Os oceanos estão absorvendo todo excesso de calor do mundo. Mas, o que isso significa?

PUC-RS
Para a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), esfriar os Oceanos será o maior desafio da nossa geração. Escondido da nossa percepção cotidiana, o derretimento de calotas polares e o fim de zonas costeiras ilustram as consequências do desenvolvimento de nossa espécie

Minha primeira reação ao entrar em contato com esse fato foi: “Sim, entendo. Nossa!” Logo depois, ignorei o fato e fui ver minha timeline no Facebook; só li a explicação minutos mais tarde. Compreensível? Os oceanos estão absorvendo todo excesso de calor do mundo mas eu continuo deixando aquela luminária do quarto acesa sem necessidade. Os oceanos estão absorvendo todo excesso de calor do mundo mas eu ainda tomo banhos quentes por mais tempo do que deveria. Os oceanos estão absorvendo todo excesso de calor do mundo e eu continuo fazendo minhas refeições, minha higiene, minhas tarefas – vivendo confortavelmente.

Mas a verdade além da minha, da sua e das nossas rotinas, é que os oceanos estão em meio a uma mudança radical causada pelo homem. Um dos maiores bens da Terra — cobrindo 71% do planeta — está sofrendo transformações provocadas por uma grande massa de mamíferos bípedes com polegar opositor. De acordo com um relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), estamos refazendo o oceano. Todos nós.

“Só existe um oceano global”, como a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês), principal órgão norte-americano de acompanhamento climático costuma dizer. Pequenas mudanças alteram esse enorme sistema: o lixo jogado na costa australiana podem se acumular e formar uma nova mancha nos mares; a poluição brasileira é levada pela maré à África; as ações dos moradores de Porto Alegre afetaram, de alguma forma, as águas em Nova Déli. Todas nossas emissões de carbono são absorvidas por oceanos alguma parte do mundo.

De acordo com o relatório da IUCN, o Hemisfério Sul tem experimentado aquecimento intenso durante a última década – com acumulação de calor forte nas regiões de latitudes médias do Pacífico e Índico. Fenômenos naturais como El Niño e La Niña (que alteram por períodos curtos a temperatura das águas) podem ter efeitos gradativos, assim como tempestades individuais. Segundo os pesquisadores, no último ano, quase todas as superfícies observadas apontaram para médias de temperaturas acima do esperado por conta da combinação – classificada como perigosa – da ação humana somada a esses fatores climáticos.

Querida, vamos mergulhar no ácido?
Primeiro brasileiro a chegar em uma expedição científica ao Polo Sul por via terrestre e diretor doInstituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, Jefferson Simões expõe perspectivas não muito animadoras. “Na pior das hipóteses, ou seja, uma em que agiremos normalmente ao final do século, os oceanos parecerão com algo saído de algum filme pós-apocalíptico”, afirma.

Sentado em uma sala dominada por livros e materiais de pesquisa, o glaciologista explica que não é só o fato de que o oceano tem absorvido mais calor que em qualquer momento dos últimos 10 mil anos e seu nível está aumentando. Ele também está mais ácido. Sua composição química está sendo alterada. Ecossistemas serão reordenados e correntes, alteradas. Para os bilhões que vivem próximos a ele, o oceano ficará mais hostil. Enchentes costeiras ameaçarão cidades, passagens pelo Ártico criarão novas rotas comerciais e pescadores que dependem dos mares para sobreviver terão que se virar pra lidar com os biomas aquáticos em mutação.

Pedaço da Mancha de Lixo do Grande Pacífico. Crédito: Steven Guerrisi/Flickr

Pedaço da Mancha de Lixo do Grande Pacífico. Crédito: Steven Guerrisi/Flickr

Peixes Cadentes
Durante nossa conversa, Simões apontou um fato que estranhei ter apagado de minha memória. O Oceano Pacífico está invadido por um grande depósito de lixo. Para ilustrar o quão grande: estima-se, que seu tamanho já se aproxima de 680 mil quilômetros quadrados, o equivalente aos territórios de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo somados – e não para de crescer.

Simplesmente deletei. Já tinha lido notícias sobre e, inclusive, feito trabalhos de colégio sobre. Mas esqueci. A grande ilha de lixo do Pacífico se encontra a muitos metros de distância da minha realidade. Mas esses quase 680 mil quilômetros quadrados, em crescimento, estão tomando o lugar dos peixes que comemos no cotidiano.

Das diversas espécies que estão sendo pescadas à extinção por todo o planeta, quase nenhuma tem sobrevivência prevista para 2100. Até mesmo os mais temíveis dentre os peixes, os tubarões, estão correndo risco de extinção: impressionantes 100 milhões são mortos todos os anos. O Fundo de Defesa Ambiental (EDF, na sigla em inglês), um conhecido grupo de defesa ambiental, afirma que “de todas as ameaças enfrentadas pelos oceanos hoje, a pesca desenfreada é a que mais atinge a vida marinha e as pessoas”.

Novas Dorothys
Os oceanos funcionam como a esponja de calor enorme da Terra, protegendo os continentes e as pessoas que vivem neles dos extremos atmosféricos. A superfície leva apenas décadas para se aquecer em resposta a concentrações elevadas de gases com efeito de estufa, mas o oceano profundo levará alguns séculos e milênios, elevando o nível do mar durante todo o tempo.

Mas, enquanto isso, as temperaturas oceânicas superficiais aumentam o potencial destrutivo de condições meteorológicas extremas, como ciclones e furacões. Isso pode acarretar uma destruição enorme no interior dos continentes, mas, principalmente, nas costas. Como consequência, a IUCN estima que 60 milhões de pessoas serão forçadas a deixar suas casas até 2050 devido à fatores climáticos. Além disso, o nível de colheitas deverá cair drasticamente em comparação com o início dos anos 2000, provocando novas zonas de fome. O aumento de chuvas e da umidade provocados por esses fenômenos serviria como convite para que insetos transmissores de doenças se espalhem. A ocorrência de verões mais longos também contribuiria para novos surtos de contaminação – realidade semelhante à epidemia de Zika Vírus em 2015.

Quando eu era criança, costumava ter uma praia aqui
Desde 1955, mais de 90% do excesso de calor retido pela Terra foi absorvido pelos oceanos. Isso fez cientistas especializados, como Simões, acreditarem que 90% da história da mudança climática está sendo ignorada. Segundo pesquisa da especialista em mudanças climáticas pela Universidade de Yale, Cheryl Katz, a acumulação de calor nos oceanos equivale a cinco bombas de Hiroshima explodindo a cada segundo, desde 1990. Isso provoca a chamada expansão termal.

Simões esclarece que, mesmo com reduções agressivas nas emissões, um aumento de 28 a 61 cm é esperado. “Neste cenário otimista, talvez vejamos mais do que meio metro de oceano aumentado, com impactos sérios a diversas regiões costeiras, incluindo erosão e um risco muito maior de enchentes.” Ou seja, mesmo que essas emissões sejam reduzidas de modo rápido e súbito, o oceano continuará em expansão agressiva.

Mas, o que significa este aumento no oceano? O “bambambam” da climatologia, o americano James Hansen, descreve que a maior parte de Nova Orleans ficará debaixo d’água com um aumento de (apenas) 1,5m, bem como grandes partes de Miami e Nova York. Algumas cidades talvez sejam poupadas com o uso de tecnologias caríssimas de tratamento de água; outras teriam que mudar de lugar. As mais pobres, seriam evacuadas e abandonadas. Em 2100, então, os oceanos incluiriam ao menos uma parte de alguma infraestrutura humana em suas porções mais rasas; casas de praia, docas, calçadões à beira-mar e as estradas que usávamos para chegar até lá.

Existem algumas ferramentas que ajudam a determinar como o evento irá se manifestar em alguns anos. A Climate Central elaborou um portal interativo que demonstrar o quanto das cidades costeiras e terras dos EUA seriam engolidas pelo aumento das marés. A NOAA oferece serviço semelhante, mas com possibilidade de explorar outras áreas.

E agora?
As minhas idas à praia na infância eram sempre acompanhadas de múltiplos avisos da minha mãe para não dar as costas ao mar. Isso acontecia, principalmente, se me distraia brincando na beira das ondas. Estranho pensar em como as gerações futuras e, eu mesma, no final da minha vida, irei ver o mesmo mar para o qual, inconsequente, dava as costas quando criança.
Como alento, ao final da entrevista, Simões ainda demonstra estar esperançoso. Ainda dá tempo”, ele conclui.

Texto: Giovana Fleck
 FONTE: Famecos/PUC-RS