Padrinhos do coração

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Projeto de Apadrinhamento Afetivo ajuda futuros adultos em situações de vulnerabilidade social a criarem um laço familiar

“A origem da palavra abrigo deve estar na junção das palavras abraço e amigo”. A frase está grafitada no muro da sede da Fundação de Proteção Especial (FPE), no Bairro Ipanema, Zona Sul de Porto Alegre. Diferentemente das outras 35 unidades mantidas pela instituição, o espaço tem sete casas que abrigam, como em um condomínio, adolescentes a espera de um padrinho que dê a eles o carinho e a atenção que não tiveram da família.

Diversas crianças e adolescentes circulam pelo local cercado de árvores e casas coloridas. Casas verdes, rosas, roxas e azuis, além do prédio onde funciona a secretaria, as enfermagens e as salas de aula. Há quase o mesmo número de meninos e meninas, em sua a maioria negros.

O prédio antigo da Fundação apresenta situação precária e parece ter parado no tempo. Paredes mal pintadas, móveis envelhecidos e salas pouco arejadas são características do local. Inimaginável para quem passa pela Rua Dea Coufal, 878, em Ipanema. O local é de difícil acesso. É difícil identificar que se trata de um abrigo de menores. Não há placas para acessar o lugar.

As crianças e os adolescentes circulam livremente pela área, que lembra um bairro. O espaço entre as casas é de uso comum, cercado por bancos, árvores e praças. Eis o principal diferencial desta sede, onde há pessoas de diferentes histórias e origens, mas que estão lá por motivos semelhantes. Alguns são abandonados pelas famílias, outros são retirados delas por diferentes motivações, mas todos esperam ser apadrinhados, esperam alguém que possa dar carinho e a atenção que não receberam em casa.

Helena Silveira, 64 anos, funcionária pública aposentada, viúva e mãe de um rapaz de 25 anos, resolveu, há seis anos, entrar no programa de apadrinhamento. “Eu sempre trabalhei em período integral. Pouco antes de me aposentar, resolvi dedicar meu tempo a alguma atividade diferente, voluntária, para poder ajudar outras pessoas. Como tive apenas um filho, resolvi tentar algo que envolvesse crianças”. Helena apresentou a ideia ao filho, e os dois foram em busca de lugares que realizassem apadrinhamento.

“A primeira vez que o Matheus, hoje com 15 anos, esteve na nossa casa era uma noite de Natal. Eu perdi meu marido há 17 anos. Então, só tinha meu filho para partilhar esses momentos em família. Quando o Matheus veio até a minha casa, foi uma alegria enorme. Foi bom para nós e para ele. Sempre tentei fazer passeios e uma atividade diferente e educativa com ele. Realmente parecia parte da família, foi assim que sempre tratamos”.

Corredor que leva à secretaria do local

Assim como Matheus, centenas de crianças sem perspectiva de adoção lotam os abrigos, as fundações e os orfanatos no Rio Grande do Sul. Segundo o Tribunal de Justiça do Estado, 644 crianças e adolescentes estão aptas a serem adotadas. Destes, 358 estão em processo de adoção, sendo 315 menores de 10 anos de idade. Com o objetivo de criar um convívio mais humanizado, o programa de Apadrinhamento Afetivo foi criado em 2001. Nele, pessoas da comunidade se tornam padrinhos de pequenos em situação de risco, geralmente entre cinco e dezoito anos, e ajudam a fortalecer a ideia de família perdida ao longo do crescimento.

No Rio Grande do Sul, o Apadrinhamento Afetivo é realizado em sete abrigos mantidos pela FPE, entidade do Governo do Estado que tem como missão assegurar os direitos das crianças e adolescentes. Para se tornar um padrinho, a pessoa deve seguir algumas regras:

– Ser maior de 18 anos;

– Não estar na lista de adoção;

– Ter, no mínimo, 12 anos de diferença com o possível apadrinhado;

–  Realizar o curso de capacitação;

– Passar por uma avaliação psicológica e não ter antecedentes criminais.

O adulto pode ficar com a criança por tempo indeterminado, porém o processo de adaptação é feito gradativamente. Primeiro os encontros ocorrem no próprio abrigo e, aos poucos, pode-se levar a criança ou adolescente para passar finais de semana na casa da família, nos feriados ou nas férias. Quando a convivência se torna diária, e o laço afetivo é estabelecido de maneira com que os dois se enxergam como família, a criança pode ser adotada pelo apadrinhado. Quando há o interesse na adoção, o padrinho, que não pode estar cadastrado na lista de espera, ganha privilégios na hora de oficializar o processo, uma vez que a criança não tem mais nenhuma perspectiva de adoção.

Abrigos mantidos pela prefeitura de Porto Alegre ainda não aderiram ao projeto. Segundo a chefe de gabinete da Fundação de Assistência Social e Cidadania, Fernanda Moraes, havia um projeto de adesão ao Apadrinhamento Afetivo, porém não pôde dar continuidade por questões orçamentárias. Hoje, a previsão é de que o programa seja implementado em 2017.

Mais de mil crianças participam do projeto e há 256 adultos cadastrados no sistema. No Núcleo Residencial Zona Sul, em Ipanema, local que acolhe 76 crianças e adolescentes, além de sete adultos com deficiências mentais, o apadrinhamento se transformou em um aliado no quesito de reinserir crianças na sociedade.

Grafite ilustra a entrada da Abrigo da FPE, na Zona Sul de Porto Alegre

Lourenço Rodrigues, funcionário do local há mais de um ano, diz que, se fosse possível, o Núcleo atenderia todos os pedidos de acolhimento. “Infelizmente, não podemos ficar com todos. Quando atingimos nossa capacidade máxima, não aceitamos mais ninguém, temos que encaminhar para os demais abrigos do governo”. O encaminhamento é realizado pelo Juizado de Menores. A realocação acontece a partir da proximidade de moradia da criança. A realidade dos abrigos mantidos pelo poder público pode ser chocante para quem não está acostumado com outras formas de vida. Falta de repasse de verbas e racionamento de mantimentos, energia e água são comuns.

A organização não governamental Amigo de Lucas é outro local que tem a oportunidade de mudar a vida de uma criança. Fundada em outubro de 1998, é pioneira no processo de combate ao abandono de menores. Segundo a presidente Rosi Prigol, a ONG é a única instituição sem ligação ao governo que tem autorização judicial para funcionar. “Operamos por meio de um termo de cooperação com Ministério Público, Governo do Estado e Tribunal de Justiça. ”

Desde 2002, a ONG já atendeu 1.160 crianças e adolescentes. Atualmente, ajuda 460 crianças e espera que 50 participem do projeto de reintegração familiar. Para a presidente, o projeto de apadrinhamento traz resultados que mudam a vida dos pequenos. “O Instituto Amigos de Lucas elenca como objetivos esperados o de gerar nas crianças e adolescentes uma autoestima desenvolvida, mais segura em seus relacionamentos sociais e afetivos, consciente de sua cidadania, para que exerçam sua crítica e participação no processo de mudança social”.

Rosi considera muito importante que os possíveis padrinhos tenham consciência do tamanho da responsabilidade que estão assumindo a partir do momento que se voluntariam. “Conscientizar os adultos da importância da troca afetiva com seus afilhados é essencial para dar uma nova dimensão de contribuições solidárias a eles”.

Assim como na FPE, quem for até o Instituto Amigos de Lucas deverá realizar alguns passos até apadrinhar uma criança efetivamente. O processo é complexo. Segundo Rosi, é necessária uma inscrição prévia, avaliação da ficha cadastro, participação em oficinas, entrevistas psicológicas e construção de afeto na prática.

Ter direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade é assegurado às pessoas através do Artigo 22 da declaração dos Direitos Humanos. Seja criança, adolescente, adulto ou idoso.

Texto: Ana Paula Abreu e Renata Saraiva
Foto: Ana Paula Abreu
FONTE: Famecos/PUC-RS