Quando o fanservice passa a ser um desserviço

Imagem de capa: Giovana Christ/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Quando Marcel Duchamp, nome de destaque do movimento dadaísta — aquele do “recorte palavras aleatórias e monte seu poema” —, afirmou que “o espectador é quem faz a obra”, ele provavelmente não imaginava o quão literal isso se tornaria um século depois. Em uma era tão acelerada quanto a nossa, a relação entre o público e a arte consumida por ele torna-se cada vez mais estreita. O que é bom em certos casos, porque é maravilhoso perceber que nós não somos meros observadores, que de certa forma podemos contribuir com a nossa percepção e imaginação.

No mundo da televisão, regido hoje muito mais pelas menções nas redes sociais do que necessariamente pelos aparelhos ligados, é bem evidente a interferência sofrida pelas obras, em especial na área da ficção. Têm surgido, com isso, discussões a respeito dos limites entre a criação, o criador e os desejos de sua audiência, trazendo à tona um termo bastante frequente em fóruns de fandoms: o fanservice.

A expressão fanservice tem sua origem no universo dos animes e dos mangás e consiste na introdução de elementos supérfluos, muitas vezes com forte conotação sexual ou erótica, com o simples objetivo de entreter o público. Mais especificamente, o masculino, facilmente atraído pela objetificação de mulheres em desenhos animados e histórias em quadrinho. Existe, inclusive, uma categoria inteira de animes de fanservice. No entanto, o termo foi sendo gradativamente incorporado por outros domínios fictícios, agregando mais e mais amplitude ao seu significado.

Diálogos pretensiosos que parecem ser feitos exclusivamente para serem reproduzidos no tumblr. Cenas sensuais sem propósito. Casais extremamente forçados. Personagens tendo suas personalidades radicalmente alteradas do nada. Toques sugestivos que, sabemos, não levarão a lugar nenhum. Esses são alguns exemplos de fanservices mais recorrentes no microcosmo das séries. A intenção dosshowrunners com esse tipo de estratégia é manter o público fiel e extrair dele reações positivas para conservar e até elevar o hype do programa. Entretanto, até que ponto essas escolhas são inteligentes?

Um detalhe é perceptível: o fanservice não é criado para agradar o público de uma maneira geral, mas sim para agradar determinado tipo de público. E é justamente aí que mora o perigo. Em uma entrevista antiga dada à Wired, Shigeru Miyamoto, criador do Marios Bros, deu uma declaração que se aplica muito bem ao funcionamento das séries televisivas. “No começo, todo mundo quer saber o que é (quando algo é novo e interessante). Mas gradualmente, perdem o interesse. As pessoas que não perdem o interesse se tornam mais e mais envolvidas… e o senso comum começa a ser influenciado apenas por aquelas pessoas. Torna-se algo exclusivo para quem esteve preso nisso por um longo tempo. E quando as pessoas que estavam interessadas nisso a princípio olham pra trás, não é mais aquilo que as interessava”.

É um ciclo sem fim: a audiência que escolhe ficar cria um vínculo afetivo com a obra e passa a promovê-la e tratá-la como sua propriedade, exigindo que suas demandas sejam atendidas. Os criadores então as atendem. Quando aquelas pessoas influenciadas pelas inúmeras hashtags levantadas pelos fãs se rendem e tentam assistir ao programa, encontram algo inacessível e, por conseguinte, desinteressante a qualquer um que se encontre fora da bolha da adoração. E se os fãs — leia-se: os mais devotos — são ouvidos constantemente, logo a obra vai perdendo o sentido e desagradando até mesmo uma parcela considerável do fandom. Em um piscar de olhos, a autonomia e o controle criativo saem de cena, a essência se perde e a arte original se transforma em uma fanfic de si mesma.

Um vasto campo amostral de danos

A recém finalizada “Pretty Little Liars” é uma manifestação bem expressiva de um fanservice que deu errado. Há uma cena no especial de natal da quinta temporada intitulada “Sexy Santa Claus”, em que os quatro interesses amorosos das protagonistas descem as escadas com vestes natalinas provocantes. O propósito disso? Tentar encobrir o fato de que o episódio é completamente inútil para o desenrolar de uma história que não deveria ter tido mais do que três temporadas, mas que com a ajuda de mil pitadas de fanservice se arrastou por não quatro, não cinco, mas sete temporadas. Até o último episódio, os roteiristas focaram em agradar aos “shippers”, como são chamados os que torcem de maneira ferrenha por algum casal. E o mistério, que deveria dar o tom da série, foi abandonado. O resultado foi um final desapontador e cheio de buracos não preenchidos.

Há ainda os casos envolvendo adaptações de livros e de histórias em quadrinhos, em que a discussão alcança um nível de complexidade maior. Como envolve uma fanbasepré-existente, algo consolidado, é preciso que o equilíbrio entre fidelidade e independência seja estabelecido. A série “Arrow”, baseada nas HQs pertencentes à DC Comics, parece ter dançado na corda bamba ao não medir esforços para juntar um casal. Apesar da série ter, segundo a crítica, se redimido na última temporada, o desenvolvimento superficial e a sina dada a personagens importantes nos quadrinhos foi encarado por boa parte do público como uma tentativa falha de agradar aqueles que torciam para o relacionamento entre Oliver e Felicity, apelidado carinhosamente como “Olicity”.

A CW, emissora responsável por Arrow, concorre facilmente ao título de rainha dofanservice, especialmente no que diz respeito a passar por cima de qualquer empecilho para concretizar um casal popular. Dentre suas várias produções acusadas de utilizar o artifício, estão “Gossip Girl”, que se tornou basicamente um show de “não importa o quão problemáticos sejamos, sempre seremos Blair e Chuck”, e “The Vampire Diaries”, cujo final foi exibido recentemente e causou controvérsias. A série adolescente sobre vampiros sempre abusou do recurso ao trazer personagens de volta à vida diversas vezes, mas o previsível último episódio explicitou totalmente a intenção de atender aos pedidos de certos shippers com o gancho deixado pelo destino de Stefan Salvatore.

O fato da voz dos fãs ser ouvida não significa, no entanto, algo negativo. “The 100”, também da CW, enfrentou, devido à morte de uma das personagens mais queridas, uma enorme crise de relações públicas. A personagem em questão não era simplesmente amada pelo público, ela fazia parte de um romance importante para a representatividade LGBT. O alvoroço causado pelos fãs foi tão intenso que atingiu o criador. Em nota, ele prometeu ter mais cuidado da próxima vez e pediu desculpas por perpetuar a cultura do “Bury Your Gays”, em que casais homossexuais nunca têm um final feliz.

Existem outros acontecimentos relevantes e positivos relacionando campanhas feitas por fãs, a resposta dos autores a essas campanhas e o posterior aumento de visibilidade de pautas importantes. A britânica “Doctor Who”, por exemplo, finalmente trouxe uma personagem de destaque abertamente lésbica após dez temporadas e muitos pedidos vindos do fandom.

A norueguesa “Skam” é um modelo benéfico e inofensivo do uso sensato do fanservice. Na quarta temporada, duas cenas já foram visualmente baseadas em “fanarts” — desenhos produzidos pelos fãs. Essa tática, além de não ser apelativa, não atrapalha o desenvolvimento do enredo. Infelizmente, trata-se de um caso bastante isolado, pois mesmo as séries feitas pela Netflix, que é um serviço de streaming independente e oferece um formato diferente de distribuição, são passíveis de se tornarem reféns do público.

Sobre deixar o motorista dirigir

O que acontece é que não é mais um mundo analógico. Os telespectadores não assistem a um episódio e enviam cartinhas com suas opiniões. A comunicação acontece em tempo real, o retorno é imediato. Os roteiristas são obrigados a ter muita segurança do que estão fazendo para que a audiência não tome as rédeas de seu trabalho criativo.

Linda Holmes, editora da área de entretenimento e cultura pop do NPR (National Public Radio), publicou, na época em que a série “Chuck” causou polêmica ao separar o casal principal, um artigo intitulado “A faca de dois gumes da devoção”. Nele, ela estabelece uma metáfora entre o ato de gostar de uma série e estar dentro de um ônibus. Você pode comentar a vista, apontar para as pedras no meio do caminho, pedir para ligar o ar-condicionado e até abandonar o ônibus, mas você definitivamente não pode tentar tomar o volante. “Se toda fala vai ser como você quer ouvir, se todo próximo passo vai ser o passo que você teria escolhido, então não há nenhuma razão para assistir a série”, declara Holmes.

A ficção é sim feita para os fãs e em uma realidade paralela, torna-se propriedade deles. É legal que eu possa escrever a minha própria versão da música do meu personagem favorito de livro, que eu possa criar um universo completamente alternativo em que o inimigo e o mocinho são secretamente um casal apaixonado, que eu possa fazer sugestões ao autor e até que meu desenho se transforme em uma cena do universo real da ficção.

É necessário, porém, saber separar o que é um objeto de contemplação e o que as minhas mãos podem de fato moldar. Quando nós nos submetemos a ser fãs de alguma coisa, estamos assinando um pacto de confiança com o autor, já que foi ele quem nos apresentou a essa obra. E se é essa a obra que queremos, é esse o autor a quem ela pertence.

Nós certamente não somos meros observadores quando a interatividade nos rodeia por todos os lados. Mas se esperamos que a arte seja genuína, uma única frase me vem à mente: “cuidado com o que deseja”.

Por Anny Oliveira (Jornalismo Júnior/USP)