Outra forma de escravidão

Em uma entrevista publicada em outubro de 2012, o jogador brasileiro de futebol Raí falou com satisfação que, durante o tempo em que jogou no Paris Saint Germain, na França, a filha dele frequentava a mesma escola de altíssima qualidade que a filha da empregada. Naquela ocasião, Raí se perguntou se não seria possível, aqui também, o filho do trabalhador estudar na mesma escola que o filho do patrão. E mais: o que devemos fazer para que essa se torne a realidade no nosso país, como já ocorre na França e em outros lugares do mundo em que a economia cresce com plena estabilidade social? Por que ainda não fomos capazes de fazer isso?

O futuro de cada país decorre da formação de seus cidadãos, da capacidade de usar o potencial de seus cérebros. No Brasil, não haverá futuro se continuarmos a desprezar a formação intelectual de nossas crianças até a idade adulta.  Não é difícil supor o que pode acontecer: mais uma vez ficaremos para trás entre os maiores países do mundo, como ocorreu há alguns séculos, quando insistimos no absurdo da escravidão, mantendo a desigualdade e impedindo o país de usar o potencial do trabalho livre de cada brasileiro por mais de trezentos e cinquenta anos.

Dos mais de três milhões de brasileiros que nasceram em 1995, todos agora com 22 anos, no máximo mil estão caminhando para se tornarem bons cientistas, filósofos, escritores, em nível internacional. E desses uma boa parte está emigrando para desenvolver a ciência e a tecnologia em outros países.

Sem educação de qualidade para todos, não teremos o futuro de produtividade na economia, que permita a necessária riqueza para sair da pobreza, nem o potencial de inovação capaz de dar ao Brasil a competitividade necessária para enfrentar a globalização. Sem educação com a mesma qualidade para todos, estaremos desperdiçando cérebros e mantendo a vergonha da desigualdade social que nos caracteriza, desde os tempos da escravidão, pela cor da pele, e agora a escravidão pela ausência de educação.

Para fazer a educação ser de alta qualidade e igual para todos, basta uma carreira nacional do magistério suficientemente bem remunerada, para atrair os melhores jovens para esse trabalho, exigindo deles dedicação exclusiva e avaliação de desempenho. Esses professores e seus alunos devem dispor de escolas com belos e confortáveis prédios, os mais novos equipamentos culturais, esportivos e tecnológicos, com horário integral em todas elas. É possível que isso ocorra aqui tanto quanto foi possível na França, tal como Raí foi testemunha.

O Brasil está amarrado na falta de educação para todos e isso decorre da falta de indignação com nosso atraso educacional em relação a outros países e com a desigualdade na oferta de vagas às nossas crianças, conforme a renda de suas famílias. Ainda não nos desamarramos porque não valorizamos o conhecimento. Preferimos a produção e a renda, sem percebermos que a verdadeira riqueza depende do conhecimento. Não olhamos para frente, em sintonia com o “espírito do tempo” – demoramos a fazer a abolição da escravatura e agora demoramos a entender que negar a educação é a forma de escravizar quem não a recebe e de atrasar toda a nação, que sofre as consequências por não aplicar o conhecimento.

Por isso mantivemos a escravidão por quase 70 anos, depois da independência, e estamos há mais de cem, desde a República, sem fazermos o que precisamos para ter uma educação boa para todos, como Raí viu na França.

Cristovam Buarque é senador pelo PPS-DF e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).