eu carrego por trás dessa decisão. São anos e anos de desencorajamento familiar, de desprezo à vida no futebol e total incentivo para seguir nos estudos. A carreira é curta e incerta, a caminhada é longa e sinuosa, eles diziam. Eu arrisquei e cá estou ー a família ali ao fundo, atrás do goleiro, abraçada e apreensiva. Concentração. Foco. Sangue frio. Não! É demais! Jamais serei capaz de lidar com tamanha responsabilidade. É acertar ou acertar, conquistar os três pontos e torcer por um contrato no time de cima. Uma oportunidade de mudar, de transformar a realidade. Carregar esse peso nas costas é inimaginável, é impossível.

— Dezenas ao meu redor atrapalhando a cobrança. Provocações e mais provocações. Não importa: é só a bola balançar as redes que eu me torno a divindade da sala. Todos vão me reverenciar na entrada, contemplar minha imagem no intervalo e beijar meus pés na saída. Eu trouxe o título pra classe! Isso é certamente um diferencial no currículo, deveria valer vaga direta na universidade. Pra falar a verdade, só me interessa impressionar aqueles dois olhinhos meigos e radiantes na arquibancada, que mal prestam atenção no jogo. Lá está ela, linda como sempre, devorando o lanche e conversando com as amigas. Eis que os olhinhos me encontram. Essa é pra você!

— E então, Juninho? Vai pular pra qual lado? Impressionante, não há um respingo de contato visual, um fio de chantagem. A concentração é total, postura irreverente, posicionamento perfeito. Aprendeu com os melhores na televisão, não tira o foco do meu pé direito. Não se mexe, fica estático, espera até o último momento possível. Quer saber? Talvez ele nem pule. Isso tudo é pressão psicológica! Por que ele ralaria todo o cotovelo na rua por um mísero pênalti? Rá, ele é sagaz, ele sabe o que está em jogo: o orgulho. Chegar em casa e dizer, na frente dos pais, com pujança: “Peguei o pênalti do moleque!”. Tirar o chinelo na sala e sentar no trono, à espera da mordomia de campeão. Não dessa vez, Juninho! Não dessa vez…

— A multidão faz figas, lança pragas ao goleiro, vaia o vilão da noite. Meu nome é gritado. Faz! Faz! Faz! A taça está ali do lado, refletindo meu rosto confiante, revelando a imagem do futuro campeão. Eu mesmo, o camisa 10, o maestro do time, o faz-tudo – corre, passa, dribla, marca, cruza e conclui pro gol. O vento forte, o céu cinza, os trovões estrondosos dão um ar sombrio à ocasião. É agora, hora da pancada! “Ei, pode parar! Já falei para não jogar bola aqui em casa! Vai quebrar outro vaso!”. O juíz apita e termina o jogo, sem vencedores, sem perdedores. Fim de festa, milhares de torcedores decepcionados, ingressos jogados fora. A partida mais sem graça da história… Não se depender de mim!

“Vem Carlinhos pra cobrança. Partiu, bateeeu…”

Texto: Henrique Votto
Fonte: Jornalismo Júnior/USP