Qualquer um poderia ser Maria

PUC-RS

Uma visita ao Hospital São Pedro revela que ainda há vida depois do manicômio

 


Corredor Hospital São Pedro

Maria está sentada em uma cadeira velha de madeira. Os braços pálidos estão cruzados nervosamente sob o corpo, ignorando o encosto lateral. A camiseta amarela fosforescente não é a única coisa que a diferencia das outras quatro idosas que estão na sala. Só ela nota a minha presença.

Estou no número 161 da Rua Paissandu, bairro Partenon, em Porto Alegre. A charmosa casa amarela é o lar de oito idosas que até 2013 eram residentes da primeira instituição psiquiátrica do Rio Grande do Sul. Criado em 1884, o Hospício São Pedro, atualmente denominado Hospital Psiquiátrico São Pedro, teve como missão asilar e tratar doentes mentais.

Durante os primeiros 20 anos de existência, o hospital atendeu cerca de 2.252 pacientes. A patologia mais recorrente nas internações era a psicose hétero-tóxica, conhecida hoje como alcoolismo. Na década de 1920, pessoas eram abandonadas pelas famílias no portão da instituição. Nos 40 anos seguintes (1928-1968), passariam pelo São Pedro 150 mil pessoas.

Dementes. Epiléticos. Espíritas. Vadios. Tuberculosos. Depressivos. Suicidas.

O conceito de doença mental no início do século passado era muito diferente. Tudo o que fugia dos padrões estipulados pela ordem pública da cidade não era bem-vindo. As prefeituras prezavam pela “normalidade” e a prática dos cinturões sanitários era comum. O que não coubesse na sociedade “sã”, era enviado para o manicômio.

Em consequência do amplo significado da psicopatologia, a demanda de um local que pudesse ser utilizado como depósito era grande. O historiador Edson Medeiros Cheuiche explica que por diversas razões, como condição social, falta de estrutura familiar e ausência de conhecimento sobre doença mental, qualquer pessoa que se tornasse um incômodo era direcionada à instituição. “Muitas vezes, quem trazia o paciente para o São Pedro não estava objetivando a cura, queria se livrar de um problema”, conta Cheuiche.

São os olhos atentos que chamam atenção. Maria tem personalidade paranoica, um transtorno que a faz ter desconfianças constantes. O diagnóstico explica o fato de seu quarto ser o único dos quatro dormitórios da casa a ter um cadeado pendurado. A tranca é sinônimo de segurança. Uma segurança imaginária. Com o cadeado, ela circula despreocupada pela casa, certa de que “ninguém” irá tocar em nada que seja seu.  

Aos 64 anos de idade, passou mais da metade da vida dentro do Hospital Psiquiátrico São Pedro. Lá, construiu um laço que guarda consigo até hoje. Foi por Neusa que teve coragem de ir morar fora dos extensos muros do hospital. A moldura artesanal lilás, que leva a foto das duas, se destaca nas paredes brancas do quarto de Maria, que dorme sozinha desde que a melhor amiga faleceu.

Faltam poucos minutos para as três horas da tarde quando paro em frente ao residencial Morada Paissandu. Quem vem me receber é Iracema Pipoca, a vira-lata que entrou para a família há poucos meses. O contraste com o antigo hospício é visível antes mesmo de atravessar o portão branco gradeado. Ao entrar na sala, a sensação de melancolia pode te pegar desprevenido.

Cinco idosas estão ali. Uma dorme encolhida em um dos sofás da sala. Outra parece prestar atenção no filme que passa na televisão. Duas estão sentadas em lados opostos da parede que vem do corredor, concentradas em suas próprias realidades. Maria me observa.

Reforma psiquiátrica

Desde sua criação, a superpopulação foi um problema dentro do São Pedro. Ao contrário do que se imaginava, com o passar dos anos a regulação social tornou-se mais intensa, e o número de pacientes asilados seguiu crescendo. Nos anos 1940, foram implementados novos métodos de tratamentos, como psicofármacos, eletrochoques e serviço social psiquiátrico. A intenção era reduzir o grande volume de internações que ocorriam diariamente. Mas, 20 anos mais tarde, o hospital chegaria ao seu limite. Na década de 60, mais de 5 mil pessoas estavam sob a guarda do São Pedro.

Não havia mais espaço. Não havia mais profissionais. Não havia mais recursos. Os resquícios de dignidade humana desapareceram. Começa, então, um grande movimento chamado de Processo de Interiorização, que tinha como objetivo realocar pacientes institucionalizados em suas cidades de origem. Progressivamente, a medida conseguiu diminuir cerca de 60% dos moradores do hospital.

O Rio Grande do Sul foi o primeiro Estado brasileiro a ter uma lei de reforma psiquiátrica. Em 1992, nove anos antes da aprovação da lei nacional, o Estado determinou, através da Lei n° 9.715, a proteção aos portadores de transtorno psíquico e a substituição progressiva dos leitos de hospitais psiquiátricos asilares por uma rede de atenção em saúde mental. A regulamentação brasileira surge em 2001, com a Lei Federal n° 10.216, que também determina a reforma psiquiátrica. A desinstitucionalização e efetiva reintegração de pacientes com doenças mentais na sociedade, entretanto, não é um processo simples.

Os residenciais terapêuticos foram criados com o objetivo de superar os complexos obstáculos que giram em torno da reinserção. Atualmente, existem cerca de 470 unidades em todo Brasil. Em Porto Alegre, o primeiro residencial foi inaugurado em 20 de maio de 2013. O Morada Paissandu abriga hoje oito idosas. Todas elas passaram a maior parte da vida dentro do manicômio. E a maioria, após a internação, só atravessou de volta os muros do São Pedro, quando se mudou para o residencial. A terapeuta ocupacional Lisiane Mello, que trabalha na casa desde 2013, explica que ainda existem muitos pacientes dentro do São Pedro que possuem condições de viver fora da instituição. “A maioria das pessoas que poderiam viver aqui fora tem medo. O estresse causado pelo o que é novo é comum em pessoas que viveram tanto tempo longe da sociedade”.

Atualmente, o Hospital Psiquiátrico São Pedro tem duas áreas de atuação: moradia e internação. A primeira oferece atendimento emergencial a pacientes psiquiátricos. São seis alas no total. Uma infantil, uma para adolescentes, duas para pacientes do sexo masculino, uma ala para mulheres e uma para dependentes químicos. A segunda área de atuação, a de moradia, é ocupada por pacientes institucionalizados que não apresentam condições de viver fora do hospital. São recorrentes os casos em que o paciente não tem nenhuma patologia grave, mas, por não possuir familiar que possa ou tenha interesse em se responsabilizar, acaba ficando sob custódia do Hospital.

Hoje, 102 pacientes ainda residem dentro do antigo hospício; 82 vivem em algum dos oito residenciais terapêuticos do São Pedro e 120 podem ser atendidos nas unidades de internação do hospital.

Maria demora um pouco a me dar confiança. Só no final da visita se sente à vontade para sentar ao meu lado. Mas não é ela quem me conta sua história. Prefere falar de coisas mais atuais, como os panos de prato que faz para vender e ganhar um dinheirinho. Lê bem, faz contas e anda sozinha pelo bairro. É uma virtude. Ao mesmo tempo, a capacidade mental que a moradora mais independente do Morada Paissandu possui é a mesma que a prejudica diante de um perito do INSS. Por não aparentar ter algum tipo de problema – quando jovem, chegou a cursar dois anos de magistério – ela é a única moradora da casa que não recebe o Benefício de Prestação Continuada da Lei Orgânica de Assistência Social (BPC/Loas), que garante um salário mínimo a pessoas com doenças mentais.

A uma parada de ônibus de distância do São Pedro, as idosas do Morada Paissandu levam uma vida normal. Cada uma, dentro de sua limitação, possui uma rotina comum. Saem pela manhã para comprar pão. Tomam chimarrão na frente de casa. Conversam com os vizinhos. Frequentam festas de idosos. E, quando a saudade bate, caminham sozinhas até o lugar no qual viveram por tantos anos.

Após décadas de um modelo equivocado de saúde mental, é possível enxergar naqueles sorrisos esperançosos uma vontade contagiante de viver. Pela sala da casa estão espalhados porta-retratos com fotos de quando conheceram a praia, no último verão. Nos quartos, cada uma guarda lembranças das festas de aniversários, natais e outras comemorações que passaram juntas.

No São Pedro também há vida

Quem passa em frente ao prédio com 12.324 metros quadrados, na Avenida Bento Gonçalves 2.460, Bairro Partenon, em Porto Alegre, vê um monumento à loucura. Porque o estigma de manicômio está impregnado em todas as decadentes paredes do São Pedro. Ao entrar nos pavilhões em ruínas, é inevitável sentir o peso que o lugar carrega.

A oficina de criatividade do hospital é um desses lugares que tentam colorir a existência de quem ainda vive onde tantas pessoas já morreram. Implementada há 28 anos, a oficina conta com aulas de pintura, costura, bordado, patchwork, argila e escrita. O objetivo é que pacientes, internos ou residentes, possam se expressar através da arte. O resultado de tantos anos de trabalho pode ser visto não só através dos prêmios, como o de terceiro maior acervo brasileiro de instituições psiquiátricas, mas também pelo desenvolvimento pessoal de cada paciente. Naquelas salas ainda há vida. Vida nas paredes velhas, mas rabiscadas a pincel. Vida nas mesas manchadas, mas que testemunharam a criação de grandes obras. Vida na possibilidade de afastar, mesmo que por um momento, o sofrimento interno da doença mental.

Os tempos do encarceramento da loucura parecem ter chegado ao fim. Mas os resquícios de um dos maiores problemas da saúde permanecem. Apesar da criação dos residenciais terapêuticos e das tentativas de reinserir os residentes do antigo manicômio na sociedade, ainda existe uma demanda grande de atendimento psiquiátrico no Brasil. Em Porto Alegre, o restrito atendimento no São Pedro não é suficientes para atender quem precisa.

Maria, agora, tem olhos profundos. Talvez tenha estado assim durante todo o tempo em que passei com ela. Não esqueço do olhar de Maria. Porque poderia ser o meu olhar. Poderia ser o seu. Porque qualquer um poderia ser Maria.

Autora:  Laís Dapper

Foto: Laís Dapper

Fonte: Famecos/PUC-RS