Programa “E Agora, José?” reeduca homens autores de violência doméstica em Santo André

METODISTA

Em quase dois anos, 53 condenados pela Lei Maria da Penha participaram de encontros semanaisO projeto “E Agora, José?” é uma ação realizada pela Secretaria de Políticas para as Mulheres em parceria com o Fórum de Justiça de Santo André e a Coordenadoria de Reintegração Social e Cidadania da Secretaria Estadual da Administração Penitenciária. O objetivo é questionar como os papéis de gênero contribuem para legitimar as desigualdades sociais e a violência contra as mulheres.

A iniciativa completa dois anos em outubro deste ano e já reeducou 53 homens condenados pela Lei Maria da Penha (11.340/06) que completa 10 anos neste mês. Projetos como este estão previstos no artigo 35 desta lei, que estabelece a criação de centros de educação e de reabilitação para os agressores. A Secretaria de Políticas para as Mulheres informou, por meio de nota, que o trabalho realizado não consiste em psicoterapia e não substitui ações policiais, jurídicas, médicas e psicológicas de atenção à violência.

Somente casos menos graves, como lesões corporais, ameaças e perturbação de tranquilidade são revertidos no cumprimento de penas alternativas, sendo o “E Agora, José?” uma delas. Condenações por crimes mais graves, como homicídios ou tentativas de homicídios, resultam na prisão do autor de violência.

Em encontros que ocorrem semanalmente e reiniciam o ciclo após 20 semanas, o programa socioeducativo promove uma reflexão pedagógica que conscientize e responsabilize autores de violência doméstica. Os participantes têm idades variadas, de 20 a 70 anos, e pertencem a diferentes classes sociais. A equipe formada por psicólogos e sociólogos especializados em estudos de gênero reúne, a cada encontro, até 20 homens. Eles podem começar a participar das dinâmicas de grupo a qualquer momento, uma vez que os temas se repetem a cada cinco meses.

De acordo com a secretária de Políticas para as Mulheres, Silmara Conchão, a maioria dos homens condenados por penas leves não tem antecedentes criminais. Por isso, acabam ficando pouco tempo presos. “Eles são homens comuns. São empresários, bancários, motoristas, motoboys, advogados. Por causa do machismo da sociedade, acabam cometendo esses crimes. As mulheres, hoje, estão se afirmando cada vez mais, contestando o seu papel e afirmando seus direitos. Eles têm que rever e respeitar essa questão da igualdade”, disse.

Após a criação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, o número de atendimentos à mulher aumentou 80% na cidade. Silmara explica que isso sempre existiu, mas as ações de divulgação dos meios de denúncia, do Vem Maria e do “E Agora, José?” serviram para encorajar as mulheres e descortinar uma realidade que estava camuflada. “As mulheres sofrem sozinhas porque, na maioria dos casos, o autor de violência é uma pessoa conhecida. Então, é algo que envolve afeto, amor, dor e conflito. É o que a gente chama de ciclo da violência.”

Ao final do ciclo de encontros é feita uma avaliação para analisar se os homens mudaram o modo como enxergam a sociedade. Silmara afirma que é impossível ter certeza absoluta de que aqueles homens não irão cometer crimes de novo. “Nós investimos nesse processo de tomada de consciência, de mudança de visão de sociedade. Até agora, tivemos resultados positivos, já que não há casos de reincidência.”

 

Texto: LAÍS PAGOTO

Fonte: Metodista