Psicólogas alertam para a facilidade de persuasão de influenciadores

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Carlinhos Maia, mais importante influencer brasileiro, disse a um adolescente em rede social: “Vai imbecil, vai se matar porque você nem começou a vida ainda”

Um influenciador com mais de 16 milhões de seguidores em apenas uma rede social deve ter muito cuidado e responsabilidade com o que diz aos fãs adolescentes, recomenda a psicóloga e especialista em fenomenologia Cláudia Andrade. Jovens fãs podem ser facilmente persuadidos pelo discurso do seu ídolo.

A declaração da psicóloga se refere à notícia de que o Influencer Carlinhos Maia utilizou o Instagram para comentar sobre fãs que o mandavam mensagens dizendo que pensavam em se matar. Na ocasião, o influencer que atingiu a um bilhão de impressões no Instagram em julho de 2018 disse em uma rede social: “Eu vejo meninos de 16 anos me mandando ‘eu quero me matar’. Vai imbecil, vai se matar porque você nem começou a vida ainda”.

Cláudia explica que “as massas estão sempre em busca de líderes que os conduzam e que sejam seus mentores”, e que isso, representa um risco não-calculado para ações impensáveis de seguidores de grandes influencers. Ressalta fatores que levam as massas a levar adiante discursos como esse: “Persuadir significa levar uma pessoa a acreditar em algo, isso se faz através da emoção, do processo de identificação, do desejo de se ter ou ser aquilo que o outro representa para um determinado grupo social. Nós vemos pessoas vestindo ou se comportando como jogadores de futebol e youtubers, por exemplo. Isso ocorre há muito tempo, mas atualmente o persuadir alguém se tornou mais fácil devido a propagação das ideias via redes sociais”, enfatiza.

A também psicóloga Ana Carolina Eboli Mediolaro ressalta que nesses casos há um perigo de uma pessoa pública afirmar frases como essa, tendo em vista que as massas se comportam de diferentes maneiras diversas a situações. “Depende muito do grau de vulnerabilidade de cada um, mas geralmente as crianças e adolescentes são mais receptivos às mensagens devido à uma falta de segurança em si mesmo e o autoconhecimento”, esclarece. Sobre o caso específico de Carlinhos, personalidade brasileira com mais visualizações no Stories do Instagram no mês de junho e segundo no ranking mundial, perdendo apenas para a socialite norte-americana Kim Kardashian, a profissional sugere que “todos os influenciadores repensem sobre suas colocações mantendo assim sua responsabilidade social.  E usar essa influência de maneira positiva para ajudar as pessoas em vez de prejudicar”.

Nos stories em questão, o influencer comentava com seus seguidores, que vinha recebendo mensagem de fãs dizendo que pensavam ou iriam se matar. “Eu vejo meninos de 16 anos me mandando ‘eu quero me matar’. Vai imbecil, vai se matar porque você nem começou a vida ainda”, disse. “Venha perguntar a uma mulher de 75 anos, que até hoje trabalha, sustenta os netos, que até hoje está varrendo o quintal, que está catando latinha na rua para sustentar os bisnetos, venha perguntar se ela se matou com 16 anos. Eu não sei os seus motivos, mas sei os delas”, completou.

Para doutora em Comunicação Social, professora da PUCRS e estudiosa de influenciadores, Karen Sica, “independente para quem ele estava falando, ele diz a frase em questão. As pessoas seguem estes influenciadores, acreditam no que eles falam, compram o que eles usam e fazem o que eles dizem. Claro, estou falando aqui de uma forma ampla. Há crianças, adolescentes, adultos. Se a pessoa já está perturbada por alguma questão, o fato de um influenciador o chamar de imbecil e incentivar o suicídio, certamente pode trazer uma consequência negativa. Se o Carlinhos é um influenciador e sabe que tem um grande alcance, ele deveria aproveitar esse ‘poder’ para influenciar algo positivamente, como incentivar as pessoas a cuidarem da saúde mental, procurarem ajuda de especialistas, visto que estamos no Setembro Amarelo. O número de suicídio cresce a cada ano no Brasil, apenas não é divulgado abertamente. Então, quanto mais pessoas trabalharem estas questões da forma certa, melhor”.

Karen também destaca a reação de outros influenciadores e de marcas sobre o caso: “Eu estava acompanhando o caso e vi vários outros influenciadores se manifestando contra a fala de Carlinhos, principalmente aqueles do mesmo nicho, como Felipe Neto. Muitos seguidores também não concordaram com o posicionamento do influencer. O canal Multishow também informou estar acompanhando o caso, visto que Carlinhos iria estrear um programa solo em 2020. Enfim, as redes sociais hoje favorecem a opinião das pessoas. Atualmente, as pessoas cobram as marcas que patrocinam estas pessoas quando há algum problema deste tipo, assim como cobram um posicionamento dos próprios influenciadores”, ressalta a professora.

Na sequência, após as críticas, o influencer respondeu, também nos stories da rede social: “Em momento nenhum eu estava incitando nada. O assunto não era depressão, era gente que quer desistir na primeira pancada e cobiça o que é do outro. Eu estava falando de um todo, de quando as pessoas mal começam a vida e levam um tombo. Não quem tem distúrbios psicológicos”, alegou Carlinhos. Em nota enviada ao Editorial J, a assessoria do Influencer diz: “Certamente, a independência de Carlinhos, decretada recentemente parece ter incomodado muito. Instigadas por alguém maldoso, com recursos e que já vem há tempos tentando desmoralizá-lo, as páginas de fofoca investiram em ‘meias verdades’ com o objetivo de destilar seu ódio e causar polêmica. As palavras foram distorcidas assim como o dia da publicação do vídeo que foi ainda em agosto, nada ligado à campanha do Setembro Amarelo. Carlinhos está bastante tranquilo, ciente que suas palavras, gestos e atitudes pregam o bem. Acredita que a verdade tem o poder de sempre prevalecer e que a justiça será feita. Agradece, de todo coração, o carinho, o apoio e o amor que sempre recebe de seus seguidores”.

A declaração de Carlinhos Maia repercute no começo de Setembro, mês de conscientização mundial sobre a relevância de se discutir a prevenção do suicídio. Neste ano, em especial, a Campanha Nacional, que marca as ações sociais e políticas referente ao tema, ressalta o fator primordial da atenção especial – com ênfase no bem-estar e na saúde mental – sobretudo de crianças e adolescentes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o suicídio é a quarta principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 a 29 anos. A pesquisa mais recente do Ministério da Saúde, de 2016, registra 11.433 mortes por suicídio no país, resultando em uma média de um caso a cada 46 minutos.

Autor: João Vargas

Imagem: Carlinhos Maia/Instagram

Fonte: Famecos/PUC-RS