Pesquisa aponta que usuários de transporte público em São Paulo avaliam o combate a assédio como ruim ou péssimo

Com o objetivo de tentar inibir o problema, mulheres se encontram em estações e pontos de ônibus
Pesquisa aponta que usuários de transporte público em São Paulo avaliam o combate a assédio como ruim ou péssimo
A falta de respeito com as mulheres ainda é presente no cotidiano – Foto: Luchelle Furtado

Segundo o levantamento feito pela Rede Nossa São Paulo, 51% dos usuários de transporte coletivo na cidade avaliaram a atuação do poder público no combate a casos de assédio sexual como ruim ou péssimo. A pesquisa foi feita com 800 moradores de todas as regiões da capital paulista.

Os tipos de delitos que podem ocorrer dentro de transportes públicos são muitos, desde furto, abuso, lesão corporal ou morte. O especialista em segurança pública Ronaldo Aracri, ressalta as medidas que deveriam ser tomadas para evitar os males ocorridos. “Deve ter uma repressão mediata, ou seja, o suposto agente do delito, o criminoso tem que ter a certeza que vai ser punido se for pego. Além disso, o infrator deve ter a certeza de que vai ser pego e o processo que vai julgá-lo e colocá-lo na cadeia vai ser rápido e que ele vai cumprir a pena.”

Para Aracri, a situação que nos encontramos é uma bola de neve por não termos confiança e segurança nas ações que são tomadas ao nosso redor. “A sociedade não acredita no sistema, então ela acaba não colaborando para identificar os criminosos e também tem medo de represália, porque não acredita que o sistema vai protege-la. Todos esses fatores vão de encontro para solucionarmos esses problemas.”

Essa insegurança presente em lugares públicos fez com que grupos de mulheres crescessem nas redes sociais, para se reunirem em pontos de ônibus e estações de metrô em busca de evitar e tentar se proteger do assédio e abuso sexual.

Panfleto do ato organizado no MASP

É o caso do grupo “Elas por Elas SP”, que começou como uma reação aos casos de estupro que estavam acontecendo na região da Vila Mariana há aproximadamente dois meses. A estudante e uma das organizadoras do movimento, Maria Clara Giannini, 18, conta que a ideia inicial do projeto foi criar um grupo no WhatsApp para que mulheres que fizessem o mesmo caminho na rua tivessem companhia em busca de mais segurança. “Em uma hora tínhamos sete grupos lotados no WhatsApp [cabem 256 pessoas em cada]. Então decidimos criar um perfil no Instagram e no Facebook para atingir mais meninas. Em dois dias tínhamos mais de 20 mil seguidores e um ato organizado no MASP”.Maria Clara conta que o objetivo era ajudar na proteção da mulher no transporte público, chamar a atenção da sociedade e do Estado. “Queremos que as pessoas percebam todas as dificuldades que as mulheres enfrentam diariamente nas ruas e no transporte público. As vezes essa realidade pode estar bem distante da vida de algumas pessoas.”

A estudante conta que a mobilização das mulheres foi fundamental e que o grupo ajuda no fortalecimento da luta contra essas dificuldades. “Muitas pessoas perceberam que não estão sozinhas nessa luta e que não são as únicas que se importam e se preocupam”.

Mulheres unidas

“Me sinto mais segura, pois sei que quando precisar posso marcar com alguém ou tirar alguma dúvida, e fica mais fácil de saber o que está acontecendo”, é por esse motivo que a estudante de nutrição Samantha Vaz Gandra, 19, começou a participar do grupo Elas por Elas SP. Moradora de Mauá, na região do Grande ABC, apesar de não participar com tanta frequência, reconhece a importância do movimento.

Mulheres reunidas em protesto contra os casos de assédio no transporte público

Outra participante é a estudante Larissa Cristina dos Santos, 18, que descobriu o grupo através do Instagram, por se interessar em páginas de empoderamento feminino e por ter passado por duas situações, uma de assédio e outra de tentativa de sequestro.Larissa conta que certa vez ao sair da faculdade em Santana às 23:00 ao chegar no Brás, um homem a abordou e coagiu para que ela o acompanhasse. “Um homem encostou em mim e pediu para que eu fosse com ele até a saída, mas felizmente estava com uns guardas na plataforma da luz. Foi quando tomei coragem pra me soltar e ele continuou seguindo como se nada tivesse acontecido”.

O outro caso aconteceu quando a estudante estava no ônibus e um homem tentou contra a vontade dela agarra-la. “O homem explicitamente tentava se encoxar em mim, se esfregando de verdade, eu empurrava, pedia licença, mas em qualquer oportunidade ele tentava”.

Larissa ressalta que com o grupo se sente mais segura por estar acompanhada de outra pessoa. “Por ser mulher o risco de simplesmente andar em um trem, ou ir até o trem, é tremendo, não estamos impunes de nada em lugar algum, não é generalização, mas é o meu cotidiano, acho que esse projeto além de segurança, deu uma certa confiança em sair de casa sabendo que vai ter alguém pra ir com você.”

*Esta reportagem foi produzida por estagiários da Redação Multimídia da Universidade Metodista de São Paulo

Autor: Luchelle Furtado

Fonte: Rudge Ramos Online/Metodista