Participação feminina na política em São Bernardo é menor do que a média nacional

Com 52% do eleitorado feminino, cidade elegeu apenas uma vereadora em 2016; “candidaturas laranja” justificam a baixa votação

Participação feminina na política em São Bernardo é menor do que a média nacional

Nas últimas eleições municipais, em 2016, a média nacional de mulheres eleitas foi de 13,43%. Os dados apresentados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que em São Bernardo o número de representantes femininas na política é bem menor do que a média no país e no Estado de São Paulo. A proporção de mulheres eleitas foi de 3,5% na cidade, contra 8%, no estado. Naquela ocasião, entre as 28 cadeiras disponíveis na Câmara Municipal, apenas uma foi ocupada por mulher.

Apesar da maioria do eleitorado ser feminino, cerca de 52%, a baixa representatividade delas na política de São Bernardo vem ocorrendo há anos. De acordo com as informações disponibilizadas no site oficial da Câmara Municipal, entre as eleições 2000 e 2016, o cargo de vereador foi ocupado por apenas três mulheres com mandato na mesma época.

Selo eleições

Segundo a socióloga da UFABC Arlene Ricoldi, a dificuldade da mulher se relacionar com a esfera pública acontece por conta de um processo histórico. “Elas são as principais responsáveis pelo cuidado doméstico, pela casa e crianças”, explica.

Para a professora de políticas públicas da UFABC Carolina Gabas Stuchi, o ponto principal para a baixa representatividade de mulheres na política é a falta de incentivo dentro dos partidos. “Todos são coordenados e compostos majoritariamente por homens. A organização interna decide quais serão as candidaturas, quanto investir, o engajamento, o apoio e o protagonismo de cada um”, diz.

Cota de gênero

A participação feminina no ambiente político entrou para a legislação eleitoral em 2009, com a cota de gênero, popularmente conhecida como “cota de mulher”. A lei exige que cada partido tenha no mínimo 30% e no máximo 70% de candidaturas reservadas para cada gênero. O TSE também estipulou que os partidos destinem 30% do tempo de propaganda eleitoral gratuita e dos repasses do fundo partidário para a candidatura de mulheres. “A cota é bem-vinda, mas enquanto não criarem condições efetivas para as mulheres conciliarem família e trabalho, elas terão maior dificuldade para participar do meio político”, afirma a socióloga Arlene Ricoldi.

As novas regras adotadas para estimular a participação feminina dentro dos partidos foi uma maneira de minimizar as candidaturas laranjas, que ocorrem quando o partido registra a candidata por causa da cota e não faz a devida campanha para a candidata. Em 2016, o levantamento do TSE mostrou que em todo o Brasil 14.417 mulheres se candidataram e não receberam votos. O estado de São Paulo foi o terceiro com o maior número de candidatas falsas, num total de 1.643 candidaturas zeradas.

De acordo com a professora Carolina, a criação da cota foi uma forma de obrigar os partidos a incluírem mulheres como representantes, mas na prática o sentido de sua implementação se perdeu. “A falta de interesse por mais mulheres na política persiste e os partidos enxergaram as cotas de 30%, que deveriam ser o mínimo de candidaturas femininas, como um limite”.

Outra observação da professora de políticas públicas é em relação aos esquemas de candidaturas laranjas, em que os partidos usam os recursos que seriam das candidatas para outros interesses. “Quando são reais, as candidaturas de mulheres recebem menos apoio em relação aos candidatos homens. Nesta perspectiva, é possível entender que se os partidos não são democratizados, os resultados eleitorais também não serão”, conclui.

Autora: Carolina Fim

Fonte: Metodista