Quando existir é revolucionário

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Mulheres desafiam os padrões de beleza através do amor próprio e da aceitação

Kailã perdeu cerca de dez quilos em duas semanas. Ela estava apenas no terceiro ano do Ensino Médio quando desenvolveu um transtorno alimentar. Júlia usou química para alisar o cabelo durante 11 anos, desde os nove. No início da idade adulta, Thamires passou por uma dieta extremamente restritiva e perdeu quase 25 quilos. Por uma herança genética, Mafalda pintou os cabelos desde os 13 anos, até os 35, quando uma tinta desencadeou uma reação alérgica, fazendo-a raspar a cabeça. Muitas mulheres precisam passar por caminhos tortuosos para alcançar algo que deveria ser natural: o amor próprio. Isso acontece porque, desde que nascem, são ensinadas a não gostar do seu reflexo no espelho. Elas aprendem a viver sempre tentando alcançar um padrão de beleza que, na maioria das vezes, é inatingível.

O ideal de um corpo a ser conquistado é uma imposição cultural, que pode variar de acordo com a época. Segundo a mestre em Antropologia da Iberoamérica, Franciele Medeiros, 29 anos, que estuda essa temática, “cada sociedade possui sua própria cultura e também seus próprios padrões de beleza, assim como outras normas que regem aquele grupo”. Esses padrões são fomentados pelas pessoas e, principalmente, pela mídia. De acordo com uma pesquisa realizada pela escritora e doutora em Antropologia Mirela Berger, isso afeta a maior parte das mulheres. “Noventa e três por cento das entrevistadas afirmaram se preocupar num nível que julgaram exagerado com a aparência e dez por cento portavam o distúrbio alimentar da anorexia, inspiradas pelas modelos de sucesso na mídia e na moda”, conta. Em grande parte do mundo, o padrão imposto pelas sociedades ainda é o eurocêntrico, ou seja, pessoas brancas e magras. Porém, nem sempre foi esse. Na época Renascentista, por exemplo, as mulheres gordas eram as mais admiradas e invejadas.

Abaixo, fotos de Júlia Fernandes, 20 anos.

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As transformações de um corpo ideal a ser seguido ocorreram com as mudanças culturais da sociedade. Se antigamente as mulheres gordas eram eternizadas nas obras de pintores famosos, atualmente as revistas, novelas, filmes, mídias de forma geral só mostram um único tipo de corpo. O que acaba fomentando situações de gordofobia e racismo. Além disso, essa representação de um único físico faz com que a magreza se torne uma obsessão para muitas mulheres e que elas, a fim de alcançar esse padrão, se submetam a dietas malucas, diversas cirurgias e desenvolvam até mesmo transtornos alimentares — o que, de acordo com o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH), ocorre em cerca de 70 milhões de pessoas em todo o mundo. A psicóloga Ana Luísa Sasso Bortolotti, de 31 anos, que estuda o tema desde 2010, acredita que o contexto sociocultural pode ser um fator causador dos transtornos alimentares. “Atualmente, o corpo está em moda. Mesmo que estejamos em momento de transição, ainda temos o valor cultural da magreza como sinal de autocontrole e sucesso. Isso se torna mais evidente na adolescência devido à influência do grupo, da cultura e da busca de modelos identificatórios.”

Kailã de Oliveira Isaias, 23 anos, é baixinha, negra e gorda. Com uma boina vermelha, um piercing no septo, ela sorri ao dizer: “eu sou um ser impactante”. Mas nem sempre a publicitária de um metro e 54 centímetros olhou para si com olhos amorosos. Aos 16 anos Kailã desenvolveu anorexia e bulimia, perdendo dez quilos em cerca de duas semanas. Ela não comia nada, e quando comia, vomitava depois. São, respectivamente, sinais típicos desses transtornos alimentares. Aliás, os dois mais comuns. O surgimento desses distúrbios geralmente tem mais de um motivo, dentre eles estão os fatores genéticos, biológicos, personalidade, estressores, cultura e dietas. No caso de Kailã, foi a pressão por ser magra que desencadeou os transtornos. Mas ela não é a única. Segundo o Relatório Global de Autoconfiança Feminina, realizado pela marca Dove, nove em cada dez mulheres e sete em cada dez meninas se forçam a parar de comer ou colocam sua saúde em risco, a fim de se encaixar em um padrão.

Abaixo, fotos de Kailã de Oliveira Isais, 23 anos.

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Aos nove anos, em um verão distante, Júlia Fernandes, uma menina negra de olhos grandes e escuros, recebeu uma proposta de sua dinda. “Vamos passar um produto para baixar o volume do teu cabelo? Ele vai ficar lisão, bem bonito”. Assim o cabelo crespo, volumoso até a cintura, recebeu seu primeiro tratamento de alisamento. Foi com a química Hene — uma pasta escura, considerada uma das mais baratas e antigas. Parece inofensivo, mas o excesso de químicas e produtos alisantes pode ser prejudicial à saúde, gerando alergias ou problemas respiratórios. Apesar disso, a prática se tornou algo comum. Os salões de beleza estão lotados de mulheres e, até mesmo crianças, fazendo tratamentos e relaxamentos para alisar os cabelos. Na época, Júlia ficou realizada, mas só com o passar do tempo é que foi perceber os porquês de ter alisado seus cachos durante 11 anos. “Eu sabia que a partir do momento que os meus colegas vissem ele crespo, eu ia ficar mais negra e eu não queria parecer mais negra para eles. A beleza negra nunca foi um padrão imposto ou desejado”, afirma.

Mafalda Valéria Ferreira Panatieri, 66 anos, também enfrentou problemas com a química no cabelo ao longo da vida. Por uma questão genética, aos 13 anos começou a ter cabelos brancos. Logo os coleguinhas de colégio notaram e surgiram os apelidos, um deles era vovó Mafalda. A irmã mais velha a ajudou a pintar e, aquilo que surgiu de uma necessidade, se tornou um hobby. A atriz e professora de ioga usava tinta das mais diferentes cores — azul, verde, vermelho, platinado. Com isso, algumas alergias surgiram e outras se intensificaram. Mas foi com 35 anos, num salão no térreo de seu apartamento, que a tintura desencadeou uma forte reação alérgica. “O cheiro foi terrível. Parecia que estava reduzindo meu cérebro. Eu subi para casa e tirei a tinta, mas não saía. Aí eu cortei com a tesourinha bem rente. Depois voltei no salão e ela passou uma máquina zero”, lembra.

Abaixo, fotos de Mafalda Valeria Panatieri, 66 anos.

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O relatório realizado pela Dove concluiu que 92% das mulheres e 60% das meninas brasileiras desistem de realizar atividades importantes — ou até mesmo banais, como ir numa festa — da vida quando se sentem insatisfeitas com a própria aparência. A jornalista Thamires Tancredi, 26 anos, foi uma delas. Desde pequena ela sempre foi gorda, diferente do resto de sua família. Para ela, seu gosto distinto por roupas a diferenciava dos amigos e colegas, e não o seu peso. A percepção do quanto os padrões de beleza a afetavam surgiu quando ela entrou na adolescência e passou a não encontrar roupas para o seu tamanho. Nesse período de insatisfação e baixa estima, ela se tornou uma pessoa reservada. “Eu me fechava para as outras pessoas para que elas não reparassem em mim. Queria ser o mínimo notada para não me olharem e dizerem coisas sobre a minha aparência”, lembra. Além disso, as dietas também eram comuns para ela. Porém, foi no início da idade adulta que resolveu fazer a chamada dieta da proteína, super restritiva e pensada para apenas 15 dias. Thamires fez por quatro meses. O que resultou na perda de quase 25 quilos. Com os kg, ela perdeu também seu humor, sua vontade de fazer as tarefas básicas do dia a dia. Ela até mesmo parou de sair com seus amigos, já que se fossem em algum restaurante ou bar, ela não poderia comer nada.
Liberdade que vem de dentro
Existe uma palavra decisiva que cruza a trajetória dessas quatro mulheres: aceitação. Hoje, Júlia usa um cabelo black power, mas há três anos e meio a estudante de Jornalismo passa pela transição capilar (quando as mulheres param de usar química para alisar os cabelos e voltam a usar eles naturais). Como a pressão estética sempre esteve atravessada na questão da raça, Júlia percebe hoje que sua transição foi mais interna do que externa. Olhar para si como uma mulher negra e se aceitar assim foram os pequenos passos numa estrada que leva ao amor próprio. “É importante entender que essa parte do preconceito é racismo. Não é ligado ao cabelo, ele é uma consequência. O problema é a cor”, afirma.

É uma luta constante que para Júlia requer um lembrete do quanto sofreu para finalmente conseguir ver beleza em si. “Tento me lembrar todo dia de quem eu sou e do quanto eu lutei para me ver dessa forma. Eu sei que a sociedade ainda me lê de outra forma. Não me vê como padrão, me vê como exótico, diferente. É algo que vem de dentro pra fora”.

Para Kailã, graças à família, a questão da raça sempre esteve definida, apesar de ela precisar lidar com inúmeras situações de racismo fora de casa. Porém, foi seu corpo que ela não conseguia aceitar. “Sempre soube que não era um problema ser negra, mas que, por conta disso, eu precisaria me esforçar muito mais na vida. Mas eu acho que eu ser gorda sempre me incomodou mais. Talvez porque eu soubesse que era algo que eu poderia mudar”, confessa. As crises de anorexia e bulimia duraram cerca de três semanas, até a mãe de Kailã perceber e começar a monitorar a filha. Após a terapia, a publicitária conseguiu olhar para o seu peso de forma positiva e amorosa. “Primeiro foi aceitar meu corpo, entender que eu nunca vou ser uma Barbie e aceitar minhas “falhas” além da questão estética”, conclui.

Após perder os 25 quilos, e mudar seu jeito de ser, Thamires percebeu que não era aquela vida que ela queria. Não queria viver em função do corpo, se privando e deixando de ser quem realmente era. Para ela, é um processo que está longe de consolidar. Mas hoje, ela não deixa de fazer alguma coisa ou de vestir certas roupas. A jornalista, que só consegue usar biquíni tranquilamente há três anos, aprendeu a questionar suas inquietações a respeito de sua imagem. É além de uma resistência, uma liberdade. “O tamanho do meu corpo faz parte da minha história. Quando tu começa a te aceitar, tu também começa a ser quem de fato tu é”.

Foi no susto, após a reação alérgica, que Mafalda precisou criar coragem e aceitar seus fios brancos. Hoje, seus cabelos são compridos, diferentes dos cabelos brancos e curtos que algumas senhoras utilizam. Embora tenha surgido de uma necessidade, em função da saúde, foi também uma libertação. “Não sei como é que eu pintei tanto tempo, porque o processo não é nem um pouquinho agradável. Ficar 45 minutos com aquela tinta no cabelo, depois lavar, depois manter ele. É aquela prisão da tinta. Não foi por rebeldia que deixei meu cabelo branco e comprido. Mas se ele tá branco tá na hora de deixar branco, de aceitar”, conclui.

A importância de se enxergar no outro
“Talvez se eu tivesse tido essa representatividade durante minha adolescência, eu não tivesse desenvolvido transtornos alimentares, ou não sofrido tanto com isso”, relata Kailã. Essa é outra palavra que cruza a vida de três dessas quatro mulheres: representatividade. Hoje, é um termo que está em voga, mas anos atrás, enxergar seus corpos, pesos, cor e cabelos em revistas, televisões e filmes, poderia ter aliviado o caminho das três. Para Júlia, essa representatividade é também uma forma de empoderamento dentro do movimento negro. “Eu preciso abrir a página do meu Facebook e ver isso. Eu quero me ver nesses lugares, porque quando eu era pequena isso me foi negado. Não sei se o padrão vai mudar um dia, mas a gente está conseguindo se aceitar e eu vejo que as crianças de hoje estão se amando, como eu não fazia antes”, afirma. Hoje, vestindo manequim 48 e com um enorme sorriso, Thamires tem um blog chamado Um Plus a Mais, na Revista Donna, no qual fala sobre moda plus size e comportamento. Para ela, se enxergar em outras mulheres também foi um fator valioso para a aceitação. “Toda referência que aparece é incrível. Eu acho que é necessário questionar os padrões, pensar porque que eles tão ali. Por que não conseguimos ver beleza em outras pessoas?”.

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Texto e foto: Annie Castro
Fonte: Famecos/PUC-RS