Pingo de compaixão: a história do porquinho que foi do inferno ao Santuário

O animal chamado Pingo ganhou um novo lar no feriado do dia 20, graças à ONG Santuário Voz Animal

Um porco, com poucos meses de vida, foi encontrado à beira da estrada BR-290 em Eldorado do Sul no início de julho deste ano. Uma moradora local resgatou o animal machucado e contatou voluntários da ONG Santuário Voz Animal, que abraçaram a causa. Os exames apresentaram um rompimento ósseo medular em sua coluna, o que praticamente inviabiliza a recuperação dos movimentos das pernas traseiras, impedindo-o de caminhar normalmente. O contexto que levou Pingo até ali é um mistério, suspeita-se que estava sendo transportado em um caminhão que, posteriormente, iria para o matadouro, devido à forte presença da indústria do abate, principalmente clandestino, na região. 

Antes de ir para o Santuário, o porquinho ficou 3 meses em Porto Alegre, onde passou por cirurgia. A “Operação Pingo” só foi viabilizada graças a uma corrente do bem formada na capital gaúcha, a qual possibilitou ao animal lares temporários e caronas para os locais necessitados. Durante esse período, Pingo passou por  mais de 15 casas e fez uma visita inusitada à Escola Municipal Deputado Victor Issler proporcionada por uma de suas “mães” Carine, onde foi o grande protagonista da contação de histórias para as crianças.

Crianças interagindo com o Pingo depois da contação de histórias. Foto: Lara Moeller (30/08/2019)

O Santuário Voz Animal foi uma iniciativa familiar, fundada por Fernanda Ellwanger, que usufrui da estrutura do sítio que antes era usada pelo pai para criar e comercializar cães. Ela, junto com a mãe, acolhe animais abandonados há mais de uma década, mesmo que o projeto não tenha sido planejado inicialmente, resultou na criação da ONG. Autodenominada vegana, antiespecista, abolicionista e com o propósito de que toda vida importa, existe, oficialmente, há 2 anos. Atualmente, abrigam cerca de 300 indivíduos, entre eles 150 aves, equinos, bovinos, ovinos e suínos, como o Pingo, disponíveis para apadrinhamento. O benefício de se tornar padrinho é a possibilidade de visitar a sede e seus afilhados, já que a entidade não é aberta ao público. As visitas acontecem quinzenalmente e recebem 12 pessoas por vez, pois o objetivo é manter um ambiente confortável para os animais. Além dos apadrinhados, quase 120 cães e gatos vivem lá e a maior parte espera ser adotada, contudo, os processos utilizados pela instituição são bastante criteriosos para evitar a necessidade de resgate de animais já amparados por outros donos. 

 No feriado (20), Pingo finalmente voltou para Eldorado do Sul para conhecer seu novo lar. Ele, que já ganhou 20 kg desde o resgate, recebeu um espaço pensado para sua necessidade. Com gramado e areia fofa, ele pode se arrastar pelo recinto, onde já conheceu seus vizinhos e pôde fazer o que mais gosta, tomar banho de lama, tudo devidamente registrado em seu instagram @pingodecompaixao. Uma cadeira de rodas adaptada ainda é testada para que o animal possa se locomover com mais facilidade, porém, faz com que ele force o local da ruptura, tornando-se inviável devido seu crescimento. Um porco adulto pode atingir até 150 kg, logo, o recomendado por seu veterinário para que se desenvolva é como está agora, se apoiando nas patas dianteiras e se arrastando.

Fernando Antunes com o Pingo, no Santuário Voz Animal. Foto: Fabrizio Arriens

A entidade tem custo mensal estimado de 12 mil reais que é pago, além do dinheiro arrecadado pelas doações e apadrinhamentos, com o salário da Fernanda, servidora pública no Detran, e de seu marido e co-fundador Fernando Antunes, professor universitário. Com a chegada de Pingo, a despesa prevista subiu para 14 mil mensais, já que ele necessitou de meses de fisioterapia e inúmeros medicamentos para aliviar sua dor, muitos desses gastos ainda não foram quitados. “Às vezes a gente deixa de comer, comprar roupa para pagar as contas, e mesmo assim, acontece de atrasarmos. Já tivemos que fazer alguns empréstimos para conseguir”, relata Fernando. O desejo dos fundadores é de que a ONG, que ainda está em fase de profissionalização, torne-se autossustentável. O Santuário ainda necessita de muito apoio financeiro para cuidar de seu novo integrante, quem se interessar em ajudar pode apadrinhar o porquinho no site, além de se tornar voluntário. “É um projeto que precisa urgentemente de padrinhos, pois está esgoelado financeiramente”, ele conta. No instagram @sant_vozanimal, pode-se conhecer mais sobre o trabalho feito pela entidade e mais histórias de resgate como essa.

Autor: Felipe Conte, Lara Moeller e Fabrizio Arriens

Fonte: Famecos/PUC-RS.