Pacientes sofrem com a espera na maior emergência hospitalar de Porto Alegre

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O sofrimento de quem depende do atendimento médico de urgência pelo SUS e a opinião de especialistas sobre a situação da saúde pública

“Estou aguardando há quatro horas”. “Não aguento mais a dor”. “Estou cansado”. “Passei pela triagem há mais de duas horas e ainda estou esperando”. “Sou o número 128”. “É um descaso com os doentes”. “Quero ser atendida logo”.

Ouvimos essas e outras reclamações na emergência do Hospital Conceição, a maior de Porto Alegre. Fato que nos levou a escolher por ela. Lá, são atendidos em média 250 pacientes diariamente por uma equipe de, no mínimo, 11 médicos. Assim, o fluxo de pacientes é constante. E a situação se agrava devido à alta demanda de procedimentos. Há filas, muitas pessoas em pé, sentadas e até deitadas sobre as 55 cadeiras espalhadas e oito bancos do local.

Em uma de nossas idas ao pronto-socorro, durante uma tarde do mês de outubro, a espera estava dentro do estipulado pelo Protocolo de Manchester, o sistema de atendimento utilizado pelo hospital. O processo concede limites de tempo para cada um dos níveis de prioridade clínica, indicados por cores. Vermelho requer ação imediata; laranja, o paciente deve ser atendido em até 10 minutos; amarelo, em até 60 minutos; verde, em até 120 minutos; e azul, em até 240 minutos. Neste dia, era possível aguardar sentado, pois algumas cadeiras estavam livres. Mas exaustão era perceptível nos olhares das pessoas, que passavam horas aguardando pela consulta.

Além da espera, outra questão chamou atenção: não havia papel higiênico no banheiro masculino. No banheiro feminino havia papel, mas o problema eram as condições de higiene. O piso estava molhado e o vaso, sujo.

Questionamos a Gerência de Pacientes Externos (GEPEX) do Hospital, e Carlos Descovi, responsável pelo setor, afirmou que a higienização é constante, mas por conta do fluxo constante de pessoas, eles podem momentaneamente estar fora das melhores condições de uso. Entretanto busca-se solucionar com rapidez assim que constatado o problema. Ele contou que esses espaços também sofrem com vandalismo e furto de equipamentos, o que muitas vezes acaba por prejudicar o ambiente destinado aos usuários.

Com cerca de 250 atendimento por dia, a emergência do Hospital Conceição é a maior de Porto Alegre

Com cerca de 250 atendimento por dia, a emergência do Hospital Conceição é a maior de Porto Alegre. Foto: Larissa Schwade

Às 14h30 do dia seguinte, o local estava caótico. O ambiente estava completamente lotado, com pessoas por toda parte, sentadas nas cadeiras, nos bancos do lado de fora da emergência e em pé, se amontoando. Notamos o cansaço e o abatimento no rosto de cada paciente. Algumas pessoas estavam dormindo nas cadeiras, outras deitadas, todas exaustas pela demora do atendimento. A espera pela consulta levava em média cinco horas. Notamos também a frequência de carros, vans e ambulâncias de outras cidades que traziam pacientes para a unidade de urgência do Hospital Conceição.

Descovi explicou que os tempos protocolares são respeitados, o que pode eventualmente ocorrer é uma espera maior para reavaliação dos pacientes que carecem do resultado de exames laboratoriais ou de imagem.

Tânia Diviz, de Não-me-Toque, estava aguardando a consulta do seu marido desde as 7h30 da manhã. “Ele estava com uma lesão na língua e já havia sido avaliado por mais de três médicos”, relata Tânia. Segundo ela, os profissionais ficaram de marcar uma nova consulta para que ele pudesse retornar e ser atendido. Enquanto isso, era necessário aguardar.

A espera também era longa para Leda Flores. Ela estava desde as 10h acompanhando seu pai, que tem 84 anos e está com câncer. “Meu pai precisa consultar com o urologista, mas eles falaram para aguardar, pois o médico ainda não tinha descido para atender aqui”, relatou, após mais de duas angustiantes horas de espera.

Ao seu lado, uma jovem que estava com 39 graus de febre, tinha passado pela triagem e sido informada de que só receberia tratamento quando a febre atingisse 40 graus. Enquanto aguardava, cochilava deitada sobre duas cadeiras. O responsável pelo GEPEX, no entanto, diz estranhar esse relato.

“Não há nenhum fluxo de atendimento que preveja que o paciente aguarde sua condição piorar para acesso a atendimento, podendo o usuário buscar reavaliação a qualquer momento durante a espera para atendimento médico”, explica Descovi.

Perto dali, Jhenifer Padilha esperava há mais de duas horas pela liberação da mãe, que chegou no hospital com pressão alta e foi diretamente encaminhada para fazer exames. A estudante de 25 anos relatou que a avisaram que sua mãe estaria liberada até as 19h, e que os exames estariam prontos.

A raiz do problema
“O problema da saúde não está na emergência. Ela é uma vítima da pressão, da demanda, por conta de não ter uma rede de suficiente resolução e credibilidade”, relata o professor e mestre em Saúde Pública da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Marlow Kwitko. Para ele, a solução está na consolidação da rede. Por exemplo, dividindo as consultas nos postos de saúde, nas Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e no Projeto Saúde da Família.

“Aqui na cidade eles ainda não estão suficientemente distribuídos, só deveria aparecer na emergência pessoas com risco de vida”, afirma Kwitko. Na visão dele, a maioria dos casos tem soluções simples, não é complexa na tecnologia necessária, então os postos de saúde resolveriam com o equipamento que tem.

Marlow Kwitko é diretor acadêmico do Hospital da PUCRS. Ele ressalta que isso é um problema de todos os hospitais, “inclusive do nosso”.

Para o coordenador do curso de especialização em Saúde pública da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Roger Rosa, os pronto-socorros não deviam nem precisavam ser assim. “É necessário reforçar as redes de atenção primária à saúde e atividades de promoção à saúde, e humanizá-las, por exemplo, com a simples colocação de mais bancos para as pessoas aguardarem, a instalação de cortinas para maior privacidade dos pacientes, a identificação pelo nome social e não por número“.

Segundo ele, tais atitudes, como respeito, cuidado, atenção, receptividade e escuta qualificada das queixas, quando incorporadas nos serviços, os tornam mais “humanos”, sobretudo em situação tão crítica quanto em uma emergência”, destaca Roger.

Texto: Larissa Schwade e Guilherme Lima
Foto: Ana Carolina Lisboa e Larissa Schwade
 FONTE: Famecos/PUC-RS