Pessoas com TOC devem ter cuidados redobrados com o isolamento social

Atos repetitivos como lavar as mãos mais vezes que o necessário podem levar a lesões

Pessoas com TOC devem ter cuidados redobrados com o isolamento social

A Organização Mundial da Saúde aponta que 2,5% da população mundial sofre de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). No Brasil, segundo a organização, são mais de 4,5 milhões de habitantes diagnosticados com o transtorno, que já se encontra entre os dez motivos mais importantes de comprometimento por doença. O TOC é caracterizado por pensamentos, medos ou preocupações repetitivas e involuntárias, que geram grande ansiedade. De acordo com o psiquiatra Florisvaldo Torres, que atende na Clínica Três Mentes, na cidade de São Paulo, “para aliviar essa ansiedade os pacientes normalmente passam a ter comportamentos repetitivos e o isolamento por causa da COVID-19 pode agravar os sintomas”.

Torres afirma que existem muitos tipos de obsessões, mas as mais comuns são “medo de se contaminar com algum germe ou sujeira, medo de cometer algum ato violento ou causar dano à alguém, pensamentos intrusivos de conteúdo sexual ou religioso e preocupação excessiva com simetria. Esses pensamentos mais comuns geram comportamentos repetitivos de limpeza, lavagem, verificação, ordenação ou atos mentais como orar, contar ou repetir palavras em silêncio”. 

O especialista diz que o estresse causado por um quadro involuntário de isolamento social em pessoas que sofrem de TOC pode agravar os sintomas já existentes e propiciar o surgimento de novos transtornos psiquiátricos associados, como por exemplo a depressão. 

Gabriel Lopes de 22 anos, morador da cidade de Santo André e estudante de arquitetura na Universidade de São Caetano do Sul, diagnosticado com TOC, se encontra há três meses isolado em casa, devido a pandemia do novo coronavírus, e explica que o seu dia a dia em tempos de isolamento é muito complicado. “Antes mesmo da COVID eu já usava o álcool gel e lavava as mãos de maneira extremamente repetitiva”. “Eu não consigo sair do quarto se meu álcool gel não estiver comigo, e atualmente eu ando tomando três banhos por dia. Só consigo me aliviar assim”. Gabriel relata que não consegue sair de casa de forma alguma, pois tem muito medo de se contaminar. “Eu não consigo sair de casa nem para pegar entregas de comida. Começo a descer as escadas e já sinto que algo ruim vai acontecer”.

Pedro Alves, de 21 anos, morador de São Bernardo do Campo e estudante de economia na Universidade Federal do ABC, também sofre de TOC. Chegando ao terceiro mês de isolamento, para Pedro, lavar as mãos é um alívio e um incômodo ao mesmo tempo. “Eu lavo minhas mãos e passo álcool gel nelas incontáveis vezes ao dia. Elas ficam muito ressecadas e acabam surgindo feridas que doem a cada vez que eu passo mais álcool. Eu tento diminuir as vezes que lavo as mãos e aplico o álcool, mas é involuntário, quando vejo já estou fazendo novamente”.

Pedro conta que se concentrar nos estudos em casa também é um desafio, pois sempre tem vontade de ajeitar seu quarto e limpá-lo, fazendo com que se distraia facilmente. “Estudar em casa é muito complicado. Sempre estou ajeitando enfeites em prateleiras, deixando os livros de forma simétrica na mesa e limpando qualquer coisa que esteja minimamente suja”.

O psiquiatra Florisvaldo Torres aconselha “manter uma rotina de trabalho, atividades físicas, boa alimentação, boa qualidade de sono e contato frequente com a rede de amigos e familiares”, é essencial para que pessoas com TOC aliviem o sofrimento de estarem isoladas. “Manter o tratamento com medicamentos e acompanhamento psicoterápico” são essenciais durante o isolamento, completa o especialista.

Autor: Arthur Ferrari.

Fonte: Metodista