Otimismo fabricado

As previsões são sempre otimistas. Nas datas mais relevantes as associações comerciais, industriais, shoppings e e-commerce divulgam as perspectivas de venda. As declarações, como sempre, dão conta que  neste ano as vendas serão cinco, dez ou quinze por  cento maiores do que o ano passado. A visão é de otimismo. Nunca estimam que vão faturar, produzir, vender menos. Sem dúvida o papel dessas instituições é vender otimismo, ainda que esqueçam que mais importante que as previsões são a credibilidade e o respeito. Passado o evento que motivam vendas tipo  dia das mães, namorados, crianças, black Friday ou Natal, mesmo que os números sejam negativos, algumas associações divulgam resultado pseudamente favoráveis.  Pior é que alguns tendem a acreditar no que se diz  uma vez que eles não demonstrem a menor sombra de timidez . Por isso porta vozes treinados se apresentam como “fontes “ . Não há resultado que resista uma uma simples verificação, porque, por enquanto, não é possível divulgar 48hs depois da data o resultado das vendas. Ainda que os big datas sejam cada vez mais familiares. Enfim é uma tática tanto para estimular os que ficaram a abaixo da meta de venda como os consumidores, quem sabe da próxima vez não reduzam suas compras em “lembrancinhas “. Vale tudo para estimular o consumismo seja lá o que isso quer dizer.

Ao consumidor de notícias resta ficar atento não só ao que se diz, mas como se diz. Há uma seleção  de mensagens, antecipadamente preparadas, para levar o público a acreditar no que querem as “fontes”. Se os jornalistas não apurarem com rigor o que é divulgado se tornam cúmplices na produção industrial de distorção. O menor descuido é fatal para a credibilidade.  As notícias, não importa em que plataforma são divulgadas, precisasm estar recheadas com ligações causais para que as narrativas sejam apreciadas. Um texto com uma sucessão de números, absolutos ou percentuais, raramente atraem a atenção  do público leigo. Muitas vezes nem mesmo dos iniciados. É preciso tornarem mais palatáveis para ganhar audiência. Com o desenvolvimento da internet os jornalistas perderam o monopólio da divulgação de noticias e as entidades passaram a usar suas próprias plataformas digitais e se comunicar com o público diretamente sem a intermediação dos veículos tradicionais. Nesse contexto os jornalistas ganharam mais importância porque investigam se as noticias são  verdadeiras ou não e se as pessoas estão engolindo as fake news. O campo  da economia é mais propício as imprecisões uma vez que são mais técnicos.

 Uma das formas de levar os jornalistas à conclusão  errôneas é  estimular que  alguns raciocinem em cima de premissas falsas. Um método tão antigo quanto a lógica do Aristóteles. Representantes de vários setores da sociedade usam e abusam desse método. Algumas mudanças são inevitáveis como, por exemplo, o crescimento do e-commerce que supera o comércio o tradicional. Dados que comprovam isso são divulgados timidamente uma vez que expõem as contradições. Imagine o que isto significa para os caríssimos e sofisticados shoppings, constituídos por lojas físicas finíssimas. À primeira vista eles estão destinados a se tornarem locais  para lojas conceito, onde vendem marca, moda, comportamento e modo de vida. Novas datas de pico de venda vão  se suceder. As entidades que congregam esses setores da economia precisam mudar seus métodos de divulgação uma vez que os velhos métodos estão desgastados.  Para prever eventos como as vendas na próxima data comemorativa é preciso prever as inovações tecnológicas o que por si só é imprevisível. Ao jornalista cabe se preparar para novos métodos de apuração de notícia e divulgação de análises críticas. Não só nesse campo, mas em todos os outros de interesse social.

Heródoto Barbeiro é âncora do Jornal da Record News e ex apresentador do Jornal da CBN.